Juros

E-Investidor: Esperado, novo corte da Selic deve acelerar troca da renda fixa por variável

A instabilidade dominou os mercados no mês, no trimestre, e vai continuar

Regina Pitoscia

01 de abril de 2020 | 00h05

(*) Com Tom Morooka

Ouro e dólar nos primeiros postos na coluna de investimentos mais rentáveis, tanto no balanço de março como no do primeiro trimestre de 2020, e a bolsa de valores na última posição, em ambos os períodos, dão boa medida do ambiente de instabilidade vivida pelo mercado financeiro neste ano, até o momento.

Ativos reais, como ouro e dólar, são vistos, como refúgio para a proteção do patrimônio em cenário de incertezas. Foi o que os investidores globais e locais fizeram. Correram para esses ativos, porque insegurança e dúvidas não faltaram. O ano começou logo em sua virada, com pressões decorrentes da instabilidade econômica no Oriente Médio com escalada, ainda que momentânea, do preço do petróleo, pelo aumento da tensão militar, entre Estados Unidos e Irã.

A essas preocupações juntou-se pouco depois, o temor com o foco de epidemia de coronavírus, que se originou na China e se propagou rapidamente, atingindo os cinco continentes.

As incertezas em relação às consequências econômicas da nova pandemia atingiram fundo os mercados, especialmente o de ações, que despencaram pelo mundo, e o de dólar, que ganhou força adicional, por causa do redobrado interesse de investidores por proteção.

Investidores reagem mal às crises, sobretudo à de dupla face como sanitária e econômica do coronavírus, porque refletem negativamente sobre a atividade, com menos produção e faturamento das empresas. A ideia inicial de desaceleração da economia mundial e doméstica já está sendo revista para uma recessão e até mesmo depressão (período prolongado de queda da atividade com quebradeira de companhias, e avanço acentuado do desemprego). Uma perspectiva que não combina com a bolsa de valores, cuja valorização depende do bom desempenho e da lucratividade das empresas.

Foi nesse ambiente de turbulências que a Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, mergulhou em forte baixa, após passar por circuit breakers – mecanismos que interrompe provisória e instantaneamente os negócios no pregão a perda, medida pelo Ibovespa, atinge determinado número de pontos – ao longo de março.

O temor com a crise do coronavírus impulsiona o dólar, que embicou e avançou acima de R$ 5 – aproximou-se de R$ 5,30 –, apesar das seguidas e diárias intervenções do Banco Central para tentar conter a escalada de preços da moeda americana.

Confira quanto renderam as aplicações em março e no primeiro trimestre, de acordo com os cálculos do administrador de investimentos, Fábio Colombo:

                           Ranking de março

Aplicação                                                    Rendimento

Euro                                                                 15,94%

Dólar                                                                15,83%

Ouro                                                                 15,24%

IGPM                                                                  1,24%

Título indexado ao IPCA*                              0,20% a 0,35%

CDB                                                                     0,20% a 0,35%

Caderneta                                                           0,24%

Fundos DI                                                           0 a 0,15%

IPCA**                                                                0,11%

Fundos de renda fixa                                     – 0,30% a 0,15%

Bolsa de Valores (B3)                                     – 29,91%

(*) Indicativo

(**) Estimado

A intensa volatilidade que sacudiu os mercados de risco, como os de ações e de dólar se estendeu também ao segmento de juros futuros – cristalizada em bruscas oscilações das taxas de juros de  contratos que serão liquidados em datas futuras – e influenciou o desempenho de fundos de investimentos, especialmente o dos fundos de renda fixa.

Os fundos DI renderam bruto, em média, entre zero e 0,15% ao mês, menos que 0,31%, o equivalente mensal da Selic de 3,75% ao ano. Mas o firme avanço dos juros futuros – que seguem trajetória própria, independentemente da Selic, influenciados pelas expectativas de inflação – tingiram de vermelho o rendimento dos fundos de renda fixa – com ganho negativo que variou de menos 0,30 a menos 0,15% em março.

Ao contrário dos fundos DI, que tem só quase  títulos com juros pós-fixados na carteira, os fundos de renda fixa mesclam em suas carteiras títulos com juros pós-fixados com prefixados – em geral com taxas menores que os juros futuros, o que na atualização a valor presente, pela marcação a mercado, leva à desvalorização do papel quando os juros futuros sobem.

Ranking do trimestre

Aplicação                                               Rendimento

Ouro                                                                30,22%

Dólar                                                                29,44%

Euro                                                                 27,56%

IGP-M                                                                 1,38%

CDB*                                                                   0,96%

Caderneta                                                          0,76%

Títulos indexados ao IPCA *                           0,70%

Fundos DI **                                                     0,70%

IPCA **                                                              0,57%

Fundos de renda fixa***                                 0,46%

Bolsa de Valores                                            – 36,87%

(*) Indicativo

(**) Estimado

(***) Média

Perspectivas para abril

O novo mês que começa hoje chega carregado pelas mesmas incertezas e preocupações que permearam o mercado financeiro em março. Um cenário em que, segundo Colombo, a pandemia paralisa a economia mundial e ainda não se tem clareza do tamanho da recessão global. Mas são especialmente essas variáveis que devem continuar ditando o comportamento dos mercados.

Embora o segmento de ações tenha ensaiado recuperação nos últimos dias, a perspectiva ainda é de bastante instabilidade que exige muita prudência do investidor. O cenário continua sendo de cautela, mas como a bolsa caiu forte em março e há papeis com preços atrativos, o administrador sugere a compra gradual de ações.

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