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Uma vitrola estilo maletinha para paquerar

Nayara Fraga

22 de setembro de 2012 | 07h00

::BAÚ TECNOLÓGICO::

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Vitrola como peça decorativa, não. O estudante de administração pública Marco Aurélio Realino, de 24 anos, gosta é de música. Dono de uma Grunding Studio 111 — vitrola antiga, herdada do pai —, ele passou muito tempo buscando uma vitrolinha um pouco mais jeitosa para preencher o vazio do quarto na república em que mora em Araraquara. Isso porque, quando se mudou de São Joaquim da Barra para a cidade, há cinco anos, levar a pesadona Grunding não era uma opção viável.

Encontrar uma vitrola portátil em perfeito funcionamento não foi fácil. Ele disse ter feito uma busca persistente na internet. “Só achava umas muito caras ou umas que nem funcionavam”, conta Marco Aurélio. Cerca de cinco anos se passaram. Ele continuava na busca do melhor custo-benefício, e sua coleção de 85 discos o aguardava. Só era possível aproveitar os vinis na casa dos pais, em São Joaquim da Barra.

Foi quando a namorada dele, Daniele, o levou a uma casa de penhor em Araraquara em abril deste ano. “Quem sabe lá não tem?”

O dono da loja mostrou a Marco Aurélio uma Sonata Philips 133, por R$ 150. Era o que estava procurando. Uma vitrola portátil e leve. Com a tampa encaixada, vira uma maleta. Mal acreditou.

Levou para casa e colocou para tocar o primeiro disco que encontrou – um vinil do Radio Head. “A foto é do primeiro disco que ouvimos juntos (ele e a namorada)”, disse Marco Aurélio sobre a foto enviada (acima) ao Radar Tecnológico. Para conferir a originalidade do aparelho, ele foi até um técnico. Tudo certo. Aproveitou para trocar a agulha.

Desde então, a Sonata Philips 133 é a segunda companheira do rapaz (depois da namorada). “Ela está aqui todos os dias rodando as bolachas”, contou, empolgado.

Marco Aurélio curte o rock progressivo. No dia em que conversou com este blog, ele havia escutado um disco de 1973 da banda O Terço, outro da Som Nosso de Cada Dia e um de Jarbas Mariz. Mas têm seu lugar especial os seis discos que ele herdou do pai, entre os quais Os Reis do Iê iê iê, dos Beatles, James Brown e Jorge Ben. Marco Aurélio limpa todos os discos uma vez ao ano, “que é para eles durarem”.

Paquera

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Antes de Marco Aurélio e seus 20 e poucos anos – que pertence a um grupo atípico de jovens ligados em vinis e música dos anos 1960 e 1970 – houve seus pais e quem de fato viveu essa época.

Um bom exemplo disso é Luiz Calanca, de 59 anos, dono da tradicional loja de discos Baratos Afins, que fica na Galeria do Rock, em São Paulo. “Tarado por vitrolas vintages”, como ele mesmo se define, ele carrega uma delas no carro aonde quer que vá. Quando surge a oportunidade, ele a tira do porta-malas e põe para tocar.

Calanca também teve uma Sonata Philips 133, vermelha e branca. Embora faça a ressalva de que vitrolas desse tipo são frágeis e não são para discófilo que se preze, ele guarda boas lembranças da que teve.

“A gente levava a vitrola a piqueniques e paquerava as garotas pelo reflexo do vinil”, lembra. Ele conta que também era comum levá-la a bailinhos e conectar a um amplificador.

“Quantas namoradas…”, recorda. “Quem tinha vitrola se sentia um astro de rock!”

Desse tempo, ficou na memória de Calanca também as muitas cópias de vinis que havia no serviço de alto-falante* em que trabalhava em Flórida Paulista, interior de São Paulo. Ele descobriu, só há poucos anos, que as pessoas compravam mais de uma cópia do mesmo disco porque a agulha estragava o vinil, feito de cera de carnaúba. Esse foi o motivo de Mario Zan vender mais discos que o número de vitrolas existentes no Brasil, segundo Calanca.

Enquanto isso, nos nossos anos 2000, Marco Aurélio curte o som do vinil com a namorada (que conheceu no show do Paul McCartney em 2010 em São Paulo) em casa. E depois vai para a faculdade com o iPod na orelha.

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Abaixo, a ‘vitrolinha’, como ele chama a Sonata Philips 133, em ação. Valeu pelo vídeo, Marco Aurélio.

Uma busca no acervo do Estadão mostra que a vitrola portátil aparecia comumente nos anúncios como “eletrofone portátil” entre os anos 1960 e 1980. Os anos 1970 marcaram a época em que a tiragem de discos cresceu de forma significativa no Brasil.

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O Radar Tecnológico entrou em contato com a Philips para obter detalhes sobre os modelos de vitrolas fabricados e números de vendas naquela época. A empresa não retornou o contato até a publicação deste post.

*Serviço de alto-falante é um sistema de som que foi muito usado antigamente em praças de pequenas cidades para noticiar acontecimentos locais e apresentar músicas

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