A diversificação das aplicações para fazer frente às oscilações do mercado

Regina Pitoscia

20 de julho de 2018 | 01h17

(*) Com Tom Morooka

Os caminhos em busca de uma aplicação com rentabilidade mais atraente, apontam especialistas do mercado financeiro, passam pela diversificação de investimentos. No atual cenário de juros baixos, que veio para ficar, quem quiser um rendimento diferenciado do da renda fixa precisará migrar com parte dos recursos para a renda variável, com todos os riscos que uma aplicação nesse mercado embute.

Um dos atalhos para a diversificação mais indicados pelos especialistas, para sair da mesmice dos juros, são os fundos multimercados. Isso porque é uma modalidade de investimento que estende seus tentáculos sobre vários segmentos, com aplicação de recursos na renda variável, como ações, dólar e outros, tanto à vista como futuros, e na renda fixa, como os títulos públicos federais, CDB, debêntures.

O pé fincado na renda variável aumenta o potencial de ganho, embora à custa também de maior possibilidade de perda, dependendo do acerto ou do equívoco da aposta do gestor do fundo na direção dos mercados.

Os percalços recentes dão a medida desse risco. Após bater recordes de valorização até maio, animado com as expectativas de crescimento da economia em ritmo mais alentado e o ciclo de redução dos juros, o mercado de ações sucumbiu à onda de incertezas derivadas da paralisação dos caminhoneiros e interrupção da queda dos juros, internamente, e alta das taxas de juro nos EUA e tensão nas relações internacionais com o acirramento da tensão comercial entre Estados Unidos e China.

Perda na renda fixa

O investidor que insistiu em permanecer na renda fixa, apesar do mergulho das taxas de juro – o juro Selic, a taxa de referência da economia, recuou de 14,25% ao ano, em outubro de 2016, para 6,50%, no momento –, também foi atropelado pela onda recente de turbulência. O choque nos preços dos alimentos, cujo abastecimento foi prejudicado pela paralisação nas rodovias no fim de maio, fez disparar a inflação.

O IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), medida da inflação oficial, acelerou e fechou junho com alta de 1,26%. A inflação corrente, cuja prévia será conhecida nesta sexta-feira com a divulgação do IPCA-15, está estimada em torno de 0,70%.

A escalada da inflação em junho e julho, ainda que considerada temporária, redundará em forte perda real nas aplicações de renda fixa. O rendimento da caderneta, de 0,37% ao mês, e o líquido dos fundos DI e de renda fixa, bastante próximo do da poupança, estarão rodando bem abaixo da inflação, com ganho real negativo ao investidor.

Os dados recentes das aplicações apontam que, no balanço geral, os resultados foram malsucedidos tanto para quem apostou na bolsa de valores quanto em aplicações mais conservadoras, na renda fixa.

Olhando à frente, porém, os especialistas passam a apostar novamente na renda variável, como opção aos juros baixos da renda fixa não tanto por convicção no vigor da bolsa de valores ou na sustentação do dólar. Até porque boa parte dessa movimentação vai depender da corrida eleitoral e das propostas dos candidatos à sucessão com mais chances de vitória.

Versatilidade dos multimercados

Uma das aplicações que poderiam ser favorecidas pelo cenário político são os fundos multimercados. É um fundo em que o rendimento depende, explica o administrador de investimentos Fabio Colombo, dos vários títulos e papeis que o gestor põe na carteira – dólar, ações, títulos de renda fixa, tanto em negócios à vista como em mercados futuros, em posições de compra e também de venda.

Essa diversidade de títulos em carteira e a multiplicidade de estratégias, que podem passar por rápidas mudanças, acentuam o risco da aplicação, assim como tornam mais elevada a taxa de administração e de performance, itens que nem todo investidor tem facilidade para acompanhar, observa Colombo.

No lugar de um fundo com uma carteira que pode mesclar tantos papeis e estratégias que dificultam o acompanhamento pelo aplicador, é possível fazer a diversificação com um mix de outros fundos, com custo de aplicação mais baixo, lembra o administrador. Todos com posições que equivalem apenas à compra, que se beneficiam da valorização de títulos e moedas. Fundos como os de ações e cambiais, por exemplo.

Um investidor que aplica em um fundo de ações ganha com a alta dos papeis que formam a carteira; em um fundo cambial, com a valorização da moeda estrangeira, dólar ou euro, diante do real.

Isso não ocorre em um fundo multimercado em que esse tipo de aposta, baseada em cenários, geraria resultados conflitantes. No caso do processo eleitoral em curso, uma disputa presidencial que aponte para suposta vitória de um candidato comprometido com reformas econômicas e ajuste fiscal tenderia a estimular a valorização da bolsa de valores e a deprimir o dólar (ou vice-versa, no caso de favoritismo de candidato avesso a essas ideias), o que pode prejudicar ou anular o desempenho do fundo.

O investidor pode evitar essa mistura com resultados conflitantes escolhendo os chamados fundos puros, de acordo com a dosagem mais adequada a seu perfil. “Aí está o sentido da diversificação. Como não dá para ganhar em todos os ativos, uma parte deve visar a proteção do capital e outra a rentabilidade”, explica o administrador Colombo.

É assim que ele vê o fundo cambial, que considera mais um instrumento de hedge, de proteção ao capital, contra bruscas oscilações da moeda americana, do que opção de investimento seguro e rentável. Os recursos são investidos nos mercados à vista e futuro de dólar e o rendimento equivale à variação cambial.

A indicação para quem se preocupa com rentabilidade são o investimento no mercado de ações, que dependendo do desfecho da corrida eleitoral, acredita Colombo, pode ganhar fôlego redobrado de valorização.

O administrador de investimentos diz que é possível escolher um fundo passivo ou um ativo. O primeiro, que cobra taxa de administração mais baixa, tem a rentabilidade referenciada no desempenho de ações que compõem determinado índice da bolsa de valores. O mais comum é o Índice Bovespa (Ibovespa), formado por 67 ações mais negociadas no mercado – mas há muitos outros, incluídos os índices setoriais.

Os fundos de ações ativos cobram em geral uma taxa de administração mais elevada, porque a carteira é formada por papeis escolhidos a dedo, seletivamente, pelo gestor do fundo.

Além da diversificação em busca de proteção (fundos cambiais) e de rentabilidade (fundos de ações), com base no provável cenário político-econômico que se desenha, o administrador Fabio Colombo aponta a importância do item segurança na escolha dos investimentos. Item que, para ele, seria preenchido pelos fundos DI, como ancoradouro de reserva para atendimento de necessidades financeiras de curto prazo.

O rendimento do fundo DI, que tem a carteira formada pela LFT (Letra Financeira do Tesouro), título da dívida pública federal, segue a variação da taxa Selic, que está em 6,50% ao ano.

A divisão deve respeitar o perfil de cada investidor, mas uma carteira de investimentos equilibrada e ajustada ao momento atual teria, de acordo com Colombo, de 10% a 20% dos recursos em fundos cambiais, de 10% a 30% em fundos de ações e o restante.