Como cuidar das aplicações neste momento de turbulência

Regina Pitoscia

30 Maio 2018 | 00h16

Cautela e caldo de galinha não fazem mal a ninguém. É um ditado antigo, mas ainda apropriado para a tomada de decisões nestes momentos de tensão e insegurança no País. Para o aplicador, isso pode ser traduzido em buscar refúgio, proteção para seu patrimônio.

Ainda que localizada em um setor da economia, a greve dos caminhoneiros acaba por respingar em toda a cadeia de produção, com escassez e alta dos preços de muitos produtos, a começar pelo próprio combustível. Que a greve, pelos efeitos desastrosos que provoca, na produção e no abastecimento, vai ter reflexos na inflação não há dúvidas. A questão é saber o tamanho do impacto sobre os preços e se o fenômeno será momentâneo ou se persistirá por tempo maior.

Se a elevação dos índices inflacionários for passageira, como parece indicar, o Banco Central não terá razões para aumentar as taxas de juro. Na análise do presidente do BC, Ilan Goldfajn, “na taxa de inflação, importa o que acontece ao longo do ano. Esses choques do dia a dia não influenciam a política monetária. Ela é muito resiliente”.

No entanto, se o estrago for maior ou mais duradouro, não ficaria afastado um empurrão para cima nos atuais 6,50% ao ano da Selic – taxa básica da economia – para reacomodar as expectativas de inflação.

Há que se considerar que ontem foi divulgada a inflação medida pelo IGP-M, que ficou em 1,38% no mês de maio, com forte aceleração em relação aos meses anteriores. A variação acumulada em 12 meses está em 4,26%. É verdade que esse índice reflete mais a variação de preços no atacado e a alta captada por ele nem sempre é repassada ao preço final ao consumidor, representado pelo IPCA, que mede a inflação oficial. De todo modo, a perspectiva é de um IPCA mais gorducho este mês.

Renda fixa

Inflação em alta costuma gerar pressão sobre as taxas de juro nos negócios do mercado financeiro. Especialmente sobre os juros futuros, aqueles que guiam as expectativas e influenciam de fato as decisões de investimento. Parece um cenário desenhado para os próximos meses.

Para atrelar o dinheiro a esse possível movimento de alta dos juros, boa pedida é a aplicação de renda fixa com taxa pós-fixada, como o Tesouro Selic, um título da dívida pública federal, ou os fundos DI, que cobrem uma taxa de administração de até 0,5% ao ano. Duas opções que permitem o repasse de qualquer alta dos juros para o aplicador.

A caderneta igualmente pode ser incluída nessa lista porque tem sua remuneração equivalente a 70% da Selic.

Dólar e ouro

Colocar parte dos recursos em fundos cambiais ou mesmo a compra de dólar pode ser opção para proteger o dinheiro. Sobram fatores que devem dar fôlego à moeda americana. Não bastassem o agravamento da tensão política e social com a paralisação dos transportes, agora são os petroleiros que acenam com greve a partir desta quarta-feira. Caso a categoria leve adiante a intenção, o consumidor poderá enfrentar novos problemas com o abastecimento de combustível.

O temor de agravamento da crise política, temperado também pelas incertezas com a corrida eleitoral, oferece forte dose de combustão para a alta das cotações do dólar. Como têm os preços convertidos em reais pela moeda norte-americana, o ouro também segue na esteira do dólar.

Ações

Já a bolsa de valores tem passado por muita instabilidade, comandada especialmente por papeis de Petrobras.  O mercado parece não ter claro ainda do impacto sobre a estatal do acordo fechado pelo governo, com concessões sobre os preços do diesel, com os caminhoneiros.

Em um primeiro momento, na segunda-feira, as ações PN da companhia caíram 14,60% no pregão da bolsa B3 para no dia seguinte, terça-feira, fechar com alta de 14,13%, repondo praticamente a perda do dia anterior.

São oscilações bruscas, naturais em operações especulativas que têm movimentado a bolsa com ações mais facilmente negociáveis, como as da Petrobrás. Como têm forte peso nas operações da B3, os papeis da Petrobras acabam influenciando também o comportamento de outras ações.

Lembrando ainda que muitas empresas tendem a ter seus resultados afetados pela paralisação dos transportes. No pregão de segunda-feira, das 67 ações que compõem o Índice Bovespa, 65 fecharam com queda nas cotações. As duas ações que tiveram valorização são de empresas exportadoras que, mesmo em meio à crise, poderiam se beneficiar da alta do dólar ao embarcar seus produtos ao exterior.

Orçamento

Proteger o patrimônio pode significar também o controle de gastos e não entrar na histeria para a compra de combustível ou alimentos a qualquer custo. Claro que quem precisar de gasolina não terá muito como escapar de espera em filas e preços bem mais salgados. O mesmo vale para quem não abre mão em suas refeições de frutas, legumes e verduras, que começam a aparecer nas prateleiras dos supermercados, mas mais caros.

Economizar parece ser a palavra de ordem, seja deixando de usar o carro, seja substituindo os produtos presentes no dia a dia.