As perspectivas para 2019 e como conseguir bom rendimento

Regina Pitoscia

14 de dezembro de 2018 | 00h28

Chamou a atenção de quem acompanha as deliberações e decisões do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), não propriamente a manutenção da taxa básica de juros, a Selic, em 6,50% ao ano, pela sexta vez seguida. Estabilidade, ademais, esperada por todos.

Desta vez, o que atraiu o interesse de investidores e mercado financeiro foi o trecho do comunicado, divulgado no fim da reunião que fecha o ano, que destaca a perspectiva de melhora de cenário para a inflação. Uma expectativa positiva para a evolução dos preços que levou o Copom a excluir do comunicado a referência, repetida em documento no fim de duas reuniões anteriores, sobre possível elevação dos juros.

Inflação e juros em queda

As projeções de inflação pelo IPCA do mercado financeiro estão alinhadas com as avaliações do BC. Pelos dados do último boletim Focus, divulgado na segunda-feira, a estimativa de inflação oficial dos analistas e economistas do mercado para este ano recuou de 3,89%, do relatório anterior, para 3,71%. A projetada para 2019 caiu de 4,11% para 4,07%.

Ambas as previsões do mercado financeiro apontam, portanto, para uma variação acumulada do IPCA abaixo da meta inflacionária definida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) que o BC mira ao calibrar a Selic em reuniões do Copom. A meta central de inflação para 2018 é 4,50%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto porcentual para cima ou para baixo.

Pelas regras de política de metas inflacionárias, o BC terá sido bem-sucedido na calibragem da taxa Selic se o IPCA deste ano se acomodar no intervalo entre 3% (piso) e 6% (teto). A meta central de inflação para 2019 é menor, de 4,25% para o ano, mas com tolerância também de 1,50 ponto porcentual (piso de 2,75% e teto de 5,75%).

Olhando o cenário de momento para a inflação futura, o BC parece confortável para seguir com a Selic em 6,50% ao ano também no próximo ano. Uma ala do mercado financeiro entende que, não fossem o desequilíbrio fiscal e o rombo das contas públicas, que exigem juro atraente para a atrair o investidor ao financiamento da dívida pública, a Selic teria mais espaço para a queda do que para eventual retomada de alta, agora aparentemente descartada pelo comunicado do Copom.

Qual a saída?

Diante desse horizonte para inflação e juros, projetado pelo mercado financeiro e aparentemente endossado pelo BC, o investidor não pode contar com juro muito maior que 6,50% ao ano, referenciado na Selic, para remunerar sua aplicação em renda fixa. Taxas de juro de 1% ao mês ou de 13% ao ano, que remuneravam as aplicações conservadoras não mais de dois anos atrás, ficaram pelo caminho, lembrou Marcello Popoff, diretor de Marketing e sócio da Lifetime Investimentos, que atua em parceria com a XP, em evento realizado para investidores em São Paulo.

Ele afirma que, ainda assim, bilhões estão ancorados na caderneta, uma aplicação que, com juros baixos, nem sempre rende mais que a inflação. Muitos por temer opções de maior risco, deixando de lado oportunidades de obter ganhos mais atraentes.

“Quem estiver preocupado em encontrar uma remuneração mais interessante precisará ter muito jogo de cintura”, diz Marcello, lembrando que processo semelhante ocorreu nos Estados Unidos na década de 1980. Na época, o investidor insatisfeito com o fim de um período de rentabilidade boa com facilidades saiu do conforto, à procura de opções mais rentáveis, embora com maior risco.

Uma mudança que por aqui, avalia ele, tenderia a enfrentar certa resistência, pela falta de apetite ao risco. Os EUA têm uma cultura de mercado de ações muito forte, com participação de cerca de 60% dos investidores, número que não passa de 0,3 a 0,4% no Brasil.

O mercado de ações, contudo, é apenas uma das opções para fugir à mesmice do rendimento baixo da renda fixa. Como caminho para um rendimento diferenciado, o diretor indica o uso de plataformas de investimentos, que oferecem uma gama variada de produtos para a diversificação das aplicações. “É preciso observar e considerar as aplicações em fundos multimercados, pré e pós-fixadas, e de preferência com a orientação de um assessor que esteja antenado com o mercado para ir em busca do melhor para o investidor”.

