Clima de otimismo faz bolsa subir e dólar cair. E agora?

Regina Pitoscia

09 de dezembro de 2019 | 00h19

(*) Com Tom Morooka

O comportamento dos mercados de ações e de dólar ao longo da semana que passou, a primeira de dezembro, teria sido uma sinalização inequívoca de otimismo para os que veem na trajetória desses dois segmentos um termômetro das expectativas dos investidores.

A Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, atravessou a semana de ponta a ponta com sinal positivo, em número de pontos no fechamento, colecionando cinco altas consecutivas, e o dólar percorreu o período com sinal trocado em relação à bolsa, somando cinco quedas seguidas.

Após insistentes tentativas de romper a marca de 110 mil pontos, o Ibovespa não apenas alcançou essa pontuação como também deixou essa marca para trás, ao fechar a semana em 111.125 pontos, com valorização de 2,67% nesse período.

Nessa toada, embalado por um cenário externo visto como menos tenso e interno convidativo à retomada do crescimento econômico, a aposta é que o Ibovespa poderá ganhar maior tração daqui para a frente. “Se nada atrapalhar, a bolsa de valores poderá chegar a 120 mil pontos até o fim deste ano”, acredita o diretor de Câmbio da Ourominas, Mauriciano Cavalcanti. Esse nível de pontuação equivaleria a uma valorização de 8% em quase três semanas.

Por enquanto, o motor que tem impulsionado o mercado de ações são as compras de investidores pessoas físicas do mercado doméstico. O investidor estrangeiro permanece arredio na compra de ações no mercado brasileiro, avalia Cavalcanti. “À medida que houver percepção de melhora nas condições econômicas, principalmente em relação ao crescimento, a tendência é que o fluxo estrangeiro seja retomado, não só para a bolsa, mas também para investimento produtivo.”

Com efeito, é a perspectiva de recuperação da economia e, com ela, o retorno do capital externo ao País que move o aumento do interesse pela compra de ações – até agora em boa parte limitada à atuação de investidores à procura da bolsa de valores para diversificar a carteira de investimentos atrás de rentabilidade mais atraente que a da renda fixa.

A confiança na retomada da atividade econômica – reforçada pelos bons dados do PIB (Produto Interno Bruto) e da produção industrial no terceiro trimestre – é também uma das variáveis mais destacadas por analistas para a indicação de ações com mais potencial de valorização. A maior parte delas recai sobre papeis de empresas relacionadas ao consumo doméstico, que seriam beneficiadas pelo aumento de demanda por bens, estimulado pela oferta mais ampla e barata de crédito.

A expectativa é de otimismo com o mercado de ações, mas analistas não afastam a possibilidade de instabilidades, provocadas por fatores pontuais, como os associados à disputa comercial entre Estados Unidos e China –  uma novela que se arrasta com novos capítulos que sempre provocam reações, positivas ou negativas, no mercado de ações.

E o dólar?

Após resistir por algum tempo à queda abaixo de R$ 4,20 e de ver frustradas as tentativas de alcançar patamares mais elevados pelas vendas do Banco Central, o dólar rendeu-se ao ambiente positivo que passou a permear o mercado financeiro neste início de dezembro. Veio não apenas abaixo de R$ 4,20, como também se aproximou rapidamente de R$ 4,10. A moeda americana fechou a sexta-feira valendo R$ 4,14, após cinco dias de quedas consecutivas, e acumulou uma desvalorização de 2,36% na semana.

Cavalcanti, prevê a continuidade da trajetória de baixa das cotações, primeiramente para um nível próximo de R$ 4,10, sem descartar, contudo, a possibilidade de que ela encoste em R$ 4 até o fechamento do ano.

Em meio a uma série de sinais positivos, principalmente de retomada do crescimento da economia, o diretor acredita que os efeitos da saída de dólares do País, que também passou por redução, já foram parcialmente neutralizados. Ele lembra que esta época do ano o câmbio costuma sofrer maior pressão por causa da remessa de lucros e dividendos de filiais instaladas no País para suas matrizes no exterior.

Apesar do ambiente mais favorável, especialistas de mercado consideram pouco provável que a cotação do dólar venha rapidamente abaixo de R$ 4. A menos que o capital estrangeiro retorne com vontade ao País para investimento em bolsa de valores e no setor produtivo.

O provável corte da taxa básica de juros, a Selic, para 4,50% ao ano, na próxima quarta-feira não tenderia a pressionar o dólar para cima, embora aproxime ainda mais os juros domésticos dos internacionais, o que contribuiria para reduzir a atração de capitais externos para aplicação em títulos de renda fixa aqui no País.

 

 

 

 

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