Reformas são estratégia para vender imóveis usados e em mau estado de conservação

Reformas são estratégia para vender imóveis usados e em mau estado de conservação

Ao retirar do futuro dono as dores de cabeça causadas pela reforma, empresas viram margem de lucro e interesse por casas recauchutadas subirem; para executivo, mercado busca por produtos 'prontos para o consumo'

Bianca Zanatta, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2021 | 05h00

Especial para o Estadão

Muitas pessoas que querem comprar um imóvel usado acabam adiando os planos porque não estão dispostas a lidar com as dores de cabeça da reforma, que pode envolver altos custos, problemas com mão de obra e atrasos no cronograma de entrega. Após perceber que muitas unidades de seu portfólio próprio com alto potencial de venda ficavam paradas justamente por não estarem bem conservadas, a startup Loft passou a aplicar, em abril, o modelo “pronto para morar”. A empresa avalia o estado de conservação do imóvel e decide que tipo de reparo é necessário, compra o apartamento, coloca a documentação em dia e, então, a equipe de reformas entra em ação para fazer um pacote de melhorias rápidas.

“São itens como pintura, manutenção básica da elétrica e troca de luminárias antigas ou com defeito, móveis embutidos ou planejados e pisos que precisam de reparos”, diz Guilherme Nazar, VP da área de apartamentos próprios da Loft. “Esses reparos não são complexos, mas demandam tempo e algumas burocracias, como encontrar bons prestadores de serviço. Isso muitas vezes acabava diminuindo a atratividade do imóvel.”

Nos três meses que se seguiram ao lançamento do novo modelo, com 200 imóveis recauchutados e prontos para receber novos moradores, a empresa teve um aumento de 15% nas vendas e os agendamentos de visitas desses apartamentos representaram 70% do total. “O mercado cada vez mais vai exigir produtos instantâneos, prontos para o consumo, e a tendência é esse comportamento se aplicar a bens como um imóvel”, acredita o executivo.

‘Plug & play’

Uma startup que nasceu de uma decepção. É assim que o empresário Rony Susskind começa a contar a história da SI Advisors, que trouxe para o mercado de imóveis usados de São Paulo o conceito de “plug & play” – o cliente compra e já pode se mudar no dia seguinte. “Quando eu comprei meu apartamento, que era o sonho da minha vida, senti que fui enganado para fazer a reforma.

Prometeram a obra em 10 meses, e durou mais 2 anos”, lembra. “ Tenho um amigo que fala que obra você não acaba, você abandona. A SI Advisors foi criada para evitar que outras pessoas tenham essa mesma decepção.”

Para colocar a ideia em prática, a empresa compra apartamentos usados em bairros nobres como Moema, Vila Nova Conceição, Higienópolis, Jardins e Perdizes, sempre em prédios bem conservados e com vista, para então fazer uma reforma integral. “Nós não reformamos, nós reconstruímos o apartamento. Destruímos e arrancamos tudo: piso, parede, fiação, hidráulica. Não sobra nada. E aí reconstruímos do zero.”

Além da relação direta com fabricantes e fornecedores, que reduz muito o custo dos insumos, a startup conta com uma equipe própria completa, dos departamentos de arquitetura e engenharia ao time de campo, entre pedreiros, pintores, eletricistas e encanadores. “Passamos a contratar com salário acima do mercado. Sempre que conhecíamos um bom profissional, sugeríamos que trabalhasse com exclusividade para a SI Advisors”, diz Susskind, que criou também marmoraria e marcenaria próprias.

A marcenaria, aliás, cresceu tanto que virou uma empresa à parte. Hoje é um braço que atende só São Paulo, mas no início do ano que vem já deve entregar para todo o Brasil. “Os sofás também são feitos por um tapeceiro que é exclusivo nosso, os tecidos das cortinas somos nós que importamos. Hoje, de A a Z, temos absolutamente tudo em casa”, diz.

Segundo ele, os clientes começaram a sugerir que eles também decorassem os apartamentos. “E aí foi o que fizemos. Nós entregamos o apartamento totalmente pronto para morar, com cama, colcha, quadros, luminária, papel de parede, tudo”, diz o empresário.

Apesar de todo o investimento, Sussking fala que os imóveis têm preços abaixo da média do mercado para os bairros em que estão localizados (entre R$ 9 mil e R$ 12 mil o metro quadrado). “Pode parecer uma loucura, mas a maneira com que a gente reforma é muito barata para nós porque criamos essa rotina de comprar direto da fábrica e fazer sempre com a mesma equipe e os mesmos acabamentos”, explica.

Transformação

Outra empresa cuja origem se confunde com a história de vida dos sócios é a Casa Unique, que também trabalha no modelo de reformar para vender. De acordo com a sócia Marina Dalul, ela e o marido, Pedro Byington, decidiram reformar um imóvel quando iam se casar – mas foram abandonados pelo empreiteiro no meio da obra. “Como já vinha de muitos anos no mercado imobiliário, o Pedro decidiu tocar ele mesmo a obra, enquanto eu tocava o casamento”, conta.

Logo o projeto pessoal virou negócio. Com a experiência do casal de sócios, a Casa Unique já comprou e reformou mais de 60 apartamentos em bairros paulistanos como Jardins e Itaim Bibi. “A gente começa com um cuidado muito grande na seleção do imóvel”, explica a empresária. “Onde está localizado, qual a estrutura do edifício, qual a vocação do apartamento e o que a gente pode fazer de transformação. Quando você fala de apartamentos usados e mais antigos, tem de entender que as necessidades da vida de hoje são muito diferentes de 40 anos atrás, o layout é outro.”

A empresa também reconstrói os imóveis por completo, de hidráulica, elétrica e revestimento a marcenaria e cozinha completas. Para isso, conta com uma equipe interna de arquitetura e engenharia e uma lista desenvolvida ao longo dos anos de fornecedores que se encaixam no propósito de alta qualidade.

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