A sua aplicação, a dívida do governo, o ajuste fiscal e as eleições

Regina Pitoscia

10 Agosto 2018 | 00h59

(*) Com Tom Morooka

O comportamento das cotações do dólar e da bolsa de valores nos últimos dias indica que o mercado financeiro entrou de vez no clima eleitoral. Ou seja, passou a reagir às expectativas dos investidores em relação à corrida presidencial.

Nos últimos quatro dias, iniciados após o fim de semana em que as convenções oficializaram as candidaturas presidenciais, a Bolsa de Valores de São Paulo acumula desvalorização de 3,27%, resultado de quatro baixas seguidas, e o dólar, valorização de 2,60%.

Mais que a fatores externos, o comportamento desses dois mercados, considerados termômetro de expectativas dos investidores, reflete um sentimento de mais incertezas sobre o processo que elegerá novo presidente da República em outubro.

O mercado financeiro não disfarça que torce pela vitória de um candidato comprometido com a defesa de reformas econômicas e o ajuste fiscal capaz de conter a escalada de crescimento explosivo da dívida pública. O candidato com esse perfil já eleito como o preferido pelo mercado financeiro é Geraldo Alckmin (PSDB), visto como reformista e alinhado com as ideias econômicas do mercado financeiro.

Rumores de que o tucano não largou bem na corrida presidencial, mesmo após a apoio dos partidos do Centrão e da escolha da senadora gaúcha Ana Amélia como vice na chapa, explicariam o mau humor do mercado financeiro ao longo desta semana.

Pela afinidade de suas ideias com as dos investidores, em defesa de uma economia mais aberta e menos regulada, convencionou-se, ainda que implicitamente, que o tucano é o candidato do mercado. Um político que, pelas coligações feitas, teria, se eleito, o apoio político necessário para passar as reformas, principalmente a da Previdência Social, no Congresso.

Em frangalhos

O reequilíbrio das contas públicas, pela aprovação de reformas econômicas, é o objeto de desejos do mercado financeiro. As contas fiscais em frangalhos, cristalizadas no rombo crescente da dívida pública, é a principal dificuldade do País e preocupação dos agentes financeiros.

Diferentemente do que ocorria em situações de crise anteriores, o País está bem protegido e confortável em outras frentes de política econômica, como a monetária e a cambial. A inflação está sob controle e os juros em níveis historicamente baixos enquanto pelo lado das contas externas sucedem-se os superávits na balança comercial, ingresso positivo de capitais para investimento no País, que, como âncora principal, ostenta um volume de reservas internacionais em torno de US$ 380 bilhões.

Não é à toa que o rombo fiscal é visto como a principal fragilidade do País. O desequilíbrio nas contas públicas é tão grave que o Fundo Monetário Internacional (FMI) reforçou, em sua revisão da economia brasileira, a necessidade de acelerar o ajuste fiscal no País. O déficit primário (receitas menos gastos, sem incluir a conta de juros da dívida pública), prevê o FMI, deve aumentar de 1,8% do Produto Interno Bruto (PIB), em 2017, para 2,4%, em 2018.

O FMI propõe ajustes com uma série de medidas, incluída a reforma previdenciária, que vire a conta de déficit para superávit e detenha a escalada da dívida pública bruta, cuja expansão, em relação ao PIB, é visto como principal indicador de solvência de um país.

Pelas projeções do FMI, a dívida pública bruta brasileira deve chegar este ano a 88,2% do PIB e poderá bater, mantida a atual escalada, em 95,6% em 2023, portanto daqui a cinco anos. O risco é que o crescimento descontrolado dessa dívida leve a uma crise fiscal insustentável que o Tesouro se torne incapaz de honrar o seu pagamento. Os credores ou financiadores da dívida pública não são, como se costuma pensar, apenas os bancos, as empresas, enfim, os detentores de capital.

Quem financia a dívida do governo, pela compra de títulos públicos, é o investidor que aplica em fundos de investimento de renda fixa e os compradores de títulos públicos no Tesouro Direto. Em boa medida, bancos e corretoras apenas fazem o meio de campo, atuando como intermediários entre os investidores e o mercado financeiro.

Daí por que a trajetória do déficit público atrai tanta atenção dos investidores e leva o mercado financeiro a apoiar candidaturas que defendam ideias reformistas e propostas voltadas ao reequilíbrio das contas públicas.

É com esse sentimento que o mercado de ações tende a reagir positivamente e o mercado de dólar com queda a dados de pesquisas eleitorais que apontem para possível vitória de candidato comprometido com reformas econômicas e ajuste das contas do governo.

O comportamento tende a ser inverso, com queda da bolsa de valores e valorização do dólar, se a liderança apontada pelas pesquisas eleitorais que vão pipocar daqui para a frente ficar com um candidato que rejeite essas reformas. Uma perspectiva que deve provocar muita instabilidade e solavanco no mercado financeiro, com bruscas oscilações das cotações de dólar e ações.