Caderneta perde para Título do Tesouro mesmo no curto prazo

Regina Pitoscia

15 de fevereiro de 2019 | 02h32

Pelas condições atuais do mercado e de cálculo do seu rendimento, a caderneta está rendendo menos do que um título do Tesouro, mesmo no curto prazo. Enquanto a poupança paga atualmente 0,37% ao mês, um título do Tesouro Selic oferece uma remuneração líquida de 0,39%, em igual período, depois do desconto do Imposto de Renda e também da taxa de custódia, de 0,25% ao ano.

A origem da desvantagem está nos critérios de apuração da remuneração de ambas as aplicações. Os papeis do Tesouro Selic, como o próprio nome já diz, tem a rentabilidade baseada na Selic, a taxa básica da economia que está em 6,5% ao ano. A caderneta, aberta a partir do dia 4 de maio de 2012, tem o rendimento equivalente a 70% dessa mesma Selic. Esse ponto de partida deixa a mais popular das aplicações em desvantagem, porque ao nível de 6,5% ao ano, a Selic vai gerar um retorno de 4,55% ao ano, ou 0,3715% ao mês, para a poupança.

Ainda considerando outras aplicações dentro do segmento seguro da renda fixa, um fundo DI poderá pagar mais do que a caderneta dependendo do tamanho de sua taxa de administração: cobrando taxas a partir de 1% ao ano vai ficando mais difícil de superar a concorrente.

E um CDB será mais vantajoso ou não do que a poupança em função do rendimento que oferecer, geralmente equivalente a um porcentual das taxas praticadas nas operações de financiamento entre os bancos (CDI).

Essas diferenças ficaram estampada nas simulações feitas pela Magnetis Investimentos, para períodos de um mês, três meses, seis meses e um ano. Elas precisam ser consideradas por quem tem interesse em administrar suas finanças da melhor forma possível.

Compare – rendimento líquido (*)

Prazo       Caderneta     Tesouro Selic     Fundo DI   CDB (**)    CDB (***)

1 mês             0,37%              0,39%             0,34%         0,32%        0,42%

3 meses          1,11%               1,16%              1,02%         0,97%         1,27%

6 meses         2,23%              2,42%             2,12%          2,01%         2,65%

1 ano              4,51%              5,08%             4,46%         4,20%          5,56%

Fonte: Magnetis Investimentos

(*) Desconto de Imposto de Renda (exceto da caderneta que é isenta), da taxa de custódia no Tesouro Selic, e da taxa de administração de 1% ao ano no Fundo DI

(**) CDB que oferece 80% do CDI

(***) CDB que oferece 105% do CDI

O Tesouro Selic bate a caderneta em qualquer período, o mesmo acontecendo com um CDB com rendimento correspondente a 105% do CDI. Geralmente essa taxa mais parruda é oferecida para volumes mais altos de dinheiro. Para uma aplicação mais miúda, o rendimento do CDB pode cair para algo em torno de 80% do CDI, quando ele perde da poupança nas quatro hipóteses acima. E um fundo DI com taxa de administração de 1% ao ano fica em desvantagem em relação à caderneta, justamente por esse custo que come parte do rendimento, em todas as situações.

Para prazos mais elásticos, no entanto, esses resultados podem mudar.

Preferência nacional

Nem sempre esses dados estão disponíveis para uma tomada de decisão de onde aplicar o dinheiro, e quando estão podem ser técnicos demais para quem simplesmente quer fazer um depósito e ver seu patrimônio crescer. Talvez essas dificuldades expliquem, em boa dose, a preferência dos brasileiros pela caderneta, e sua comodidade em permanecer nela.

Pelos últimos dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), 65% dos recursos aplicados no mercado financeiro, dentro do varejo, em 2018 estavam na poupança. Mesmo com um rendimento bastante discreto.

“Historicamente, a caderneta foi um bom produto para manter e preservar o poder de compra do aplicador em época de inflação mais alta”, explica Luciano Tavares, fundador e CEO da Magnetis Investimentos.  “Mas desde o Plano Real ela perdeu seu atrativo, não vale mais a pena pelo retorno que proporciona”. Para ele, com as novas tecnologias, o aplicador tem acesso fácil a uma série de opções tão seguras como a caderneta, sem riscos, mas com rentabilidade mais alta.

“A grande dificuldade em migrar para investimentos mais atraentes está ligada à falta de conhecimento sobre como funcionam ou como ter acesso a eles”, explica o executivo. Mas, segundo Tavares, hoje existe à disposição de qualquer investidor um cardápio bem variado de produtos financeiros, por meio das plataformas online, com aplicativos que facilitam a navegação, checagem de informações e a aplicação em si.

Um bom desempenho não decorre necessariamente de um produto específico, afirma o especialista, mas sim de uma diversificação e um balanceamento entre algumas aplicações de renda fixa.  Entre as opções para mesclar uma carteira, dentro do segmento mais conservador, ele considera papeis como CDB, Letras de Crédito Imobiliário (LCI), Letras de Credito do Agronegócio (LCA) e Letras de Câmbio, todos com a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Em casos de quebra da instituição financeira, em que está o dinheiro, há garantia de devolução de até R$ 250 mil por CPF de aplicador.

Além dos papeis, ele cita os fundos de renda fixa e os fundos com lastro em títulos de crédito, os Fidcs, que podem render mais, mas em contrapartida envolvem risco de crédito.

Simulações e aplicação

Em seu site, www.magnetis.com.br, há uma ferramenta gratuita que pode ser de grande utilidade para quem está convencido de que a caderneta paga pouco e decidido a buscar melhores alternativas do mercado. Na prática, é uma consultoria para quem não sabe por onde começar para entender o mundo das finanças.

Trata-se de um simulador, em que o interessado informa quanto vai investir e por quanto tempo. De volta, ele recebe as sugestões de como empregar esse dinheiro de forma mais adequada. “Mesmo que o aplicador não continue com a gente e faça os investimentos, pelo menos, ele poderá visualizar as opções mais interessantes disponíveis para o seu perfil”.

Caso decida investir com a Magnetis, o cliente terá a indicação de cinco níveis de carteiras diversificadas, de acordo com seu apetite ao risco, do mais conservador ao mais arrojado. Para ter uma ideia de desempenho dessas carteiras desenhadas pela fintech, no ano passado, enquanto a caderneta rendeu 4,68%, a mais conservadora das carteiras e, portanto, de risco mais baixo, rendeu 5,88%; a de risco mais elevado rendeu 7,93%. Ao longo do tempo, a diferença de rentabilidade pode se tornar bem expressiva.

Pelas orientações e assessoria, o aplicador pagará uma taxa de 0,4% ao ano, um custo que pode compensar pela possibilidade de obter um retorno melhor com os investimentos. A aplicação mínima inicial é de R$ 1 mil, e os depósitos seguintes são a partir de R$ 100.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.