Como foi julho, o que esperar de agosto no mercado e a queda dos juros

Regina Pitoscia

29 de julho de 2019 | 01h17

(*) Com Tom Morooka

Faltando três dias úteis para o encerramento de julho, a Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, ocupa o topo da lista de aplicações mais rentáveis, com valorização de 1,83% e o dólar, mais uma vez, a última posição do ranking com uma baixa de 1,82%, até a última sexta-feira.

O mercado financeiro teve dois comportamentos distintos ao longo do mês que chega ao fim. Um de animação e alta das ações, na primeira quinzena, e outro mais contido, no restante dos dias. O divisor de águas foi a votação e aprovação, na Comissão Especial e em primeiro turno no plenário da Câmara, da proposta de reforma da Previdência Social.

No começo de julho, a B3 bateu seguidos recordes nominais de alta em número de pontos, embicando acima de 106 mil pontos durante os negócios, embora com fechamento abaixo dessa linha, e o dólar deslizou abaixo de R$ 3,80.

A interrupção dos trabalhos parlamentares e o adiamento da votação do projeto em segunda rodada na Câmara para agosto, por causa das férias dos deputados, contribuiu para esfriar os ânimos de investidores e do mercado financeiro. Sem as notícias de Brasília que influenciam as decisões no mundo das finanças, os mercados entraram em compasso de espera, aproveitando a pausa para o ajuste de posições na carteira, à luz de fatos recentes e de expectativas futuras.

À falta de novidades políticas, especialmente às ligadas à reforma previdenciária, deixou o mercado financeiro mais sensível, em sua tomada de decisões, às informações vindas do exterior, ainda que baseadas em temas requentados e quase reprise dos de sempre, como o embate comercial entre Estados Unidos e China e perspectivas de redução dos juros pelo mundo para tentar tirar a economia global do baixo crescimento.

Na verdade, a instabilidade alimentada por expectativas em relação ao cenário externo deixou o mercado financeiro sem tendência. Em meio a um ambiente de incertezas e sem referência nos fatos político-econômicos domésticos, os investidores passaram a reagir a fatores pontuais para decisões de compra e venda de ações e moedas.

A perspectiva é que julho termine com o mercado financeiro em compasso de espera, com a atenção projetada para agosto, que chega na próxima quinta-feira recheado de expectativas.

Antes disso, o último dia deste mês reserva ainda importante evento, que é a reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) que, como aposta o mercado, deve retomar o corte da taxa básica de juros, a Selic. Mais que convencido, o mercado financeiro está convicto de que a taxa vai cair. Um ponto que divide analistas e economistas é a dúvida sobre o tamanho da provável redução, se de 0,25 ponto porcentual, o que ajustaria a atual Selic, de 6,50%, para 6,25% ao ano, ou de 0,50 ponto, que a arredondaria para 6% ao ano. Nos últimos dias ganhou força a aposta na segunda opção.

O BC já havia sinalizado que a Selic seria reduzida se a reforma previdenciária passasse na Câmara – e em primeiro turno ela já foi aprovada entre os deputados. Outros argumentos que sustentariam uma baixa dos juros também não faltam e estão bem alinhados: a economia patina, sem tração e sinais de reação, e a inflação permanece comportada, como apontou o IPCA-15, divulgado na terça-feira, com uma variação de 0,09% em julho.

A expectativa é que, nessa toada, a inflação represada pela variação do IPCA em 2019 fique abaixo de 4,25% ao ano, que o BC mira ao calibrar a taxa Selic. Portanto, do ponto de vista de perspectiva de inflação, o BC não teria por que manter a Selic no mesmo nível

A redução do juro serviria como fator que estimularia o investimento e o consumo, porque tornaria o custo do crédito mais baixo. Mas, nas condições atuais da economia, até mesmo quem defende o recuo da taxa considera essa eventual queda insuficiente para, sozinha, engatar a retomada de atividade, que dependeria de outras iniciativas, sobretudo a aprovação de reformas econômicas.

O que vem em agosto

A queda da Selic seria o primeiro sinal de animação para o mercado, que não disfarça a ansiedade também, desde já, com outros eventos previstos para a virada de agosto. O principal é a retomada da atividade parlamentar, com a volta ao trabalho de deputados, e a possível votação em segundo turno da reforma previdenciária pelo plenário da Câmara.

A expectativa é grande, a confiança também, mas a retomada de votação  poderá lançar dúvidas e percalços ainda na trajetória do projeto de reforma. Um deles é a inclusão ou não, uma questão ainda em aberto, da previdência de Estados e municípios no texto-base do deputado Samuel Moreira que já passou em primeiro turno na Câmara.

Será um período também em que o foco estará no recálculo da possível economia final a ser obtida com a reforma, para avaliar a potência fiscal embutida no projeto e saber se ela vai reequilibrar e colocar as contas públicas no caminho do ajuste fiscal que tire o País do risco de insolvência.

Enfim, se o ambiente de negócios esteve morno nos últimos dias de julho, o próximo mês chega acenando com um cenário de muita movimentação e agitação no mercado financeiro. É que também vão ganhar mais relevância os debates sobre as medidas propostas para a reforma tributária, outro tema de interesse dos agentes financeiros e econômicos, que se encontra em andamento na Câmara. A ideia que anima o mercado é que a reforma da Previdência ajuda as contas do governo e a tributária, a vida das empresas.

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