Com mais incertezas, mercado financeiro pode enfrentar novas turbulências na semana

Regina Pitoscia

10 Setembro 2018 | 00h40

(*) Com Tom Morooka

O mercado financeiro inicia esta segunda-feira, na retomada dos negócios após o fim de semana prolongado, avaliando ainda os efeitos, na política e na corrida presidencial, do atentado contra o candidato Jair Bolsonaro (PSL) ocorrido na quinta-feira, véspera do feriado.

A semana promete mais, como a divulgação de novas pesquisas eleitorais e a confirmação oficial do presidenciável pelo PT, mas o olhar dos investidores terá como foco central o cenário eleitoral após o incidente com Bolsonaro em Juiz de Fora.

O ainda confuso xadrez da corrida presidencial, em que o mercado financeiro vinha tateando os lances iniciais a partir de dados das primeiras pesquisas eleitorais, embaralhou de vez com o atentado.

Em um primeiro momento, com informações ainda desencontradas, a bolsa de valores acelerou a alta e o dólar reforçou a trajetória de baixa diante das notícias de que Bolsonaro havia sido esfaqueado em evento eleitoral na cidade mineira. A Bolsa de São Paulo fechou com alta de 1,76% e o dólar com queda de 0,95%, cotado a R$ 4,10, em uma semana que a moeda americana havia ultrapassado R$ 4,20.

Foi uma resposta dos mercados às primeiras leituras sobre os desdobramentos, supostamente positivos, do episódio na corrida eleitoral para o mercado. Uma delas é que o incidente poderia favorecer o desempenho do próprio candidato, que, pela alta exposição na mídia, ficaria mais conhecido. Outra, que o eleitorado ainda arredio ao candidato viria a simpatizar-se com ele, vítima de atentado.

Enfim, a expectativa foi que, apesar de tudo, Bolsonaro poderia conquistar novos adeptos e fortalecer a liderança nas pesquisas eleitorais.  Ademais, Paulo Guedes, assessor econômico do candidato, é considerado liberal, o que agrada ao mercado.

Houve o entendimento também de que o atentado contribuiria para enfraquecer os presidenciáveis com ideias mais à esquerda, como Ciro Gomes (PDT) e Fernando Haddad (cuja candidatura deve ser confirmada ainda esta semana). Candidatos que, na visão do mercado, não estão tão comprometidos com as reformas e o controle dos gastos públicos. Nesse cenário, seriam favorecidos os que defendem posições de centro-direita, como Geraldo Alckmin (PSDB), que tem a torcida dos investidores e poderia ser um dos principais beneficiados no novo cenário.

De todo modo, foram reações de primeiro momento, em um pregão de véspera de feriado, em que a liquidez é baixa e o mercado financeiro fica mais vulnerável a qualquer movimentação. Passado o impacto inicial, os investidores devem avaliar melhor o cenário, à luz de dados mais atualizados, incluídos os da evolução do estado de saúde de Bolsonaro, que, pelas informações, reage bem ao tratamento.

Outro evento que atrai atenção é a definição do candidato presidencial pelo PT. O prazo acaba amanhã, dia 11. A dúvida é saber quem seria mais beneficiado com a retirada do nome do presidente Lula da corrida, se Ciro Gomes, Marina Silva ou Geraldo Alckmin, ou se haveria uma transferência de votos ao petista Fernando Haddad.

Os últimos acontecimentos e os que ainda virão lançam o olhar do mercado financeiro para as próximas pesquisas eleitorais, que podem clarear um pouco o cenário da disputa presidencial e criar novas expectativas nos investidores.

Um dos pontos de pesquisas que redobram a atenção é o índice de rejeição, que é crescente para Bolsonaro. Pelos dados da semana passada, o candidato do PSL era um dos favoritos para chegar ao segundo turno, mas seria derrotado no segundo por candidatos como Ciro, Marina e Alckmin. Resta saber se, após o atentado, haveria uma redução nesse índice. A expectativa é também que o maior tempo no horário eleitoral situe melhor o candidato tucano nos levantamentos eleitorais.

Uma das pesquisas mais aguardadas é o Datafolha, que sai por estes dias. A partir daí e no vácuo dos dados das demais pesquisas, os mercados devem retomar a rotina e seguir a mesma toada anterior de reagir positivamente, com valorização da bolsa e queda do dólar, aos sinais de avanço da candidatura tucana ou negativamente, se os dados forem favoráveis a candidatos situados mais à esquerda.

Uma coisa parece certa. O grau de incerteza política deve aumentar e, com ela, os solavancos no mercado financeiro, especialmente na bolsa de valores e no segmento de dólar. Incursionar por esses mercados, apostando em uma perspectiva de curto prazo, é uma aposta de altíssimo risco, segundo especialistas em investimento.

Mais do que antes, a indicação é que o investidor fique com o dinheiro ancorado em aplicações conservadoras sujeitas a menos riscos, distante das turbulências políticas e eleitorais. Opções que atenderiam à maioria dos aplicadores, de pequeno e médio porte, de acordo com os especialistas, seriam a caderneta de poupança e os fundos DI. O rendimento não é dos mais atraentes, mas em compensação os riscos são bem menores.