Agenda política vai ditar movimento dos mercados em julho

Regina Pitoscia

01 de julho de 2019 | 01h59

(*) Com Tom Morooka

Muita coisa avançou na proposta de reforma da Previdência Social, mas outros pontos, não menos importantes, continuam pendentes de definição e atraem a atenção do mercado financeiro nesta transição do primeiro para o segundo semestre.

A expectativa de leitura do relatório final ainda em junho, com as mudanças propostas pelo relator da matéria Samuel Moreira ao texto, na Comissão Especial foi frustrada. A nova data prevista para a apresentação é terça-feira, um adiamento que poderia colocar em risco a sua votação, em primeiro turno, pelo plenário da Câmara antes do recesso parlamentar.

O projeto de reforma da Previdência, uma proposta de emenda à Constituição, chegou à Câmara em fevereiro. De lá para cá, em negociações cheias de ruído político, passou por alterações na comissão e, para ser aprovado em plenário, última etapa de tramitação, precisa de votos favoráveis, em dois turnos de votação, de 308 dos 513 deputados.

Uma possível demora na apreciação em plenário é apenas uma das preocupações dos investidores, que querem ver a reforma aprovada o quanto antes, para injetar algum ânimo na economia. Ao lado dessa preocupação permanecem outras, que são as pressões de última hora e persistem, como a inclusão ou a retirada de alguma medida que pode tornar a reforma menos encorpada ou musculosa em relação à proposta de economia prevista com mudanças nas regras de aposentadoria.

A menos que ocorra uma alteração no calendário de recesso parlamentar de meio de ano, a votação em plenário deverá ocorrer até 18 de julho, último dia de trabalho dos deputados, antes das férias.

É em torno dessa agenda política e das movimentações e negociações em torno da reforma previdenciária que se concentrará o foco dos investidores e do mercado financeiro para a tomada de decisões em julho. É a atenção em torno dessas novidades que deve levar de um lado a outro a trajetória de juros e cotações de ações e de dólar.

Se o andamento da reforma nesta quase reta final corresponder às expectativas otimistas, sobretudo em relação ao cronograma de votação e à estimativa de economia a ser gerada por ela, o mercado de ações tenderia a ganhar alento adicional e buscar novos patamares de valorização. Um cenário que, por sua vez, pode manter as correções do preço do dólar para baixo.

Eventuais acidentes de percurso, como a inclusão de medidas que reduzam a economia estimada ou caracterizem a reforma como meia-sola, poderiam azedar o humor dos mercados, com desvalorização da bolsa de valores e alta das cotações do dólar. E adiar ainda mais a redução da taxa Selic, prevista para os primeiros meses do segundo semestre.

O foco principal é o doméstico, centrado no andamento e no conteúdo da reforma previdenciária, mas o cenário internacional não fica escanteado. As preocupações estão dirigidas aos sinais de desaceleração da economia global, que poderia ficar mais fragilizada dependendo dos desdobramentos da guerra de tarifas na disputa comercial entre Estados Unidos e China.

Retrospectiva de junho

Foi o ambiente de otimismo crescente com a aprovação de alteração nas regras da aposentadoria, reforçado durante a tramitação da proposta na Comissão Especial da Câmara, que deu fôlego à bolsa de valores e deprimiu o dólar comercial, o lanterninha do mês. Esse cenário anima o investidor em bolsa, porque é vista como uma das principais condições para a retomada do crescimento econômico.

No entanto, para que a roda da economia volte a girar será preciso muito mais que a reforma previdenciária, considerada apenas o primeiro passo. Para fazer a atividade dar largada e ganhar tração, serão necessárias muitas outras medidas, contidas em propostas que o ministro da Economia, Paulo Guedes, estuda e promete anunciar assim que o Congresso sacramentar as alterações no sistema de aposentadoria.

É com essa perspectiva que os investidores têm procurado diversificar a carteira de investimentos, com a destinação de recursos para compra de ações, que se tudo correr bem com a reforma e com a economia acenaria com atraentes retornos para quem apostar na renda variável.

O mercado de ações ganha apelo e atrai o interesse também porque o rendimento no mercado de renda fixa, já fortemente achatado, pode ficar ainda mais baixo, nominalmente, se, na esteira da aprovação da reforma previdenciária, o Banco Central aproveitar o cenário positivo para a inflação e promover cortes adicionais na taxa básica de juro, a Selic, que vem rodando em 6,50% ao ano desde março de 2018.

Apenas uma trégua na alta de preços, como ocorreu desde maio, tem mudado esse quadro de perda. Para um rendimento médio líquido em torno de 0,35% a 0,45% em aplicações como caderneta e fundos de investimento de renda fixa e DI, a inflação de maio calculada pelo IPCA ficou em 0,13%.

Para junho, para um patamar de rentabilidade na renda fixa também nesse intervalo, o IPCA-15 (Índice de Preços ao Consumidor Amplo-15), considerado indicador preliminar da inflação oficial, aponta para uma inflação próxima de zero em junho. O IPCA-15 deste mês, divulgado pelo IBGE no dia 25, desacelerou para 0,06%, após alta de 0,35% em maio.

Confira quanto renderam as aplicações em junho e no semestre, de acordo com dados calculados pelo administrador de investimentos Fabio Colombo.

Ranking de junho

Aplicação                             Rendimento

1º – Ouro                                    6,79%

2º – Bolsa de valores                4,06%

3º – IGP-M                                 0,80%

4º – Fundos de r.fixa                0,40 a 0,50%

5º – Fundos DI                          0,38% a 0,48%

6º – CDB                                     0,37% a 0,47%

7º – Caderneta                           0,37% (líquido)

8º – Títulos – IPCA                   0,12 a 0,22% (indicativo)

9º – IPCA                                  – 0,03% (estimativa)

10 – Euro                                  – 0,42%

11º – Dólar                                – 2,17%

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