Reclamações de vizinhos em condomínios crescem 300% na quarentena

Reclamações de vizinhos em condomínios crescem 300% na quarentena

Em cinco meses de isolamento social, moradores se veem às voltas com reformas, festas e recusa de vizinhos em respeitar regras de biossegurança; infectologista e filósofo comentam riscos

Bianca Zanatta

30 de agosto de 2020 | 05h02

Disse o filósofo francês Jean-Paul Sartre que “o inferno são os outros”. Apesar da liberdade de fazer escolhas que vão nos moldando como indivíduos, a convivência com as pessoas expõe nossos erros e fraquezas. Mais do que isso, a convivência com vizinhos em meio à pandemia do novo coronavírus trouxe à tona uma série de comportamentos individualistas – e o resultado foi uma avalanche de reclamações, advertências e multas nos condomínios.

Segundo a Associação das Administradoras de Bens Imóveis e Condomínios (AABIC), as reclamações aumentaram até 300% por mês. Entre os motivos estão o barulho em excesso, como crianças brincando, aulas de instrumento musical, atividade física e som alto, obras fora do horário permitido e pessoas circulando sem máscara de proteção nas áreas comuns do prédio.

O SAC do Grupo Graiche também registrou aumento de 200% nas reclamações. Do total, 50% são por barulho de crianças ou reformas nas unidades autônomas. Na sequência, o uso de espaços comuns sem máscara (30%), sendo as academias as principais zonas de conflito, e calçados e objetos deixados no hall de entrada (15%). Houve ainda reclamações inéditas, como cheiro de cigarro e “fumos diversos” (5%).

Antes de registrar queixa, os vizinhos incomodados costumam apelar para o síndico. “Para amenizar conflitos com obras, por exemplo, alguns estipularam horários específicos para realizar as reformas, o que diminuiu as reclamações”, diz Leonardo Boz, CEO da administradora digital LAR.app, que teve aumento de 307% nas reclamações por obras e 254% no número geral de notificações durante a pandemia.

Como prevenir ainda é o melhor remédio, tanto para a covid-19 quanto para a coexistência, a administradora distribuiu um e-book com seis dicas para melhorar o convívio no período de isolamento social: “tenha cuidado com o barulho”, “aguarde para realizar obras”, “sempre consulte os moradores”, “tenha cuidado com a reabertura das áreas comuns”, “crie uma rede de apoio no condomínio” e, claro, “use máscara”.

Natália Helen fala sobre as regras quebradas e o desrespeito dos moradores. Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Não é para menos. Além de resguardar a saúde de todos, a máscara individual também protege o bolso. A Resolução SS-96 da Secretaria da Saúde de São Paulo determinou multa de R$ 524,59 para quem estiver circulando em ambientes públicos sem máscara – e isso inclui os espaços comuns dos prédios, que também podem ser multados em R$ 5.025,02 se a infração for detectada.

Segundo Thiago Badaró, advogado especialista em direito condominial e professor na Escola Superior de Advocacia da OAB, é possível comunicar à autoridade sanitária caso um morador se recuse a respeitar a regra. “Apesar de, neste primeiro momento, após apurada a denúncia, o condomínio ser o responsável a pagar a multa, ele poderá entrar com a ação de regresso em face do morador que ocasionou a aplicação da penalidade para ser ressarcido.”

Risco de contágio deveria nortear comportamento

Entender que o Brasil está em uma fase de platô alto da pandemia é essencial para que as pessoas revejam suas posturas, avalia Antonio Carlos Misiara, médico infectologista do Hospital Sírio-Libanês. “Do ponto de vista individual, há presença do vírus circulante e precisamos tomar todos os cuidados possíveis”, sublinha.

Ele lembra que a possibilidade de transmissão aumenta em ambientes fechados, como elevadores, por isso não dá para ignorar normas como o uso obrigatório de máscara e quantidade máxima de usuários por vez. “É uma questão matemática”, diz. “As chances de transmissão se houver só duas pessoas são menores do que se houver quatro e o tempo de exposição também conta.”

O infectologista sugere ainda uma reavaliação do que é importante agora. “Por exemplo, preciso fazer academia porque ‘tô’ pirando dentro de casa, preciso ir ao médico, mas preciso ir ao bar tomar cerveja com meus amigos? Preciso juntar 20 pessoas em casa para comemorar o dia dos pais?”, questiona. “É esse ‘precisar’ que deve ser discutido porque ainda não estamos num momento de tranquilidade em relação ao vírus.”

A jornalista Natália Helen, de 34 anos, conta que muitas regras começaram a ser burladas no prédio em que vive, na zona leste de São Paulo. Além do grande número de pessoas sem máscara e moradores que insistem em dividir o elevador, o toldo do primeiro andar, que é uma varanda para uso comum, virou alvo de biribinhas, bitucas de cigarro e até preservativos.

Clóvis de Barros Filho, filósofo e professor de ética. Foto: Acervo do Espaço Ética

É o barulho, porém, que tem tirado o sono da jornalista. O novo locatário do apartamento vizinho ainda está de mudança, mas já recebe amigos para festinhas. “Teve muita bebida e gritaria, Belchior tocando no último volume até as 4h da manhã numa quinta-feira e convidados zanzando sem máscara no corredor”, conta. No final de semana, o evento se repetiu. Ela já reclamou com o síndico e anotou a queixa no livro do condomínio. “Ele não respeita os vizinhos nem a doença.”

‘Surto psicótico coletivo’

Síndica de um prédio em Moema, bairro nobre da capital paulista, a administradora de empresas Marina Leme, de 45 anos, relata que os moradores têm vivido em pé de guerra. As ocorrências incluem brigas de casal no meio da noite, o inquilino que deu festa na cobertura e saiu no corredor para fumar usando trajes mínimos, a moradora que já levou quatro advertências por forçar a porta do elevador e agredir verbalmente quem estava dentro e uma senhora que invadiu o apartamento da vizinha ameaçando bater nela.

Só em agosto, já foram sete advertências. “É um surto psicótico coletivo”, desabafa. “Pessoas que já eram problemáticas demonstraram que conseguem atingir níveis astronômicos de falta de noção.”

O filósofo e professor de ética Clóvis de Barros Filho afirma que estamos pagando um preço alto pela falta de educação. “Em algumas sociedades há traços culturais e comportamentais diretamente ligados ao hábito de pensar no bem-estar do outro, que as pessoas desenvolvem desde crianças em um processo educativo”, explica.

“A vida em condomínio multiplica os encontros e afetos e, com essa carência generalizada de educação ética, características da natureza humana como egoísmo, comodidade e impulsividade acabam prevalecendo.”

Por existir justamente para resolver problemas da vida, ele diz que a ética deve compreender as especificidades de uma quarentena. “Em vez de aproveitar que está em casa para fazer reforma, que tal pensar que é o pior momento para isso, já que os vizinhos vão ter que aguentar horas sucessivas de marretada na cabeça?”, exemplifica.

E como o debate ético gira em torno do que é mais importante preservar, para ele o uso de máscara nem deveria entrar em questão. “A máscara protege um valor maior, que é a saúde, a sobrevida”, ressalta. “Nenhuma comodidade pode estar acima desse valor.”

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