Bolsa e dólar devem seguir em clima de tensão e instabilidade

Regina Pitoscia

11 Fevereiro 2019 | 00h31

Na última semana, o mercado financeiro passou por clara mudança de humor. O segmento de ações perdeu o fôlego sustentado em janeiro, quando acumulou valorização de 10,82% e foi a aplicação mais rentável do mês. Em seis dias de fevereiro, o mercado de ações amarga perda de 2,10%.

O dólar comercial, que ocupou a última posição em janeiro, com perda de 5,6%, acumula valorização de 1,95% neste mês, até agora, e dá sinais de que ganhou maior mobilidade.

Os fatores de pressão que têm influenciado a trajetória desses mercados vêm de duas frentes, externa e interna, de acordo com Jason Vieira, economista-chefe da Infinity Asset.

Lá fora

A incerteza com os desdobramentos da disputa comercial entre Estados Unidos e China continua influenciando os investidores mundo afora. E isso ocorreu de forma mais decisiva na semana que passou, segundo Vieira, levando a uma certa apatia da bolsa de valores e mais animação no dólar.

O motivo foi a paralisia das conversações entre os governos chinês e americano para ao agendamento de uma reunião que debaterá a retomada de taxação de produtos chineses que chegarem aos EUA.

O raciocínio de que os entendimentos entre os dois países para pôr fim à disputa comercial voltaram à estaca zero, sem perspectivas de uma rápida solução, trouxe tensão aos mercados.

Aqui dentro

Esse comportamento foi influenciado também, internamente, pela preocupação dos investidores com o ritmo de andamento das reformas econômicas, especialmente da Previdência Social, no Congresso.

“O mercado caiu na real e se deu conta de que o timing (tempo) para a aprovação das reformas não é o mesmo do Congresso”, comenta Vieira. De fato, o processo de aprovação de matérias dessa natureza, de tanta importância para o País e também para os segurados, é demorado.

Ele lembra ainda que não são conhecidos ainda nem os pontos da reforma previdenciária que será enviada ao Legislativo. E essa demora seria também uma fonte de instabilidade nos mercados, em um ambiente de crescente ansiedade dos investidores.

O aumento de volatilidade eleva o risco para quem investe em ações. Para o economista-chefe da Infinity, a bolsa de valores não está convidativa para quem não tem conhecimento desse setor nem tem condições de acompanhá-lo de perto.

O momento exige que o investidor em ações tenha alguém para cuidar de seus negócios, um gestor, como nos fundos de investimento. Por isso, o caminho mais indicado para quem quer diversificar as aplicações é o fundo multimercado ou o fundo de ações, sugere.

Termômetro

O comportamento do mercado de ações e do dólar é visto como termômetro das expectativas dos investidores. O sentimento positivo em relação ao governo do presidente Jair Bolsonaro e sua agenda de reformas econômicas, com mudanças na Previdência e privatizações, redundou em altas expressivas da bolsa de valores e baixa do dólar nos últimos meses.

A recente reversão de trajetória nesses mercados, com a retomada de alta do dólar e queda da bolsa de valores, não significa, contudo, que os mercados deixaram o otimismo de lado. A confiança e a aposta nas reformas parecem mantidas, mas há preocupação sobre outras questões.

A base de apoio ao governo, desenhada a partir da eleição dos presidentes da Câmara e do Senado, permanece difusa, por enquanto, e tampouco se conhecem os pontos principais da reforma previdenciária, no formato que será enviado aos parlamentares para votação e aprovação.

Tudo indica que o mercado estará mais sensível aos ruídos das disputas políticas, algumas dentro da própria equipe de governo, e também às novidades no Congresso que influenciem as expectativas sobre o andamento da reforma previdenciária. São esses os ingredientes que devem aumentar o grau de tensão e instabilidade nas bolsas e no segmento de dólar.

Para os investidores, não há espaço para outra opção senão a de que as mudanças nas regras da aposentadoria e outros benefícios previdenciários garantam o ajuste das contas públicas. Não só isso, poderiam também beneficiar os agentes econômicos, que assistiriam a uma expansão do mercado de capitais, com reflexos positivos na bolsa de valores, como fonte de recursos para financiamento mais barato dos negócios.

Portanto, sinais positivos de que as medidas estarão sendo encaminhadas nesse sentido podem trazer de volta o vigor ao mercado de ações, que embicaria para altas em busca de patamares mais elevados. O dólar, por sua vez, andaria na contramão da bolsa de valores, mergulhando em uma trajetória de baixa.