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A instabilidade deve continuar nos mercados de ouro e dólar

Regina Pitoscia

09 de março de 2020 | 00h16

(*) Com Tom Morooka

O clima do mercado financeiro, que vinha reagindo negativamente ao temor com o coronavírus, azedou de vez com a perspectiva de piora do crescimento da economia brasileira em 2020 sinalizada pelo PIB (Produto Interno Bruto) de 1,1% em 2019, conforme dados divulgados pelo IBGE.

O impacto da propagação do coronavírus pelo mundo e seus efeitos negativos sobre o desempenho da economia global já seriam suficientes para a revisão para baixo da estimativa de crescimento do País para o ano. Afetando negativamente a bolsa de valores, pressionando o câmbio, e levando a uma possível redução dos juros, da Selic.

Para analistas e especialistas do mercado financeiro só há uma certeza em meio a um cenário de incertezas: a de que deve persistir o ambiente de volatilidade ou fortes oscilações no mercado de ações, e de dólar, com intensos e bruscos vaivéns, até que fiquem mais claros a extensão da infecção do coronavírus pelo mundo e seus efeitos, sobretudo econômicos.

Para além das consequências do coronavírus, contudo, investidores e mercado financeiro não disfarçam o mal-estar com a chegada e a proliferação da epidemia em um momento que a economia permanece fraca e a agenda de reformas dá sinais de dificuldades para avançar no Congresso. Duas delas, consideradas as mais importantes – a reforma tributária e a reforma administrativa – nem sequer começaram a ser debatidas por deputados e senadores, pela falta de propostas do governo sobre os temas.

A preocupação aumenta por causa do calendário das eleições municipais de outubro que encurta o período de debate e votação no Congresso ao primeiro semestre. A falta de regras claras do que será o novo regime tributário, por exemplo, inibe a disposição para investimentos, um dos itens que, ao lado da redução do consumo das famílias, foi determinante para o fraco desempenho do PIB em 2019.

O avanço da agenda de reformas, ao lado das privatizações, daria maior confiança à política econômica, posta em dúvidas até pelos desentendimentos e falta de articulação política entre o governo e o Congresso.

A tendência é que os investidores passem a acompanhar com mais atenção a partir de agora, além do avanço do coronavírus, a movimentação política em Brasília para a aprovação das reformas. Sem elas, o País, que já fez a reforma previdenciária, poderia perder o momento virtuoso de juros e inflação baixos para engatar, via investimentos, o processo de retomada mais vigoroso do crescimento econômico.

Um cenário que, além de dar suporte à valorização das ações em bolsa, pela perspectiva de crescimento de faturamento e lucro de empresas, tenderia atrair o capital estrangeiro, hoje ainda arredio, não só ao investimento no mercado de ações como também na atividade produtiva.

O ingresso de capital externo, por sua vez, daria novo alento à bolsa de valores e engrossaria o investimento produtivo, contribuindo assim para reduziu a pressão sobre o câmbio que segue sua escalada das cotações.

O entendimento entre governo e Congresso para o avanço da agenda de reformas e a propagação e os efeitos do coronavírus sobre a economia global e doméstica são pontos que o investidor deve acompanhar com atenção para a tomada de decisões.

A Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, mergulhou abaixo da linha de 100 mil pontos na sexta-feira, para 97.996,77 pontos.

E o dólar?

A menos que o Banco Central (BC) reforce as intervenções no mercado de câmbio, com vendas mais pesadas de dólar à vista, a perspectiva é que as cotações continuem subindo.

Parte do avanço do dólar no mercado interno reflete a valorização da moeda americana pelo mundo, em razão de aumento de interesse de investidores que procuram a moeda americana como proteção. O dólar é uma moeda forte usada como reserva de valor que consegue proteger o dinheiro em momentos de crise ou insegurança.

A principal fonte de pressão, contudo, embutiria um componente doméstico. De acordo com especialistas, o dólar sobe porque a atratividade de aplicação na renda fixa do País diminuiu com as seguidas reduções dos juros na esteira dos cortes na taxa Selic.

O achatamento da diferença dos juros locais em relação aos externos, principalmente americanos, reduziu o ingresso e, portanto, a oferta de dólares no mercado. “A taxa de juro por aqui deixou de ser atraente para o investidor estrangeiro também porque, comparado com outros mercados, o País está sem grau de investimento”, reforça Gabriel Sjlender, sócio e co-head de Produtos da Monte Bravo.

O gestor de Renda Variável da Porto Seguro Investimentos, Marcelo Faria, aponta também a perspectiva de novos cortes na Selic como fator de pressão adicional sobre o dólar. “Em outras crises, o Banco Central subia os juros, desta vez poderá cortar mais, acompanhando o movimento global dos juros, o que causou impacto no câmbio, porque tirou ainda mais atratividade da diferença de taxas externas e domésticas.”

Faria aponta ainda que a percepção de crescimento mais baixo da economia, em relação ao estimado inicialmente, também tem levado a fortalecimento do dólar em relação ao real e afastado os investimentos.

Na sexta-feira, sob efeito das intervenções do Banco Central no mercado, o dólar comercial interrompeu uma coleção de 12 valorizações seguidas, cotado por R$ 4,63, baixa de 0,36% no dia.

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