O responsável pelo Asset Mangement do banco J.P.Morgan na América Latina, Giuliano De Marchi, vai na mesma linha. “O momento é de mudança e o investidor precisa abandonar a zona de conforto”. O recado dele para o investidor brasileiro “mimado” com ativos livres de risco, ou com pouca volatilidade, que ofereciam bom retorno é que o momento exige mudança de estratégias. “As regras hoje são outras, nesse cenário de juros mais baixos, mais próximos dos níveis internacionais, e inflação controlada é preciso repensar em como investir”. Assumir mais risco, seja em ações, no mercado de crédito, no setor imobiliário, de infraestrutura. E até mesmo diversificar escolhendo opções de investimento no exterior.

De Marchi lembra de opções no mercado internacional que possibilitam a combinação de rentabilidade com proteção (hedge) do dinheiro contra desvalorização cambial. Para ele, há muitas empresas lá fora com boas perspectivas, é preciso saber quais são e ter uma boa orientação de especialistas.

Ao contrário do que boa parte dos investidores imagina, a aplicação lá fora, segundo o chefe do asset, está mais fácil e prática. A tributação é um dos pontos que merecem atenção, mas também essa questão estaria mais simples. “Desde 2015, com a vigência da legislação que permitiu aplicar em fundos locais com tributação feita aqui mesmo, aplicar o dinheiro em ativos no exterior ficou mais simples”. Na opinião dele, o investidor deve dar mais atenção a ações americanas, ou a títulos de renda fixa global, e buscar profissionais especializados para ter acesso às informações sobre melhores opções no exterior.

Perspectivas 2019

Embora o investidor brasileiro não esteja curtido na cultura de aplicação em ações e até seja arredio a ela, a bolsa de valores é vista como a bola da vez por aqui. O investidor corre mais risco, mas teria a chance de obter rentabilidade mais atraente com ações.

A perspectiva de manutenção da Selic em 6,50% ao ano por muito tempo já reforça a atratividade do investimento em bolsa de valores. Mas isso, por si só, não garantiria desempenho brilhante para as ações. Seria preciso a aprovação de reformas econômicas, especialmente previdenciária, que apontassem para o ajuste das contas públicas, condição necessária para a volta da confiança na economia.

O capital estrangeiro, segundo especialistas e profissionais de mercado participantes do evento, estaria aguardando as primeiras medidas econômicas concretas do novo governo, incluídas as concessões e privatizações, e também a evolução das articulações com o Congresso para a aprovação das medidas para aportar no País.

Existem também empresas que já se ajustaram às dificuldades financeiras, com redução de custos fixos, e estariam preparadas para o novo momento. Para o gestor e sócio da Safari Capital, Marcelo Cavalheiro, “estão aptas a dobrar o faturamento e triplicar seus lucros, assim que a economia voltar a girar”. Perguntado sobre o que o investidor deve fazer se a bolsa cair, ele não teve dúvidas em responder “comprar mais” ações.

Em sua avaliação, independentemente das reformas, as empresas valem muito mais do que os seus atuais preços em bolsa. Em outras palavras, a cotação das ações está aquém dos resultados a serem proporcionados pelas respectivas empresas emissoras do papel.

Cavalheiro diz que vem trabalhando com três cenários para a economia: um em que não haverá a reforma da Previdência. “Se nada acontecer, o País vai explodir, virar uma Grécia, a dívida fica impagável e há uma insolvência fiscal”.

Um segundo em que sai alguma reforma, mas não a ideal, algo que traga uma economia em torno de R$ 500 bilhões. Nesse cenário, é possível estancar a sangria, mas a situação piora aos poucos.

E um terceiro em que a mudanças na Previdência serão mais agressivas e o governo respeite o limite de gastos, gerando uma economia da ordem de R$ 1 trilhão. Esse cenário permitiria uma rápida retomada da produção, do crescimento econômico, com queda do desemprego, e uma alavancagem expressiva das empresas.

João Braga, chefe de renda variável da XP Investimentos, também diz que os juros mais altos do planeta são coisa do passado e vê na aprovação da reforma da Previdência condição necessária para o País voltar a trilhar o caminho do crescimento sustentado com geração de emprego. Gestor do XP Long Biased, um dos fundos de ações mais rentáveis no ano, ele conseguiu para os clientes, apesar de toda a instabilidade do mercado no período eleitoral, um desempenho de 12%, entre 15 de agosto e 30 de outubro.

Embora a aprovação de reformas sejam ainda incerteza, ele considera a bolsa de valores boa opção de investimento. Senão por outros motivos, porque os preços dos papeis estariam atraentes para a compra e, no longo prazo, seriam favorecidos pelas condições estruturais das empresas. Em vez de setores, ele garimpa empresas específicas que acenam com bom retorno, como Bradesco, Lojas Americanas, Copasa, Gerdau, Banco do Brasil, Petrobras, dentre outras.