BC venderá dólar a partir de hoje para brecar as cotações

Regina Pitoscia

20 de maio de 2019 | 00h13

(*) Com Tom Morooka

Para tentar conter a escalada do dólar, que fechou a sexta-feira cotado por R$ 4,10, a maior cotação em nove meses – em meio a um ambiente de incertezas diante dos sinais de desaceleração econômica e de falhas na articulação política que poderiam atrapalhar a aprovação da reforma previdenciária –, o Banco Central (BC) retomará a venda direta de moeda americana ao mercado a partir desta segunda-feira.

A intervenção será por meio dos chamados leilões de linha, que consistem na venda de dólares com compromisso de recompra em determinada data. O lastro para essas operações são os dólares empilhados nas reservas internacionais, cujo estoque gira em torno de US$ 380 bilhões.

De acordo com o comunicado divulgado na sexta-feira à noite, o BC fará três leilões de venda, de segunda a quarta-feira, com oferta de até US$ 1,25 bilhão por dia. Esses recursos só deixarão as reservas, com perdas no estoque de moeda forte, se, em vez de devolvê-los ao BC, os compradores decidirem ficar de vez com os dólares.

A expectativa do BC é que a ampliação da oferta de moeda americana no mercado, injetada pelos leilões de linha, sirva de freio à disparada das cotações e o dólar venha para níveis mais baixos.

A nova gestão do BC, comandada por Roberto Campos Neto, trocou a tradicional intervenção por meio da oferta de contratos de swap cambial, um instrumento de proteção cambial que equivale à venda futura de dólares, pela oferta direta de moeda americana no mercado à vista.

A primeira e última venda de dólar à vista com compromisso de recompra, o chamado leilão de linha, ocorreu na virada de abril para maio, quando o dólar encostou em R$ 4. Portanto, R$ 0,10 abaixo do nível de preço que atrai nova intervenção direta do BC no mercado.

Mercado de ações

Já a Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, veio ladeira abaixo, aos 90 mil pontos, o menor nível deste ano. Toda a tensão gerada pela deterioração de expectativas, com o agravamento da crise política e dos sinais de desarticulação da base governamental para a aprovação da reforma, fez muita gente liquidar suas posições e sair do mercado.

Os seguidos cortes nas estimativas de crescimento e as incertezas no cenário internacional também deram lá sua contribuição para derrubar o segmento de ações. A Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, fechou a sexta-feira com ligeira baixa de 0,04%, em 89.992 pontos, nível mais baixo do ano, após colecionar quatro pregões consecutivos de queda. A desvalorização acumulada na semana foi de 4,52%.

Incomodados por dúvidas diante do cenário nebuloso na política e na economia e preocupados com incertezas externas, os investidores estariam reavaliando as apostas na bolsa de valores. Por ora, parecem preferir vender as ações valorizadas para transformar em lucro os ganhos obtidos no ano – a valorização chegou a 14% em março – até que esse quadro esteja melhor definido para retomar as compras.

De acordo com os especialistas em ações, que não veem ainda o movimento da bolsa de valores como reversão de expectativas ou virada para uma tendência negativa, a piora nas previsões de crescimento econômico tem ofuscado a atratividade de ações de setores da economia doméstica que se beneficiariam de uma retomada da atividade, como o bancário (pelo aumento de crédito), varejista (pela alta do consumo) e estatal.

Especialistas chamam a atenção para as ações de empresas exportadoras, especialmente as de commodities, minério de ferro e celulose, que tendem a ser favorecidas com a escalada do dólar. A valorização da moeda americana impulsiona o faturamento de companhias cujo resultado das vendas ao exterior está atrelado ao dólar.

De forma geral, contudo, a expectativa é que as recentes quedas da bolsa de valores voltem a atrair investidores que aproveitam momentos de baixa para recompor a carteira com a recompra de ações baratas, as chamadas pechinchas. Afinal, apesar do mau humor dos últimos dias, investidores e mercado financeiro continuam apostando na aprovação da reforma previdenciária, embora com resultado mais diluído e em um prazo mais longo que o inicialmente previsto.

Fatores externos

Apesar das preocupações com as crises política e econômica internas, o economista-chefe da Infinity Asset, Jason Vieira, avalia que boa parte da pressão sobre os mercados domésticos de ações e de dólar reflete o clima de tensão global, ligados ao embate comercial entre Estados Unidos e China e à valorização do dólar perante as demais moedas.

A disputa comercial entre americanos e chineses agrava as incertezas em relação à trajetória da economia global, que já anda em marcha lenta e cuja redução de ritmo pode afetar negativamente os demais países, incluído o Brasil, que custa a engatar uma retomada de atividade.

Para Jason, há muitos rumores para poucos fatos concretos que poderiam justificar o nervosismo dos investidores, refletido na forte queda das ações e a escalada do dólar nos últimos dias. “Investidores e mercados estão reagindo a um contexto que gera cautela, em que todos somos influenciados por uma série de ruídos desnecessários.”

O economista-chefe da Infinity Asset prevê a continuidade do clima de instabilidade enquanto não houver um desfecho, que considera imprevisível, no duelo comercial entre EUA e China. As negociações entre as partes em busca de um acordo seguem, em meio a percalços e expectativas que mudam a cada declaração ou consideração do presidente Donald Trump sobre o assunto.

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