Startups mudam o jeito de se consumir moradia
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Startups mudam o jeito de se consumir moradia

Tecnologia abre espaço para novas empresas que suprem gargalos dos setores imobiliário e construtivo

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31 de março de 2019 | 06h05

Júlia Zillig
ESPECIAL PARA O ESTADO

O universo das startups no Brasil segue em expansão em setores como finanças, saúde e educação, e agora também no mercado imobiliário. As empresas de base tecnológica chegam ao segmento com soluções para aliviar as deficiências do setor, conhecido por altos custos, falta de parametrização de dados e pouca inovação. São negócios que refrescam os modelos antigos de compra, venda e locação de imóveis.

Apesar de o movimento ser considerado recente, já existem startups desse mercado candidatas ao status de unicórnio – que valem mais de US$ 1 bilhão –, caso da QuintoAndar e do VivaReal, após fusão com Zap Imóveis.

A QuintoAndar inovou ao simplificar o modelo de locação de imóveis tirando o fiador da jogada, com todo o processo feito digitalmente. Recentemente, a empresa recebeu investimentos na ordem de R$ 250 milhões do fundo americano General Atlantic. Segundo Gabriel Braga, CEO e cofundador da empresa, o próximo passo é estabelecer parceria com as imobiliárias tradicionais para ofertar os imóveis delas na plataforma da empresa.

Clarissa Vieira, uma das sócias da Keycash, startup que compra e vende apartamentos em São Paulo. FOTO: Felipe Rau/Estadão

Quando o assunto é compra e venda, a empresa americana Opendoor, que atua no mercado de real estate desde 2014, foi a fonte de inspiração das empresas brasileiras Keycash e Loft.

Ambas trouxeram do modelo de negócio dos Estados Unidos a combinação de uso de plataforma digital, inteligência de dados e mão de obra especializada para encontrar os melhores imóveis, estabelecer a precificação adequada, investir em reformas (se necessário) e colocá-los de volta ao mercado para venda, trazendo dinamismo e liquidez ao mercado de usados.

Criada em 2017 por Paulo Humberg, um dos pioneiros da internet no Brasil, a Keycash nasceu de um aporte de US$ 10 milhões após um longo estudo de mercado. A ele se juntaram Rogério Santos, com mais de 30 anos de experiência no ramo imobiliário, Caio Sarhar, com expertise em grandes empresas da área de logística e energia, e Clarissa Vieira, ex-executiva  da Ernst&Young. Após um período de imersão nos Estados Unidos, a Keycash começou a comprar imóveis no fim do ano passado, focando inicialmente em negociações de R$ 500 mil a R$ 1 milhão em bairros nobres como Higienópolis e Itaim Bibi.

Baseada na busca de giro rápido, a startup faz uma triagem de imóveis cadastrados pelos proprietários em sua plataforma, analisa a precificação e faz uma oferta. Depois, a equipe visita o imóvel e, se o negócio for concluído, a Keycash paga o valor à vista para o cliente.

A empresa inova ao resolver o problema do imóvel parado – em vez de o proprietário levar dois anos tentando vender um apartamento por R$ 1 milhão, por exemplo, pode sofrer uma perda de cerca de 20% ao vender para a startup, mas podendo investir o dinheiro já à mão.

Em situações em que o imóvel precisa de reforma, o local recebe reparos e depois é colocado à venda por meio de imobiliárias, com o suporte online da empresa. “Não temos dúvida de que a relação de compra e venda de imóvel no Brasil está mudando”, diz Clarissa, que sofreu ela mesma  tentando por dois anos vender um imóvel.

Segundo ela, a intenção da Keycash é atingir 3% do mercado imobiliário brasileiro nos próximos cinco anos. A mesma receita de bolo é adotada pela Loft, que está no mercado desde 2018 e vem recebendo aportes de investidores como Andreessen Horowitz, Thrive Capital e Monashees.

Para o sindicato da habitação de São Paulo, “as startups vão trazer mais fluidez para o mercado de imóveis usados”, diz Élbio Fernandez Mera, vice-presidente de intermediação imobiliária e marketing do Secovi.

Pesquisa aponta pouca tecnologia no setor construtivo

Apesar da chegada de startups para modernizar o setor, ainda há um longo caminho pela frente. Pesquisa realizada com 502 companhias brasileiras (302 construtoras, 152 fabricantes e 50 projetistas) apontou que, no ranking das ferramentas tecnológicas mais utilizadas, a categoria softwares foi a única assinalada pela maioria das empresas. Tecnologias como impressão 3D e drones são citadas apenas com potencial de aplicação para o futuro, segundo o Mapeamento do Grau de Digitalização na Construção Civil feito pela empresa EnRedes, que reúne empresas de diversos elos da cadeia.

Para Alberto Ajzental, coordenador do curso de Desenvolvimento de Negócios Imobiliários da FGV-SP, isso é um retrato fiel da realidade. “São mercados muito conservadores em todos os aspectos, com técnicas construtivas ainda bastante centenárias e práticas mercadológicas pouco modernizadas.”

Presidente do EnRedes, Roberto de Souza destaca estar trabalhando para criar um ecossistema com startups americanas para a troca de experiências. “O objetivo é trabalhar a inovação compartilhada para encontrar novos rumos para o setor.”

O sindicato da construção civil vê as iniciativas com bons olhos. “As novas ideias trazidas por essas empresas mais jovens vão ajudar a renovar os processos das indústrias já consolidadas no mercado”, enfatiza Francisco Antunes de Vasconcellos Neto, vice-presidente do Sinduscon-SP (Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo).

No Sul, a Wow Aceleradora de Startups, de Porto Alegre, tem notado o aumento do interesse de startups pela construção. A Wow conta com 170 investidores de grandes corporações e já investiu mais de R$ 8 milhões em empresas de base tecnológica de diversos setores.

Segundo o Radar Construtech Ventures de Startups de Construção e Mercado Imobiliário, hoje são 562 empresas de base tecnológica atuando em vários setores do ramo no País. O radar é produzido pela Construtech Ventures, organização que investe na criação de startups do setor com recursos próprios.

“Se essas empresas não migrarem para o mundo digital, perderão mercado”, ressalta Bruno Rondani, CEO do ranking 100 Open Startups.

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