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Bolsa se recupera em abril, mas risco político traz instabilidade

Regina Pitoscia

01 de maio de 2020 | 02h07

(*) Com Tom Morooka

A Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, retomou a valorização e faltou pouco para acomodar-se no topo das aplicações mais rentáveis de abril, ocupado mais uma vez pelo ouro. Ainda assim, a valorização de 10,47% compensou parcialmente a forte queda de 36,87% da B3 do mês passado.

O desempenho positivo do mercado de ações não parece sinalização, contudo, de que o otimismo está de volta ao mercado financeiro e aos investidores. Os ativos considerados de maior risco e muito procurados para proteção de patrimônio em momentos de incerteza, como ouro e dólar, continuam sustentando as posições de destaque no balanço.

O terceiro lugar foi ocupado pelo dólar comercial, com valorização de 4,69%. O desempenho do ouro reflete, em boa medida, a forte valorização do metal amarelo no exterior, ativo bastante demandado como reserva de valor pela insegurança com o coronavírus.

O avanço do dólar espelhou uma combinação derivada do fortalecimento da moeda americana no exterior com um ambiente de incertezas domésticas, pelo agravamento de cenário em duas vertentes de acordo com especialistas e profissionais do mercado, a política e a econômica.

O dólar superou seguidos recordes nominais em abril, chegou ao patamar de R$ 4,74, escalada contida por uma bateria de leilões diários do Banco Central (BC), em várias modalidades de atuação: venda de contratos de swap cambial, títulos que protegem contra oscilações do dólar e proporcionam ganho financeiro ao comprador quando as cotações sobem; venda  de dólares pelo chamados leilões de linha, com compromisso de recompra em determinada data pelo BC; e venda à vista de dólares, sacados das reservas internacionais.

A impressão de analistas é que as preocupações com o coronavírus, sobretudo sua evolução e efeitos econômicos no exterior – vários países indicam que deram o pontapé para a retomada de atividade – cedam espaço cada vez mais às incertezas políticas e econômicas, internamente.

Apesar dos sinais de relativa estabilização e recuperação do mercado financeiro doméstico, “a volatilidade vai continuar nos mercados, principalmente na bolsa de valores e nos juros”, avalia Rodrigo Franchini, sócio da Monte Bravo. O que vai passar a preocupar cada vez mais os investidores e influenciar o humor dos mercados são “as notícias referentes à questão interna, relacionada ao risco político e fiscal”, fatores que tendem a alimentar muita volatilidade no mercado”.

Em um ambiente de crescente instabilidade, abastecida por essas duas frentes, “não dá para esperar uma tendência ou trajetória linear dos mercados”. O executivo afirma que o que ocorreu em abril, principalmente a recuperação da bolsa, “foi uma devolução dos exageros de março”, quando a B3, em meio a um clima de pânico com a pandemia, despencou e recuou 37%.

Preocupa no cenário político os sinais de conflito entre os três Poderes, sobretudo o acirramento do embate entre o governo e o Congresso. Existe o temor de que o confronto desemboque em uma crise política mais grave e também com os efeitos negativos dos desentendimentos sobre a política de ajuste fiscal, na busca do equilíbrio das contas públicas, agravadas com os gastos despendidos no combate à pandemia.

“Os grandes fundos de investimentos vão ficar de olho na retomada das propostas e medidas de ajuste fiscal, este vai ser um norte a ser seguido por investidores”, para a tomada de decisões, no período pós-pandemia. O mercado quer saber, afirma Franchini, se medidas que redundaram em gastos adicionais serão extintas, passado o período de emergência.

O cenário de incertezas com a crise política e os rumos da política fiscal é um dos fatores que devem manter a pressão sobre o dólar, que, para o sócio da Monte Bravo, poderá flertar com patamares mais elevados de preço, em torno de R$ 5,70 a R$ 5,80, se houver uma piora nesse quadro.

O ambiente de instabilidade não deve impedir que o BC promova nova redução na taxa básica de juros, a Selic, no dia 6, quando o Copom (Comitê de Política Monetária) se reúne, pela terceira vez no ano, para deliberar sobre o rumo dos juros.

“O Copom vai ter que derrubar a taxa, para gerar estímulo econômico e porque a inflação está baixa”, avalia Franchini, que considera viável um corte de 0,75 ponto porcentual na Selic atual, para 3% ao ano.

Nova redução da taxa básica não deve gerar, porém, pressão adicional sobre o dólar, pela diminuição da diferença entre os juros domésticos e internacionais, achatamento que estimularia a saída de capitais para aplicação exterior. “O corte dos juros já está no preço do dólar.”

Um segmento em que faltaria ajuste à perspectiva de redução do juro básico, que cairia à nova mínima histórica, é o dos juros futuros, principalmente nos contratos de vencimento mais distantes. Um desalinhamento que expressa a preocupação dos investidores com a trajetória da inflação, gerada pelas dúvidas com a  política fiscal – a ideia é que um forte desequilíbrio nas contas públicas poderia gerar inflação e exigir retomada de alta dos juros para combatê-la.

Essa elevação dos juros futuros – independentemente da Selic baixa, cada vez mais nanica – provocou recentemente fortes perdas em fundos de investimento com títulos de renda fixa prefixados em carteira, porque a perspectiva de alta dos juros, sinalizada pelo mercado futuro, desvaloriza títulos de emissão antiga com juros mais baixos.

Foi o que provocou fortes perdas em fundos de renda fixa, fundos de crédito privado e até em alguns fundos DI em março que se estenderam em vários deles até abril.

Veja quanto renderam as aplicações em abril, de acordo com os cálculos do administrador de investimentos Fabio Colombo.

Ranking de abril

Aplicação                                           Rendimento

1º – Ouro                                                  11,94%

2º – Bolsa de valores                              10,47%

3º – Dólar                                                   4,69%

4º – Euro                                                    4,02%

5º – IGP-M                                                 0,80%

6º – CDB                                                     0,20 a 0,35%*

7º – Caderneta                                           0,22%

8º – Fundos de renda fixa                       0 a 0,15%*

9º – Fundos DI                                        – 0,05 a 0,10%*

10º – Títulos indexados ao IPCA         – 0,10 a 0,05%**

11º – IPCA                                                 – 0,21%***

* rendimento médio

** indicativo

*** estimativa

 

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