Como Selic estável e inflação nanica mexem com seu bolso

Regina Pitoscia

10 Dezembro 2018 | 00h25

(*) Com Tom Morooka

O Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), realiza nesta semana a última reunião do ano. O encontro começa amanhã, dia 11, e termina na quarta, quando será anunciada a decisão sobre o rumo dos juros. Se depender das apostas do mercado financeiro, a taxa básica de juros, a Selic, não sairá do lugar, mais uma vez, marcando passo no nível de 6,50% ao ano.

O BC calibra a taxa Selic nas reuniões do Copom, que ocorrem no intervalo médio de 45 dias, para ancorar as expectativas dos agentes econômicos e financeiros de que determinado nível de taxa básica conduzirá a inflação para determinado patamar.

No momento, para o BC a Selic de 6,50% ao ano estaria ajustada a uma inflação focada na meta de 4,50% para o ano que a autoridade monetária mira ao calibrar a taxa básica de juros.

Existem analistas e economistas de mercado que entendem que, se depender apenas do comportamento da inflação e da fraca atividade econômica, a taxa Selic poderia recuar pouco mais, ainda que já esteja no nível histórico de baixa.

Inflação negativa

De fato, a história econômica recente não registra um período que combina juros e inflação baixa, como agora.

Em novembro, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), índice do IBGE que calcula a inflação oficial, apontou para uma variação negativa de preços ou deflação de 0,21%.

A variação de preços mais baixa para o mês de novembro desde a criação do Plano Real, em julho de 1994, fez encolher a inflação acumulada no ano para 3,59% e nos últimos 12 meses, até novembro, para 4,05%.

Os consumidores costumam torcer o nariz, em reação de desconfiança, a índices de inflação oficiais baixos, calculados e divulgados pelo IBGE, que destoam dos preços salgados que impactam diretamente o bolso de cada um nas compras do dia a dia.

Pode-se admitir que o consumidor quase nunca deixa de ter razão, mas é preciso levar em conta também que, pela metodologia usada para o cálculo, o IPCA ou a inflação oficial reflete a variação média de preços de uma cesta de produtos consumidos por famílias com rendimento mensal de um a 40 salários mínimos em dez regiões metropolitanas e cinco municípios, além do Distrito Federal.

Fatores de pressão

O IPCA de novembro, que apontou deflação ou variação negativa, foi pressionado para baixo pela queda de preços no grupo dos transportes. Os combustíveis ficaram em média 2,42% mais baratos, com destaque para a gasolina, que recuou 3,07%, mês passado.

A queda de 4,04% na tarifa de energia elétrica também contribuiu para a deflação. De acordo com o IBGE, “em novembro passou a vigorar a bandeira amarela com a cobrança adicional de R$ 0,01 para cada kWh (quilowatt hora) consumido. Em outubro, a cobrança adicional era de R$ 0,05 por kWh consumido”.

Na direção contrária à queda de preços de combustíveis e de energia elétrica, pressionaram a inflação em novembro, com elevação média de 0,39%, os preços de alimentos e bebidas. São altas derivadas de choques de oferta, portanto consideradas sazonais, como as da cebola (+24,45%), tomate (+22,25%) e batata-inglesa (+14,69%). O destaque na coluna de baixa foi o leite longa vida, com recuo de 7,52%.

Pelos dados mais relevantes da inflação de novembro, pode-se dizer que foram favorecidos pela deflação do mês passado os consumidores de combustíveis e energia elétrica, que tiveram aumento de renda com o barateamento desses produtos. Na ponta contrária, viram sua renda e poder de compra diminuir os consumidores de produtos agrícolas cujos preços foram impactados pelo choque de oferta.

Na média, porém, pelos dados do IBGE todos conviveram com um regime de preços cuja variação resultou em uma deflação de 0,21%.

A expectativa de especialistas em acompanhamento de preços é que a inflação deste mês permaneça bem comportada. Um sinal considerado positivo é a deflação de 1,14% do IGP-DI (Índice Geral de Preços) em novembro. Como o índice calculado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) sofre forte influência de preços no atacado, a perspectiva, segundo analistas, é que pelo menos parte da baixa seja transferida para os preços no varejo, com reflexos positivos na trajetória do IPCA.

A volta à bandeira verde nas contas de luz, que ficam sem reajuste adicional a partir deste mês, também deve contribuir para manter a inflação baixa. Ainda assim, a possibilidade de nova deflação não está, por enquanto, no radar do mercado financeiro. Dados do último boletim Focus, divulgado pelo BC, indicam que analistas e economistas do mercado projetam uma inflação de 0,16% em dezembro.

Impacto nas aplicações

Quem foi favorecido também pela inflação negativa em novembro são os investidores em renda fixa, como caderneta e fundos de renda fixa e DI. Com a deflação, esses aplicadores tiveram seu rendimento nominal transformado integralmente em ganho real.

A provável manutenção da taxa Selic em 6,50% ao ano pelo Copom, na reunião desta semana, não altera o rendimento nominal dessas aplicações, mas a perspectiva de inflação em queda deve assegurar margem de rendimento real também neste mês.