A força de fatores externos no comportamento dos mercados

Regina Pitoscia

12 de agosto de 2019 | 00h21

A chegada do texto-base da reforma da Previdência Social ao Senado, após rápida aprovação em segundo turno na Câmara, deu renovado alento aos investidores, mas não foi suficiente para animar os negócios e deslanchar a bolsa de valores e deprimir o dólar.

O motivo da aparente indiferença é que o mercado financeiro está tocando os negócios com um olho no andamento da reforma e o outro pregado nas tensões provocadas pelo embate comercial entre Estados Unidos e China. A disputa de gigantes comerciais ganhou novo capítulo, mais preocupante, diante do risco de avançar para uma guerra cambial, depois que Donald Trump endureceu o jogo, com o anúncio de novas tarifas sobre importações da China.

Nesse ambiente de negócios tomado por duplicidade de sentimentos, de preocupações com a crise internacional e de certo conforto com o estágio da reforma previdenciária, os investidores parecem estar mais sensíveis a eventos externos, em que a guerra comercial sino-americana e seus desdobramentos sobre as demais economias são o principal foco.

Tudo indica que os investidores passarão a reagir mais a perspectivas positivas domésticas, somente quando houver sinais de que os conflitos entre EUA e China caminham para uma solução. Condição que pode levar tempo para possível desfecho favorável, diante da suspeita de que a disputa comercial em curso faz parte de uma estratégia de campanha do presidente Trump à reeleição que poderia ser estendida, se a análise estiver correta, até as eleições do ano que vem.

A estratégia, desconfiam analistas, consistiria em piorar a crise econômica para induzir e até pressionar o Fed (banco central dos EUA, com quem o presidente americano tem dado cabeçadas em torno de política monetária) a reduzir os juros e colher eventuais frutos eleitorais de uma economia em crescimento. “A intenção parece ser cortar e cortar os juros para acelerar a atividade”, avalia Jason Vieira, economista-chefe da Infinity Asset.

O principal risco seria que o duelo entre os dois países desacelere ainda mais a atividade global e desemboque em uma recessão, com impactos negativos sobre os demais países, incluído o Brasil.

Um dos efeitos nocivos sobre os mercados seria a redução de apetite do investidor estrangeiro em investir no País e a saída dos que estão com seu capital ancorado por aqui, cujos reflexos poderiam ser a desvalorização das ações e o avanço do dólar.

A crença na alta da bolsa de valores, com a chegada de capitais externos após a aprovação da reforma previdenciária, é a grande aposta que move o otimismo no mercado de ações e deprime as cotações do dólar até agora.

“O mercado financeiro está completamente volátil. O Fed animou os investidores, com a redução dos juros americanos, mas as declarações de Trump sobre o aumento de tarifas reforçou as incertezas nos mercados”, explica Vieira.

Se as incertezas externas agravam as preocupações, o ambiente doméstico, em contrapartida, tem sido um bálsamo ao mercado. “A reforma da Previdência vai muito bem. A leitura para aprovação é melhor agora, no Senado, onde o número de comissões é menor”, avalia o economista da Infinity Asset – aprovado na Câmara, o texto-base da reforma já está no Senado, onde precisa passar também em dois turnos.

“A votação e a aprovação no Senado são favas contadas”, acredita Jason, embora admita dificuldades e percalços pelo novo caminho, como costuma ocorrer quando o encaminhamento depende de decisões políticas, esclarece.

A reforma da Previdência, para ele, “cria um muro de arrimo em uma área de erosão para evitar que o buraco (fiscal) fique ainda maior”. É a reforma que conjugada com a outra, a tributária, vai acelerar a economia” – a reforma tributária já é debatida, ainda em fase inicial, na Câmara.

A expectativa otimista com a evolução do ambiente interno, porém, não é suficiente para uma aposta em uma perspectiva positiva para os mercados. O cenário à frente continua prometendo muita instabilidade e turbulências e seus inevitáveis efeitos práticos nos mercados, com bruscos movimentos de vaivéns e solavancos nas cotações, sobretudo de ações e dólar.

Uma perspectiva que, no entanto, não invalida nem deve desestimular uma estratégia de diversificação de investimentos, migrando da renda fixa para variável, especialmente na bolsa de valores. “A decisão depende do perfil de cada investidor, de seu apetite em assumir mais risco em troca de oportunidade de uma rentabilidade maior.”

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