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E-Investidor: como a queda do PIB afeta o mercado financeiro

Avanço da Covid-19 nos EUA eleva nível de tensão nos mercados

Regina Pitoscia

06 de abril de 2020 | 02h22

(*) Com Tom Morooka

O investidor pode contar com bastante instabilidade no mercado de investimentos também em abril. Embora tenha ensaiado alguma estabilização nos últimos dias, o mercado financeiro iniciou o quarto mês do ano em meio a um cenário nada diferente do de março, quando, atiçado pelas dúvidas com os impactos econômicos do coronavírus, a bolsa de valores despencou e o dólar, em contínua alta, bateu seguidos recordes nominais. As incertezas persistem, em escala ampliada.

O temor cresceu entre os investidores porque a pandemia chegou com força devastadora ao centro do capitalismo global, os Estados Unidos, permanece ativa em vários países da Europa e deve atingir maior severidade ainda no Brasil.

As ações recentes de bancos centrais e governos, incluído o brasileiro, com medidas para tentar amortecer os efeitos econômicos do coronavírus e manter a atividade em pé não têm sido suficientes para alimentar otimismo nos investidores e dar algum alento ao mercado financeiro.

Cresce o sentimento de que, à medida que avança, a pandemia, vista inicialmente como crise sanitária, vai agravar a crise da economia real pelo mundo e provocar, em sua esteira, uma provável crise financeira.

Governos e bancos centrais estão criando linhas de crédito e liberando recursos para manter a economia funcionando para na etapa seguinte, passada a crise provocada pela pandemia, reorganizar a cadeia produtiva e evitar possível colapso. O temor geral é que a recessão, considerada certa, se transforme em uma depressão, uma paradeira e desorganização econômica que exige mais tempo e custo para a retomada.

Domesticamente, é nessa direção que aponta o decreto que declarou   estado de calamidade pública, aprovado pelo Congresso, e liberou o governo de cumprir a meta inicial de déficit primário, de R$ 124,1 bilhões, previsto inicialmente para este ano. A medida deixa o governo sem amarras para mais gastos, além do rombo inicial autorizado pelo Congresso.

Outro é o Projeto de Emenda Constitucional (PEC) que cria o chamado “Orçamento de Guerra”. Apresentado pelo presidente da Câmara, deputado Rodrigo Maia, a proposta segue para apreciação do Senado, após ser aprovado pela Câmara na última sexta-feira.

Se passar pelo Senado, como tudo indica, o governo terá a liberdade de gastar o que for preciso com ações relacionadas ao combate contra a pandemia do coronavírus. Serão gastos autorizados por uma espécie de orçamento paralelo, o “Orçamento de Guerra”, distinto do Orçamento Geral da União, elaborado de acordo com a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), desde que as despesas não sejam permanentes.

A PEC prevê que, enquanto esse orçamento extraordinário estiver em vigor, fica suspensa a Regra de Ouro, dispositivo constitucional que impede que o governo se endivide para o pagamento de despesas correntes, como salários, o que facilita as ações contra a pandemia.

São medidas que dariam certo suporte à economia para a travessia da crise, mas insuficientes para gerar otimismo aos investidores preocupados com a falta de sinalização de condições para a retomada de atividade. A começar pelo escanteamento da agenda de reformas econômicas, como a tributária e a administrativa, mais urgentes agora para pôr as contas públicas em trajetória de ajuste, após o rombo fiscal provocado pela crise.

Um dos motivos do desalento em relação ao avanço da pauta de reformas é a crise política, gerada pelo embate entre o governo Bolsonaro e o Congresso, cristalizado, no momento, pelas divergências em relação à operacionalização das medidas de combate ao coronavírus.

Em meio a esse cipoal de incertezas, especialistas e profissionais de investimento afirmam que os mercados devem continuar reagindo a fatos e expectativas do dia a dia, sem definir uma tendência. Em um ambiente que as decisões são tomadas com visões de curto prazo, ganham destaque na bolsa de valores as ações facilmente negociáveis, as blue chips, que investidores mais ágeis usam para o giro rápido, o day-trade, embolsando como lucro a diferença de preços entre a compra e a venda ou vice-versa.

É uma estratégia que contribui para reforçar a volatilidade, o brusco sobe e desce das ações, propício a que os investidores rápidos no gatilho busquem ganhos para compensar as perdas provocadas pela derrocada das ações em março – a Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, acumulou desvalorização de 29,91%, que sobe para 36,87% no ano.

Compra de ações para manutenção em carteira, com vistas a um retorno em três a cinco anos, não parece fazer parte, por enquanto, de planos de  investidores que procuram retorno do investimento em tempo mais elástico, por causa de dúvidas não apenas em relação à crise do coronavírus, mas também à capacidade de retomada da economia global.

Para alguns profissionais de mercado, o momento poderia ser indicado para a compra gradual e seletiva de ações, que teriam ficado baratas, depois da forte queda em março. A dúvida, ressalvam, é saber se poderão ficar ainda mais baratas, se a bolsa de valores persistir em baixa.

Cresce a ala de gestores de fundos de investimento e corretoras de renome que têm revisado para baixo o fechamento estimado do Ibovespa (Índice Bovespa) próximo de 100 mil pontos, anteriormente, para algo em torno de 90 mil a 80 mil pontos.

O Ibovespa fechou sexta-feira em 69.537 pontos, com queda de 3,76% no dia, 5,30% na semana, 4,77% no mês, em três dias, e 39,87% no ano.

O dólar comercial permanece em marcha batida de alta, sem grande alarde, mas atingindo seguidos recordes nominais de preço. Fechou sexta-feira cotado por R$ 5,33, com valorização de 1,14% no dia, 4,31% na semana, 16,0% no mês e 33,25% no ano, até o momento.

 

 

 

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