Como gerenciar a crise de abastecimento dentro de casa

Regina Pitoscia

25 Maio 2018 | 01h34

A situação é inusitada, tanto pela velocidade como pela amplitude de propagação, pelo chamado efeito-dominó, de paralisação de atividades que a greve dos caminhoneiros impôs ao País. Pego de surpresa, até pela forma aparentemente despretensiosa com que o movimento se iniciou, o brasileiro e o governo não souberam como reagir de bate-pronto à onda de aumento de alguns preços e da escassez não só de combustível, mas também de alimentos e uma série de outros produtos.

“O momento é de gerenciar a crise”, pontua o professor de Administração Estratégica e Superintendente Geral do Instituto Mauá de Tecnologia, Francisco Olivieri, referindo-se aos efeitos do movimento dos caminhoneiros no dia a dia do consumidor. Ainda que um acordo tenha sido firmado entre governo e parte das lideranças dos caminhoneiros, o cenário ainda se apresenta bem complicado e os rescaldos da paralisação devem ser percebidos nesses próximos dias, por isso, é preciso usar os combustíveis com consciência e prudência, evitando ou adiando deslocamentos que não forem necessários, recomenda o professor.

Transporte

Para ele, quem estiver com o tanque do veículo cheio deve poupar e considerar também que o transporte coletivo está sendo afetado com a redução da frota de ônibus em circulação. A palavra de ordem é economizar o máximo possível. É preciso pensar em estratégias e se organizar, com calma.

Quando a função permitir, e as tarefas puderem ser realizadas pela internet, não será preciso pensar duas vezes em propor ao chefe ou à empresa para trabalhar em casa, em sistema de home office. Poderá ser mais produtivo e barato para todos.

Mas os efeitos da greve não se restringem apenas às dificuldades no transporte de pessoas. Eles se estendem também a problemas como a falta e a elevação de preços de alimentos. Na central de abastecimento de São Paulo (Ceagesp), houve uma quebra considerável na oferta de produtos, especialmente dos que chegam de outros Estados, como a manga e o mamão que vêm, respectivamente, da Bahia e do Espírito Santo; o melão, do Rio Grande do Norte, e a batata, do Paraná. Não por acaso, essas mercadorias foram as que ficaram bem mais caras. O preço da batata chegou a subir 95% em uma semana, o da couve, 59%, e o da manga, 23%.

Troca de alimentos

O esticão dos preços sugere uma oportunidade de substituição, em nome da economia, desses itens no cardápio de cada dia. No caso específico de São Paulo, convém saber que a produção de verduras, de boa parte dos legumes e frutas cítricas segue normalizada. Preços do espinafre, almeirão, repolho, tomate caqui e abóbora chegaram a cair no mesmo período. Há como fugir dessa elevação de preço sazonal.

Técnicos da Ceagesp afirmam que as mercadorias que permitem estocagem como maçã, pera, abóbora, coco verde, alho, cebola, sofrem menos no curto prazo, mas, dependendo da duração da paralisação dos transportes, também poderão passar por desabastecimento, com consequente alta dos preços.

Olivieri pondera que vale a pena comprar apenas o que for necessário, para evitar gastar mais com esse aumento de preços, que ele acredita seja pontual. O mesmo critério de restrição deve ser observado em relação às compras em geral.

“Mesmo que saia para ir ao shopping para comprar algo que não afetado pelo abastecimento, como uma roupa ou um sapato, que já estão nos estoques das lojas, a pessoa tem de se deslocar e enfrentar os problemas com o transporte. Mais ainda, se vai à praça de alimentação, os preços devem estar mais altos e poderá gastar mais”.

Portanto, quanto menos sair de casa, menos o consumidor tende a ser atingido pela falta de abastecimento de combustível e alta de preços ou escassez de produtos. É hora de brincar de estátua.

Procon

Em uma situação como essa, o consumidor que é prejudicado fica de mãos atadas, explica Silvana Bezerra da Silva, da Comunicação Social do Procon-SP.  No caso dos que forem impedidos de viajar, por exemplo, de avião ou ônibus por falta de combustível, não têm como acionar a companhia aérea ou a empresa, porque os motivos são alheios à vontade e decisão delas. A mesma coisa para quem não recebeu ou recebeu com atraso as mercadorias encomendadas, ou correspondências pelos Correios.

A situação é diferente, no entanto, no caso de postos de combustíveis que estejam cobrando preços abusivos. Ela exemplifica o caso de um posto que de uma hora para outra para de atender ao consumidor sob argumento de falta de combustível e reabre momentos depois cobrando preços bem mais elevados. Aí é preciso denunciar, que o posto poderá ser autuado, após checagem dos cupons fiscais, notas de abastecimento para verificar se o estabelecimento recebeu o produto a preços mais elevados, ou não.

Assim, o papel do consumidor até que a situação seja normalizada, é recusar as práticas abusivas, adiando compras, substituindo produtos, economizando no preparo dos alimentos e procurando pelas melhores opções de compra. No mínimo, essas providências serão saudáveis para o bolso.