A recuperação econômica no centro de atenções dos mercados

Regina Pitoscia

20 de julho de 2020 | 02h33

(*) Com Tom Morooka

O sentimento de que as economias global e doméstica estão reagindo menos mal à crise da pandemia do coronavírus – na comparação com as previsões iniciais mais pessimistas – pela sinalização de indicadores de atividade divulgados mais recentemente tem dado certo conforto ao mercado financeiro.

Uma evolução de dados em que os investidores enxergam uma indicação de recuperação econômica relativamente mais alentada tem redundado em um comportamento positivo do mercado de ações. E o dólar, ainda que em ambiente de bastante volatilidade, se equilibra bastante abaixo do pico, em torno de R$ 6, a que chegou em maio.

Escorada nesse cenário, a Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, consolidou o patamar de 100 mil pontos, ainda que o Ibovespa (Índice Bovespa) enfrente alguma resistência em ir muito além com mais vigor. O principal índice da B3 fechou a semana em 102.888 pontos, com valorização de 2,86% na semana que fica ampliada para 8,24% no mês, até o momento.

A trajetória e o ritmo de recuperação da bolsa de valores, de acordo com especialistas e profissionais do mercado, vão depender, em boa medida, das expectativas em relação a duas questões: ao ritmo de retomada de atividade econômica, no pós-pandemia, e às medidas para colocar as contas públicas, sob forte pressão dos gastos para o combate aos efeitos da crise do coronavírus, de volta ao caminho do equilíbrio fiscal.

O rombo das contas públicas, cujo déficit primário (sem incluir gastos com os juros da dívida) pode saltar de R$ 129 bilhões, previstos inicialmente,   para algo perto de R$ 1 trilhão, em 2020, traz a questão fiscal ao centro das preocupações do mercado financeiro. A dúvida é saber “como a situação de deterioração fiscal vai bater na inflação e o impacto dos gastos públicos sobre o esforço de ajuste fiscal, não só neste ano, mas também nos próximos”, diz Alexandre Almeida, economista da CM Capital.

O temor de investidores é que a armadilha fiscal, com gastos crescentes que ampliam o rombo fiscal, em que o País se enrola leve a uma recuperação mais lenta da atividade econômica no período pós-pandemia.

Essa é uma questão que tem dividido as opiniões de especialistas em torno do potencial de valorização da bolsa de valores. Uma ala entende que algumas ações, principalmente de empresas do setor de comércio varejista, já estariam caras, porque subiram com a expectativa de melhora econômica e agora dependem de medidas econômicas concretas para a volta estrutural do crescimento e a perspectiva de consolidação fiscal.

Um passo inicial nessa direção pode ser dado nesta semana com a largada dos debates sobre as propostas de reforma tributária, em Brasília. A Câmara tem seu projeto sobre o tema e o governo também deve apresentar o seu, elaborado pela equipe do ministro Paulo Guedes. “O debate sobre o equilíbrio fiscal deve ganhar força e ficar cada vez mais sob os holofotes do mercado”, acredita o economista da CM Capital.

A reforma tributária, com a simplificação de cálculo e cobrança de impostos, é considerada condição necessária, embora não suficiente, para a retomada mais rápida e vigorosa da atividade econômica. E como tal o   encaminhamento e o debate das propostas devem influenciar os ânimos dos investidores e a trajetória dos mercados.

Uma perspectiva de entendimento entre governo e Congresso em torno dos pontos mais importantes da reforma tributária pode animar os investidores em ações e reforçar a alta da bolsa de valores. Uma expectativa negativa em torno da aprovação da reforma tende a causar mal-estar no mercado e dar fôlego ao dólar.

A resistência da moeda americana a uma queda mais acentuada, em meio a intensos movimentos de vaivém das cotações, refletiria o sentimento de certa desconfiança dos investidores com a recuperação econômica e o reequilíbrio das contas públicas. A dúvida estaria encorajando a busca de proteção de pelo menos parte do patrimônio em dólar, em um mercado de investimentos que continua atraindo a maior parte dos recursos de investidores domésticos para a bolsa de valores.

O dólar encerrou a sexta-feira cotado por R$ 5,38, com valorização de 1,13% na semana e perda de 1,10% no mês, até agora.

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