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Bolsas tiveram algum alívio, mas tendência segue indefinida

Regina Pitoscia

30 de março de 2020 | 03h13

(*) Com Tom Morooka

Após alguns pregões de alívio que indicavam para uma certa estabilidade dos mercados, o ambiente de volatilidade voltou aos pregões na sexta-feira, com forte queda da bolsa de valores e firme avanço do dólar.

A recaída não chega a surpreender, diante da perspectiva de duração por algum tempo da crise do coronavírus e seus efeitos sobre a economia global, mas frustrou as expectativas principalmente dos investidores novatos que passam pelo primeiro baque no mercado de ações.

O impacto de uma crise sobre as bolsas de valores é maior desta vez e também machuca mais porque pega cheio os investidores estreantes em ações que migraram da renda fixa para a renda variável, em maior fluxo e intensidade, desde o ano passado. “A queda da Selic dobrou o número de CPFs (investidores pessoas físicas) cadastrado na B3”, reforça Mateus Brito, estrategista do BV Private, e, segundo ele, foi responsável em boa medida para impulsionar a bolsa de valores até o início da atual crise.

Como estrategista, ele sugere aos investidores que passam por perdas na bolsa que “não tentem fazer movimentos no mesmo compasso de solavancos do mercado”, poque o ambiente ainda é de muita volatilidade e de cautela. “Em situações assim, só assume prejuízo que sai da posição vendendo ações”, destaca Brito, dizendo que é muito importante avaliar também o tamanho da posição de risco e lembrando que não se pode entrar na onda do estresse e tomar decisões precipitadas sem consultar profissionais especializados.

Ao longo do tempo, após a fase mais aguda das crises, “os preços tendem a voltar à sua média histórica”, alerta ele, motivo pelo qual os investimentos em ações, de acordo com o estrategista. devem ser feitos mirando retorno em períodos maiores, de três a cinco anos.

Para o investidor mais conservador que pensa migrar para as ações aproveitando a temporada de forte baixa da bolsa de valores, a dica de Brito é que evite a iniciativa, por enquanto, porque não se tem ideia ainda de se  as cotações chegaram ao fundo do poço ou podem recuar mais. “Afinal, não se sabe também quando a crise vai acabar e se a recuperação da econômica será rápida” e se a reação da bolsa de valores será lenta, alternada entre altas e baixas.

Dólar em alta

O mercado de dólar também tende a continuar refletindo o humor e a expectativa dos investidores, em relação ao desfecho da crise e à recuperação da economia global. Momentos de crise, ainda que não financeira, contaminam grandes investidores que, em meio ao aumento de aversão a risco, procuram proteção em ativos considerados mais seguros, como títulos do Tesouro americano, ouro e moedas como o dólar, iene, franco suíço, entre outras.

O dólar fechou a sexta-feira cotado por R$ R$ 5,11, com valorização de 1,60% na semana, 14,1% não mês e 27,75% no ano, até o momento.

Fundo do poço?

Investidores em bolsa de valores ansiosos em identificar se os preços das ações haviam atingido o menor nível possível, após os seguidos tombos, e um sinal que apontasse para possível início de reação da economia global viram suposto alento na ação de estímulo fiscal do governo americano, com pacote de US$ 2 trilhões de ajuda a empresas e famílias prejudicadas pela pandemia.

A iniciativa animou as bolsas de valores pelo mundo e contagiou também a de São Paulo, que disparou por alguns pregões. Apesar do persistente sentimento de incertezas em torno da crise causada pela pandemia, investidores aproveitaram o momento de alívio, visto como momentâneo pelos especialistas, para garimpar ações baratas que acenam com perspectivas promissoras, após as seguidas e fortes quedas.

Apesar desse fôlego momentâneo, nada mudou no cenário que pauta os negócios no mercado financeiro, especialmente no de ações e dólar, avaliam especialistas em investimento.

“O mercado de ações continua muito cauteloso, à procura do fundo do poço e de quando poderia começar a reação”, afirma Mateus Brito, estrategista do BV Private. As barganhas e o anúncio do pacote de estímulo americano até ajudaram a reação positiva dos investidores na bolsa, mas por enquanto, segundo ele, tudo é incerteza, “até porque ninguém sabe o tamanho e a duração da atual crise”.

O ambiente de dúvidas e incertezas afasta o investidor e trava o mercado porque, explica Brito, a bolsa de valores projeta a lucratividade futura das companhias , mas não se pode deixar de lado o otimismo, “porque a crise vai passar e a economia global vai se recuperar, em algum momento”.

O agente autônomo de investimentos Eduardo Santalucia afirma que as oportunidades vão surgir, mas desta vez, comparada com as crises anteriores, como a de 2008, os estragos nas empresas foram muito grandes. “O caminho de recuperação vai ser longo para que o valor das ações volte perto de onde estava”, ponto referenciado no pico do Ibovespa (Índice Bovespa) perto de 120 mil pontos, em meados de janeiro.

Por causa das dúvidas que persistem sobre a duração e os efeitos econômicos da crise, principalmente na cadeia produtiva, seria uma temeridade, de acordo com analistas, apostar em uma trajetória consistente de recuperação do mercado de ações. Antes, vai depender da retomada econômica, global e local, que todos torcem seja rápida.

O mais provável é que, até lá, a bolsa de valores sustente algum pregões de alta, seguidos de baixa, pelas vendas para realização de lucros, em movimentos comandados, em ambas as direções, por investidores de cacife que precisam compensar, por meio dessas movimentações, as fortes perdas acumuladas até agora.

A Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, encerrou o pregão de sexta-feira com queda de 5,51%, após três pregões consecutivos de alta. Na semana, a B3 acumulou valorização de 9,48%, mas recua 29,51% no mês e 36,51% no ano, até agora, faltando dois dias úteis para o fechamento de março.

 

 

 

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