Startups põem reforma e decoração ao alcance do celular
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Startups põem reforma e decoração ao alcance do celular

Empresas apostam no ambiente virtual para facilitar acesso a serviços; conselho de arquitetura pondera projetos à distância e em curto tempo

Isaac de Oliveira

15 de março de 2020 | 06h00

Especial para o Estado 

Reformar um cômodo ou um imóvel inteiro é um momento marcado por muita expectativa em torna das obras. Elas necessitam não só de tempo e investimento, como também de expertise para administrá-las. Essas barreiras, contudo, vêm sendo ultrapassadas por meio de alguns cliques, com startups voltadas a facilitar o acesso a serviços de arquitetura e decoração.

“(Reforma) sempre foi uma coisa que me incomodou”, assume Luiz Fernando Reis, de 46 anos. O administrador de empresas passa pela terceira reforma, mas, desta vez, optou por contratar uma plataforma digital de reformas, a Home Hero, para transformar seu novo apartamento. “Eu trabalho o dia inteiro, não tenho tempo para ir à obra. Mais do que isso, não gosto.”

Durante esta obra, com a ajuda do aplicativo, ele foi apenas três vezes ao apartamento. “Tudo foi decidido pela plataforma, com dois encontros pessoais com a arquiteta. Depois, ela passava os modelos pela plataforma.”

A Home Hero é um marketplace de reformas, com 30 arquitetos ativos e mais de 50 fornecedores de produtos e serviços em São Paulo. Pelo site, cliente e arquiteto decidem o projeto, com todo o detalhamento de custos e prazos. Fechado o negócio, um gestor de projeto acompanha toda a execução dos serviços.

Reprodução da plataforma Home Hero

“Hoje o nosso foco são reformas completas. A gente não faz um ambiente específico. O preço gira em torno de R$ 1.500 o metro quadrado. Mas varia de acordo com o nível da reforma. Quando a gente fala em alto padrão, o valor pode chegar a R$ 5.000 o metro quadrado”, explica Ythalo Silva, CEO da startup.

A empresária Rosângela Spinola, de 48 anos, reformou o apartamento de 300 m² com a Decorati, em 2017, e destaca o contato facilitado. “Não precisava ir à obra todos os dias. Eu tinha um relatório diário e sabia o que estava acontecendo.”

A Decorati permite que os clientes façam o orçamento online e agendem uma reunião presencial ou virtual em até 24 horas. Os passos da reforma podem ser acompanhados via aplicativo e as obras são entregues em um prazo médio de 90 dias úteis.

Há também opções para quem busca apenas decoração, inclusive de um único espaço do imóvel. A plataforma Arquiteto de Bolso, por exemplo, promete em no máximo duas horas e 100% online, um projeto de decoração de um cômodo a partir de R$ 99. Se os clientes comprarem produtos e serviços com fornecedores parceiros, a consultoria pode ser até gratuita.

“Ao longo das duas horas, o cliente recebe layout, perspectivas em 3D e uma lista de compras com todos os produtos, quantidades e preços do que foi validado com o arquiteto”, explica Daniel Alves, co-fundador da Upik, empresa criadora da plataforma.

Decoração de imóvel realizada via Decorati, startup do setor. Foto: Mariana Lima

O processo de compra é similar às demais soluções. No ambiente online, o cliente responde a perguntas e envia fotos e medidas do ambiente. Em seguida, um dos 50 arquitetos desenvolve o projeto com base nas informações prestadas. A execução fica sob a responsabilidade do cliente, que também pode contratar fornecedores parceiros.

No caso da construtech InstaCasa, a plataforma funciona como o “decorado” de loteamentos. Em vez de olhar maquetes ou terrenos descampados, o comprador tem a opção de ver diversos projetos que se encaixam no lote.

Essa visualização facilita o processo de decisão de compra, avalia Maurício Carrer, CEO da empresa. “A gente consegue apresentar o que ele consegue construir ali, virtualmente. Porque as pessoas têm necessidades diferentes. Independentemente do que queiram, elas vão encontrar algum projeto. Isso é bom, por exemplo, para lotes em aclives e declives.”

Daniel Alves, da Arquiteto de Bolso, destaca que, ainda que a empresa ofereça serviços de decoração e que a execução fique por conta do cliente, há um trabalho de conscientização sobre a importância de sempre ter um profissional conduzindo as reformas.

“Há um problema no Brasil. As pessoas, achando que vão ter uma economia, acabam tocando a obra sozinhas. Dependendo do porte da obra, isso vai trazer dor de cabeça e um custo muito superior do que se ela contasse com um profissional. As pessoas só descobrem isso no meio do caminho”, frisa.

Crescimento responsável

Novos modelos de negócio do setor construtivo, as construtechs quase quadruplicaram nos últimos dez anos, informa a Associação Brasileira de Startups (Abstartups). Conforme dados da StartupBase, há 149 novas construtechs da construção civil em atuação no País. Em 2010, eram 51 startups, o que indica um aumento de 192%.

O arquiteto e coordenador do curso de pós-graduação de Design de Interiores da Faap Jéthero Miranda explica que, no Brasil, as pessoas ainda não costumam contratar arquitetos para as reformas, o que gera riscos e prejuízos diversos.

Sócios-fundadores da plataforma de reformas Home Hero. Foto: Marco Antonio

“A população não tem a menor ideia de como fazer uma reforma, que material escolher, qual cor colocar, a qualidade. Ela fica nas mãos de vendedores e da sua própria intuição”, diz. “Eu vejo de maneira positiva qualquer empresa ou atividade que amplie a possibilidade do contato com o profissional.”

O Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo (CAU/SP) defende a promoção da arquitetura e do urbanismo para todos, mas pondera a forma como isso se dá. Para a entidade, os serviços à distância e em curto tempo não deve se reduzir “à mera produção de um desenho”.

Em nota, o CAU/SP se disse atento ao surgimento dessa nova oferta de serviços e que tem tomado providências no sentido de fiscalizar o exercício profissional primando pelas boas práticas.

“Quando um arquiteto e urbanista, devidamente registrado em seu conselho profissional, realiza qualquer atividade técnica, é obrigado a emitir um Registro de Responsabilidade Técnica (RRT). Este documento é uma garantia para a sociedade de que o profissional está habilitado para prestar aquele serviço e assume a responsabilidade por aquela atividade, estando sujeito a punições no caso de infrações ético-disciplinares”, diz o comunicado.

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