Crise do coronavírus deve seguir abalando os mercados

Regina Pitoscia

23 de março de 2020 | 00h14

(*) Com Tom Morooka

O País vive um momento de incertezas crescentes, derivadas das dúvidas com o avanço do coronavírus, em todas as áreas – sanitária, econômica, de trabalho e emprego, principalmente, e tantas outras -, como poucas vezes no período recente de sua história.

A insegurança com o que vem por aí atinge em cheio também o investidor, em meio a turbulências que chacoalham o mercado financeiro e transformam a bolsa de valores em montanha russa. Movimentos bruscos para cima e para baixo, sem indicação de tendência, que têm assustado e machucado principalmente os investidores novatos que estrearam recentemente no mercado de ações, engrossando a coluna dos que, insatisfeitos com os juros baixos da renda fixa, migraram para a bolsa.

A Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, que acenava com um 2020  promissor após acumular uma valorização acima de 31% em 2019, desabou, arrastado pelo temor com os impactos econômicos do coronavírus no mundo e no País.

Existem até ensaios de reação e acomodação, diante de fatos considerados alentadores, como as ações conjuntas de governos e bancos centrais para dar suporte e blindar a atividade à econômica. A ação mais contundente partiu do governo dos EUA, com estímulos monetários e fiscais (corte extra dos juros e linhas de bilhões de dólares para o sistema financeiro americano), segundado, em medidas semelhantes, por países da Europa e também pelo brasileiro.

Até mesmo um swap (troca) de moedas entre o Federal Reserve (Fed, banco central americano) e o Banco Central brasileiro foi incluído no pacote de medidas do governo americano. O acordo poderá ingressar no País até US$ 60 bilhões, que poderiam ser usados pelo BC para abastecer bancos que precisarem de moeda estrangeira em seus negócios.

A reação favorável do mercado financeiro às medidas – com recuperação da bolsa de valores e recuo do dólar – foi apenas momentânea. “Os mercados não sabem para onde vão, porque a incerteza é muito grande”, analisa Rodrigo Franchini, sócio da Monte Bravo. Em cenário de insegurança, o investidor quer liquidez, dinheiro na mão, um dos fatores que, segundo ele, têm causado a queda rápida do mercado de ações.

Franchini considera positiva a atuação dos bancos centrais para tentar acalmar os mercados e conter o sentimento de pânico dos investidores. Não apenas com medidas como o corte dos juros, mas com a oferta de  liquidez, com a injeção de recursos ao sistema financeiro. “Os mercados poderiam estar piores sem as ações fiscais dos bancos centrais.”

Embora considere importante a atuação conjunta dos bancos centrais, ele não considera as ações suficientes devolver tranquilidade aos mercados globais. “Dar liquidez aos mercados é importante, mas não evita a paralisia da atividade”, avalia´. “A economia global só começará a dar sinais de reação quando passar a pandemia do coronavírus.”

Riscos

A derrocada do mercado de ações, que escancarou os riscos da renda variável, trouxe à lembrança de analistas e investidores um dos itens, deixados de lado por muitos em meio à euforia com a bolsa de valores,  que compõem as regras de  bom investimento, a segurança.

E maior ou menor grau, todos os investimentos, seja de renda variável ou renda fixa, embutem riscos, sobretudo em momentos de crise. O problema que o País enfrenta é sanitário, e não propriamente financeiro, mas que refletirá na economia e poderá atingir, de acordo com especialistas, o caixa especialmente de pequenos e médios bancos.

São instituições financeiras que tradicionalmente oferecem taxas de juro superiores às de bancos maiores para atrair investidores para aplicação em CDB (Certificado de Depósito Bancário). Em troca de recursos que emprestam ao banco lastreados na compra de um CDB, investidores recebem uma remuneração referenciada no juro DI, uma versão da Selic.

Essa taxa é tanto mais atraente, comparada com a dos bancos de atacado, quanto maior a necessidade de bancos menores de reforçar o caixa, por causa da redução de dinheiro no sistema e retração de investidores.

A diferença de taxas em relação aos demais bancos é tentadora, mas convencionou-se que situações de instabilidade e crise levam ao aumento do risco de crédito ou calote por instituições que emitiram o título. Quem aplica em um CDB desses correria o risco de não receber o dinheiro de volta, se o banco tiver insuficiência de caixa, no momento do resgate.

O sistema financeiro está sólido, os bancos em geral estão com boa saúde financeira, mas se houver problemas de liquidez o FGC (Fundo Garantidor de Crédito) oferece boa proteção e garantia de ressarcimento ao investidor. A cobertura dada pelo guarda-chuva do FGC não está limitada apenas a quem investe em CDB.

A garantia de ressarcimento, por CPF e banco, se estende também ao dinheiro depositado em conta corrente, aos recursos aplicados em caderneta de poupança, em LCI (Letra de Crédito Imobiliário), em LCA (Letra de Crédito Imobiliário). Papéis de dívida corporativa, como debêntures, não estão cobertos. Títulos públicos também estão fora de proteção, já que estão garantidos pelo Tesouro Nacional.

Em caso de quebra do banco que emitiu o papel, a cobertura do FGC ao aplicador será de até R$ 250 mil, por CPF e em cada banco, com um limite de até R$ 1 milhão, aplicado na hipótese de quebrarem diferentes bancos em um período de até 4 anos.

Dólar

As incertezas que deprimem a bolsa de valores continuam dando gás ao dólar, que consolidou o patamar de R$ 5, após atingir R$ 5,30 durante os negócios na semana que passou. A moeda americana pode continuar passando por ajuste para baixo, segundo Franchini, mas tenderia a encontrar  resistência em vir abaixo de R$ 5, “diante do cenário de baixo crescimento e dos juros baixos na renda fixa, que teriam deixado de atrair o investidor estrangeiro para aplicar em títulos de renda fixa no País.

O diretor de Câmbio da Ourominas, Mauriciano Cavalcante, avalia que, apesar da ação conjunta dos principais bancos centrais com pacotes de estímulos monetários e fiscais, o mercado financeiro não escapará de novas ondas de turbulência, no rastro do avanço do coronavírus.

“A expectativa é que a crise se acentue no período de março para abril”, avalia. Ainda assim, o dólar poderia recuar um pouco mais, como reação positiva às medidas de ampliação de liquidez adotadas pelos governos.

A Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, fechou sexta-feira com queda de 18,88% na semana, de 35,62% no mês e de 42% no ano, até o momento.

O dólar terminou os negócios de sexta-feira com baixa de 1,50%, cotado por R$ 5,03, e acumulou alta de 4,57% na semana, de 12,28% no mês e de 25,75% no ano, até agora.

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