As novidades trazidas pelas fintechs para beneficiar o aplicador (II)

Regina Pitoscia

29 de maio de 2019 | 02h38

Para o consumidor final, as fintechs representam comodidade, diversidade e benefícios para levantar um crédito, fazer um pagamento e transferir recursos, ou ainda realizar seus investimentos. Elas se traduzem em mais poder na hora de decidir o que for o melhor a ele, mais conveniente ou a custos mais baixos. No Brasil, há hoje 553 empresas de tecnologia que oferecem produtos e serviços financeiros, segundo dados do Distrito Fintech e da Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs).

Acostumados ao sistema financeiro engessado e concentrado entre poucos bancos, com limitação nas escolhas, agora os clientes têm na prateleira outras modalidades, diferentes e modernas de lidar com o dinheiro.

Momento é de integração

Na linha do tempo das fintechs, o momento é o de integração, define um dos maiores especialistas do setor no País e participante do conselho da ABFintechs, Guilherme Horn. Ele explica que a engrenagem entre as diferentes plataformas já funciona bem, de modo que o consumidor não consegue sequer identificar qual empresa está lhe prestando um serviço.

Guilherme exemplifica o novo cenário com uma situação corriqueira, a de alguém que entra em uma loja de varejo e vai fazer uma compra financiada. Esse consumidor já não sabe mais quem está lhe emprestando o dinheiro para a compra, se a própria loja ou um banco ou uma financeira ligada a ela. O mais importante é que ele vai sair de lá  com a questão resolvida, com a compra feita. “Há rompimento de barreiras, os processos estão mais fluidos e isso é bom para o consumidor”.

Ao fazer uma análise da Fintech Conference 2019, promovida pela StartSe, empresa de educação continuada e maior ecossistema de startups do Brasil, e pela ABFintechs, na semana passada, em São Paulo, com palestras, painéis de discussões e exposição de atuação dessas empresas, Horn ressaltou especialmente dois aspectos.

Para ele é importante observar as tendências, e o que mais lhe chamou atenção nessa edição foi a presença de profissionais de outros setores da economia que não o financeiro, mas da indústria e do comércio no evento. “Havia um claro interesse em saber como as fintechs funcionam e podem ser úteis para os seus negócios, como elas podem participar no escopo do serviço, e como usar a tecnologia para melhorar seus produtos e serviços e ganhar dinheiro com isso”, relata o especialista.

Além do crescimento do interesse, Horn que acompanha a evolução das fintechs desde o início no País afirma que é notório o amadurecimento dos empresários que estão à frente das fintechs. “Estão mais experientes, sendo que muito já estão em sua segunda, terceira e até quarta fintech”.

Open banking

Até o fim do ano, as fintechs poderão alcançar um novo patamar com o “Open Banking”, ou Sistema Financeiro Aberto, que já foi regulamentado e deve começar a ser implementado no segundo semestre. Por esse sistema, o consumidor é que decide com quem e como vai compartilhar as suas informações.

Os grandes bancos serão obrigados a abrir os dados de seus clientes sempre que houver demanda e autorização expressa deles com instituições financeiras concorrentes. Isso traz uma série de benefícios. Basta imaginar que serão conhecidas as taxas que são cobradas no crédito ou a remuneração oferecida a determinado aplicador para que essas instituições possam, então, oferecer opções mais vantajosas. É o aumento da concorrência, com redução de custos e burocracia.

O consultor José Luiz Rodrigues, da JL Rodrigues, Carlos Átila & Consultores Associados, acredita que essa mudança será tão expressiva como o foi a do Plano Real. “O maior patrimônio que um cliente tem são os seus dados. Ele será mandatório de quem pode usar o seu histórico de compras, de crédito, de aplicações”, afirma ele.

O chefe do Departamento de Regulação do Sistema Financeiro do Banco Central, também presente da Fintech Conference 2019, João André Calvino Pereira, explica que o Open Banking chegará ao mercado em fases.

A primeira delas deve acontecer até o fim deste ano, em que serão abertas as informações mais simples sobre as instituições financeiras, como endereço de agências e valores de tarifas. Na segunda etapa, entrarão os dados cadastrais dos clientes para que, em seguida, sejam inseridos os de operações mantidas por eles com cada banco. Na fase final, serão coletados e disponibilizados os dados de pagamentos.

Sem spread

Uma das consequências da concentração bancária é o juro alto com larga diferença entre o custo de captação (o que remunera o aplicador) e o custo do crédito (o que é cobrado de quem levanta um empréstimo), ou spread na linguagem de mercado. Tema recorrente no evento, a margem de ganho dos bancos foi duramente criticada por especialistas.

Ainda que seja sabido que dos ganhos dos bancos é preciso descontar o risco de inadimplência, os custos da operação, da segurança com o dinheiro e por aí vai, temos hoje o segundo maior spread do planeta, segundo Daniel Gomes, diretor da fintech de crédito Nexoos. “Só perdemos para Madagascar, e a inadimplência aqui não é tão alta que justifique essa disparidade”, afirma o diretor. “Nosso mercado de crédito corresponde a 68% do PIB, enquanto nos EUA é de 150% do PIB. Poderíamos ter mais crédito saudável, o que alavanca o crescimento do País, se as taxas fossem mais baixas e os prazos, diferenciados”, argumenta ele.

As fintechs, mais enxutas, com operações online tiveram condições de reduzir de forma expressiva o spread. Uma delas o derrubou a zero. Trata-se da fintech Kavod Lending, que faz a intermediação de quem quer aplicar o dinheiro a taxas diferenciadas com quem está precisando de um financiamento. A taxa oferecida ao investidor é a mesma que será cobrada do tomador de crédito, e varia de 1,10% a 2,50% ao mês, dependendo do perfil da operação.

A atuação dessa fintech é direcionada ao crédito para pequenas e médias empresas, mais especificamente as do setor de franquias. Com o esquema de spread zero há benefícios para quem levanta o financiamento, que vai pagar menos juros, e para quem está aplicando o seu dinheiro, que vai receber uma remuneração bem mais recheada que os 0,40% ao mês da renda fixa.

No sistema há participação de um banco parceiro, o que se encarrega de liberar o financiamento e endossar ao aplicador a Cédula de Crédito Bancário (CCB) emitida pelo devedor. A aplicação mínima é de R$ 3 mil, o prazo é de 24 meses, e o seu risco está relacionado à inadimplência do tomador de crédito.

Para cercar toda a operação com maior grau de segurança, explica o fundador e diretor de Marketing da Kavod, Renato Douek, o financiamento será concedido a empresas escolhidas a dedo, sem problemas financeiros. “A análise é rigorosa, olhamos o balanço, o patrimônio, faturamento e endividamento da empresa, e só emprestamos quando há unanimidade, 100% de aprovação do comitê de crédito da Kavod”.

Além disso, são exigidas das empresas financiadas garantias reais como veículos, imóveis, recebíveis de cartão de crédito, etc. “A rentabilidade é mais do que o dobro do que a oferecidas pelos bancos, mas o investimento não é duas vezes mais arriscado”, diz Douek.

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