Bolsa é a bola da vez, renda fixa exige cuidado redobrado

Regina Pitoscia

04 de novembro de 2019 | 01h17

(*) Com Tom Morooka

Um ponto comum das análises no mercado financeiro, nesta largada de novembro, é em torno da perspectiva positiva para a bolsa de valores. As apostas se baseiam mais em expectativas, algumas novas outras nem tanto, mais que em fatos.

O otimismo vem de possível aumento da migração de recursos de investidores pessoas físicas para a compra de ações, encorajados pelos juros nanicos na renda fixa, e da retomada do ingresso de capital estrangeiro na bolsa de valores. Uma senha para essa volta de recursos externos seriam sinais mais consistentes de crescimento econômico.

O mercado sabe que altas mais vigorosas da bolsa de valores, sobretudo com a possível e esperada participação do capital estrangeiro, e quedas mais consistentes do dólar tendem a ocorrer apenas em um cenário de evolução mais robusta e sustentada da economia.

Renda Fixa

Já as aplicações em renda fixa exigem atenção redobrada do investidor, porque a queda do juro básico ao nível de 5% ao ano, e com possibilidade de atingir os 4,5% até o fim de 2019, atinge em cheio o desempenho de títulos que pagam juros.

É o caso do Tesouro Selic, um dos papeis que o investidor pessoa física compra pela internet na plataforma do Tesouro Direto. Como remunera com juro pós-fixado atrelado à Selic, o título passa a render menos à medida que a Selic fica mais baixa. Ou a render mais se o juro retomar a alta.

Mesmo no atual cenário de juros em queda, o Tesouro Selic tem sido o título mais procurado no Tesouro Direto. Em setembro, de acordo com os dados do Tesouro, esse título indexado à Selic foi o mais procurado na plataforma, com participação de 50,2% nas vendas.

O investidor que compra o Tesouro Selic pode estar apostando em cenário de reviravolta dos juros, para tirar proveito de eventual retomada de alta da Selic, mas essa perspectiva está fora do radar de analistas do mercado financeiro. Pelo menos em horizonte de um a dois anos.

O motivo do otimismo em relação à trajetória da inflação e dos juros se deve ao fraco ritmo de recuperação da economia. A ideia é que o crescimento visto como cíclico, após anos de forte recessão, deverá inibir qualquer tentativa de remarcação de preços que venha a pressionar a inflação. Tanto pela ampla folga na capacidade instalada e de pessoal quanto pela baixa renda das famílias que deve servir de freio ao consumo.

A combinação desses dois fatores deverá manter a inflação baixa e, com ela, também os juros perto do chão por bom tempo. Os dados mais recentes do boletim Focus indicam que o mercado projeta uma inflação de 3,29% pela variação acumulada do IPCA (índice de Preços ao Consumidor Amplo) em 2019, com uma Selic de 4,50%. Para 2020, estima uma inflação de 3,60% e Selic em 4,50% ao ano.

São projeções que apontam para um quadro de inflação sob controle, abaixo das metas fixadas para o período (4,25% para este ano e 4% para 2020), e taxa Selic ou rendimento do Tesouro Selic em torno de 4,50%.

Dessa remuneração bruta do Tesouro Selic, para chegar ao valor líquido do título deve ser descontado o imposto de renda, de 22,50% para aplicação de até 180 dias (seis meses) e de 15% para aplicação acima de 720 dias (dois anos), com alíquotas intermediárias de 20% (aplicação entre 181 e 360 dias) e 17,50% (entre 361 e 720 dias).

Embora a caderneta renda o equivalente a 70% da Selic, no fim das contas a poupança, com o benefício da isenção de imposto, poderá render mais que o Tesouro Selic em aplicação por períodos mais curtos. Com a vantagem ainda de possibilitar resgates com rendimento a cada 30 dias.

Demais títulos

O segundo título mais vendido no Tesouro Direto em setembro, com participação de 30,5% do total, foi o Tesouro IPCA e o terceiro, com 19,2%, os prefixados, o Tesouro Prefixado.

O Tesouro IPCA oferece um rendimento híbrido, formado por juro real prefixado e correção monetária pela variação da inflação oficial no período calculada pelo IPCA. O Tesouro Prefixado é um título que embute juro prefixado (juro mais correção monetária) em que o investidor só terá ganho se a inflação no período ficar abaixo do rendimento prefixado.

O rendimento tanto do Tesouro IPCA quanto do Tesouro Prefixado também tem passado por seguidos cortes, na esteira da redução da Selic.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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