Como ficam os mercados com uma Selic mais baixa

Regina Pitoscia

23 de setembro de 2019 | 00h02

(*) Com Tom Morooka

Os mercados encerraram a semana em que Banco Central (BC) fez novo corte na taxa básica de juros ao nível de 5,50% ao ano sem indicar mudança de tendência.

A nova redução da Selic e a sinalização, do próprio BC, de que ela caia mais animou os negócios, mas a atenção no mercado financeiro permanece voltada a possíveis novos lances da disputa comercial entre Estados Unidos e China. Nesse ambiente, o mercado não deu muita atenção à redução de 0,25 ponto, para o intervalo de 1,75% a 2,00%, do juro básico americano, que coincidiu com o corte da Selic pelo Copom (Comitê de Política Monetária).

O estreitamento da diferença entre o juro americano e a Selic levou a um ajuste momentâneo do dólar, que chegou a aproximar-se de R$ 4,20. Sem sustentação, a cotação veio para baixo rapidamente e fechou a sexta-feira em R$ 4,15, com valorização acumulada de 1,47% na semana.

A diminuição da diferença entre os juros no Brasil e nos EUA torna desinteressante a arbitragem, que consiste em trazer dinheiro de fora para aplicar na renda fixa doméstica, que passa a pagar menos após o corte de juros maior que no mercado americano. E sem esse atrativo, a entrada de dólares no País, que poderia segurar mais a cotação, também tende a ser menor.

Um fator que desencoraja um avanço mais forte do dólar é a ameaça de intervenção do BC, com venda de dólares à vista sacados das reservas internacionais, quando considera que o movimento de mercado está levando a uma distorção de preços da moeda americana.

A expectativa é que que as cotações passem por novos ajustes para baixo e se acomodem em torno de R$ 4,10, a menos que surjam fatos novos, aqui ou lá fora, que levem os investidores a buscar proteção no mercado de dólar.

Já para o outro segmento de renda variável, a expectativa é que a bolsa de valores prossiga em sua marcha batida de alta gradual rumo a 104 mil pontos e daí na direção de 105 mil pontos.

O Ibovespa (Índice Bovespa, principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo ou B3) fechou a sexta-feira em 104.817 pontos, com alta de 0,46%, que assegurou uma valorização acumulada na semana de 1,27%.

A redução dos juros, que entre outros efeitos positivos estimula o interesse por ações, só não provoca alta mais vigorosa da bolsa de valores por causa das incertezas no cenário internacional e preocupação com a falta de sinais de reação da economia doméstica, que, pelos dados do boletim Focus, tende a fechar 2019 com desempenho menor que o dos dois últimos anos.

Isso apesar do avanço da reforma previdenciária, quase em fase de conclusão no Senado, e dos debates em torno da reforma tributária, considerados fundamentais para a retomada dos investimentos. A aposta recai também na largada das privatizações e concessões, que por enquanto não saíram da agenda reformista do governo.

Enquanto isso, o mercado de ações tende a permanecer em alta gradual, mas com pregões sujeitos a fortes volatilidades que exigiriam muito sangue frio, especialmente dos recém-migrados da renda fixa, para não se precipitar em vendas intempestivas que levam a perdas.

Queda dos juros

Não houve surpresa na decisão do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), de levar o juro básico da economia para 5,50% ao ano, mas sim na indicação de que esse piso pode ficar ainda mais baixo este ano, aquém dos 5,0%.

O motivo foi que o BC, além de reduzir o juro básico, atualizou, com revisões para baixo, as projeções de inflação para este e o próximo ano, cenários de preços que a autoridade monetária mira para calibrar a Selic: de 3,40%, para este ano, e de 3,60% para o ano que vem.

Números que demonstram que o otimismo do BC supera o do próprio mercado, que trabalha com a perspectiva de uma inflação de 3,45%, para 2019, e em 3,80%, para 2020. Ambas as estimativas estão abaixo da meta inflacionária – de 4,25% este ano e de 4,00% para 2020 – que o BC tem como alvo central ao definir a taxa Selic.

O corte das taxas de juro, sobretudo em um dos países campeões de juros altos como o Brasil, incentivaria a retomada da atividade, por baratear o custo do investimento na produção. Em linhas gerais, a ideia é que a perda de atratividade com a queda dos juros levaria o dinheiro ancorado em aplicações financeiras para o investimento em produção.

Para especialistas, no entanto, apenas a redução dos juros não seria suficiente para atrair investimentos em uma economia que não dá sinais de reação, após três anos do fim da severa recessão (2014-2016), pela falta de demanda para o consumo, que não reage, em meio ainda a enorme capacidade ociosa e incertezas como o rumo da economia.

O processo de redução dos juros seria, então, apenas uma perna de um tripé de medidas, ainda em construção, que devolveria confiança aos agentes econômicos (empresários e investidores). As duas primeiras, em execução na área fiscal, visam o ajuste e o reequilíbrio das contas públicas: a adoção do teto para os gastos públicos e o projeto de reforma das regras de aposentadoria, que caminha para a reta final de votação no Senado.

A expectativa é que à medida que outras reformas econômicas, como a tributária, que engatinha no Congresso, avancem e a atividade der os primeiros sinais de reação os investimentos voltem com mais força, recolocando a economia na trilha do crescimento.

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