Viver com o macabro em Nova York
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Viver com o macabro em Nova York

Imóveis onde ocorreram mortes ou crimes já não são estigmatizados, até em razão de o mercado imobiliário ficar cada vez mais competitivo na cidade

Claudio Marques

03 Dezembro 2016 | 07h42

Sex Pistols: Johnny Rotten (à esq.) e Sid Vicious, cujo apartamento onde ele morreu foi alugado, mas corretor avisou antes sobre a morte

Sex Pistols: Johnny Rotten (à esq.) e Sid Vicious, cujo apartamento onde ele morreu foi alugado, mas corretor avisou antes sobre a morte

Por Kenneth R. Rosen / THE NEW YORK TIMES
Encarregado de mostrar um apartamento no Windsor Terrace, Brooklyn, a caminho do local, o corretor virou-se para o casal interessado em alugá-lo e disse algo desnecessário. “Antes de chegarmos lá, quero lhes dizer que o rapaz que viveu antes no imóvel se suicidou.”
Os futuros inquilinos, Julia Dahl e seu namorado, Joel Bukiewicz, trocaram olhares inquietos, mas de qualquer maneira foram examinar o imóvel. Além disso, em 2007, o aluguel era bem alto: um apartamento de um quarto em um edifício construído antes da guerra, por US$ 1.250 na extremidade sul de Prospect Park. Apesar do revelado pelo corretor, o casal fechou o contrato e se mudou para o apartamento no dia do Halloween.
Pouco tempo depois, seus vizinhos acabaram conversando sobre o antigo locatário, que havia se matado no apartamento algumas semanas antes de o imóvel ser anunciado para locação. “Fizeram um bom trabalho de limpeza”, disse o vizinho.
Julia Dahl, 39 anos, que escreve livros de ficção criminal, e seu agora marido, Joel Bukiewicz, viveram no aconchegante apartamento durante quatro anos. A situação era bizarra, não porque uma pessoa morrera naquele espaço, mas porque o corretor os alertara para o ocorrido. Julia e o marido poderiam jamais ter conhecimento daquela história horripilante, se ninguém lhes tivesse relatado.
Nos últimos anos, segundo os corretores, um apartamento em que alguma pessoa morreu não constitui um empecilho, à medida que o mercado imobiliário se torna cada vez mais competitivo e uma pechincha fica cada vez mais difícil.
Os corretores chamam esses imóveis de propriedades estigmatizadas, mas no Estado de Nova York o que se exige é que os defeitos materiais sejam revelados: canos que vazam, danos provocados por cupins, infestações de percevejos. A imobiliária não é obrigada a revelar se a propriedade foi local de uma morte – um suicídio ou homicídio – ou de um crime.
Revelar o passado macabro de uma propriedade pode parecer um problema ético, e compradores ou locatários provavelmente irão descobri-lo por si próprios, mas alguns afirmam que os corretores, no caso de venda ou locação de um imóvel, devem manter certas coisas em segredo.
Para Randall Bell, economista e autor do livro Real Estate Damages, que fez consultas sobre avaliações de propriedades famosas, como a casa de O.J. Simpson e JonBennet Ramsey, um estigma pode tirar 25% do valor do imóvel. “Meu conselho para os corretores é que digam a verdade. Geralmente aconselho a manter a propriedade ocupada. Não deixar que fique vazia.”

Reprodução do cartaz do filme

Reprodução do cartaz do filme

Casa famosa. Se uma residência se torna uma vitrine pública – como a casa em Long Island que inspirou o livro The Amityville Horror e filmes com relatos dos assassinatos que ali ocorreram em 1974, a preocupação com a privacidade pode afastar interessados potenciais em comprá-la e fazer despencar o seu valor.
Alugar ou comprar um apartamento independentemente da sua história é uma mudança notável de mentalidade em comparação com a ideia dominante antes da recessão e da explosão da bolha imobiliária em 2008, dizem os corretores. Hoje, a luta para encontrar uma habitação a preço acessível diminuiu as expectativas, ao mesmo tempo com os aluguéis cada vez mais altos.
Emma Grady, escritora que vive no Brooklyn, mudou-se para Nova York em novembro de 2008. Depois de viver num quarto “do tamanho de um closet” em Chelsea, decidiu se mudar para um apartamento em Greenwich Village. “Não conhecia muito o bairro e nem a sua reputação. Era completamente nova em Nova York.”
O apartamento que alugou ficava na Bank Street 63, onde o músico de rock-punk John Ritchie, conhecido como Sid Vicious, morreu de overdose. Emma soube mais tarde da história por um vizinho.
Não ocasião não pensou muito no caso. Para começar, não sabia quem era Sid Vicious. E depois, o fato ocorrera mais de 20 anos antes e outras pessoas tinham vivido no local sem problemas. “O apartamento foi reformado, portanto não dava a sensação de ser o mesmo de outrora”, disse ela.
Nos seis meses em que viveu ali, Emma, hoje com 30 anos, mudou o quarto onde dormia várias vezes. Sempre se lembrava da morte e se perguntava se estaria dormindo no mesmo espaço em que o cantor morreu.
“Jamais tive a sensação de o apartamento estar assombrado. Tantas pessoas vivem em apartamentos em Nova York onde alguém morreu e elas simplesmente não sabem. Acho que é preciso aceitar um pouco de excentricidade no dia a dia para se viver em Nova York, por isso não me surpreendeu.”
Apesar de Julia Dahl e o marido terem se mudado para o bairro de Gowanus, no Brooklyn, e aumentado a família, ela credita seu sucesso de escritora ao apartamento no Windsor Terrace marcado por um suicídio. Não fosse isto jamais teria investigado o que era o hassidismo (corrente mística do judaísmo), que o antigo inquilino praticava e que hoje ocupa um espaço importante em seus romances.
Julia achava que o apartamento em Windsor Terrace seria um local infalível para se encontrar um fantasma, caso existissem. E gostava de procurar espíritos quando uma oportunidade se apresentava: quando o gato agia de modo estranho, ou ela estava só no apartamento escuro ou se via de pé diante do espelho do banheiro.
Mas nada aconteceu, e a vida seguiu seu curso. “Jamais vi algo anormal ali. Se ali havia um fantasma, ele era um muito amistoso”. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO