Crise política e detalhes da reforma da Previdência no radar do mercado

Regina Pitoscia

18 de fevereiro de 2019 | 00h22

O anúncio dos primeiros pontos da proposta do governo para a reforma da Previdência Social, na última quinta-feira, animou os investidores. Mas indefinições sobre vários aspectos das mudanças e crise política podem trazer instabilidade e tensão aos mercados nesses próximos dias.

Os detalhes divulgados foram poucos – apenas a exigência de idade mínima de 65 anos para a aposentadoria dos homens e de 62 anos para as mulheres e fase de transição de 12 anos –, mas suficientes para aliviar a ansiedade do mercado financeiro até então pela demora no anúncio das medidas que, de acordo com o secretário de Previdência Social, Rogério Marinho, serão enviadas ao Congresso nesta quarta-feira, dia 20.

A Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, reagiu com valorização mais acentuada, enquanto o dólar comercial derrapou, interrompendo uma sequência de altas contínuas que levaram a cotação a encostar em R$ 3,80.

O mercado financeiro gostou do que foi anunciado sobre as mudanças na Previdência, afirma Vicente Matheus Zuffo, gestor da SRM, uma fintech que oferece produtos e serviços financeiros a empresas. “As idades mínimas e o tempo de transição para o novo regime previdenciário sinalizam que o presidente Bolsonaro acatou a ideia de reforma abrangente do Paulo Guedes”, avalia o especialista, referindo-se ao ministro da Economia que coordena e comanda a equipe no trabalho de formatar a proposta final.

O executivo da SRM considera positivo esse pontapé inicial, mas destaca que é apenas o primeiro passo de longo processo, que passa pela aprovação na Câmara e no Senado.

Um desafio que poderia ganhar maior dimensão para o presidente Bolsonaro, que administra, já de início, a primeira crise política de seu governo envolvendo o ministro da Secretaria Geral da Presidência, Gustavo Bebianno, cujo rescaldo poderia pôr em risco o andamento da reforma no Congresso.

São incertezas que se põem diante dos investidores daqui para a frente e podem provocar maior instabilidade nos mercados, que tendem a reagir pontualmente a cada fato novo do dia a dia.

A expectativa é que novos pontos da proposta sejam divulgados, antes mesmo do envio do texto ao Congresso. O assunto atrai o interesse, mas os investidores acompanharão também as articulações do governo com os parlamentares para ter uma ideia das reações ao projeto apresentado e do tamanho da base de apoio à sua aprovação.

A definição da data de envio do projeto ao Legislativo, prevista para o dia 20, aumentaria a chance de aprovação das medidas no tempo previsto pelos investidores, ainda no primeiro semestre, uma das torcidas do mercado.

Matheus Zuffo diz que o cenário interno será o foco dos investidores, mas lembra a possível influência de incertezas externas nos mercados locais. Um deles, aponta, são os sinais crescentes de desaceleração do crescimento global. Um fenômeno que estaria ocorrendo nas principais economias do mundo, incluindo os Estados Unidos. Os últimos dados negativos de venda no varejo reforçaram a preocupação dos aplicadores, porque podem vir a influenciar negativamente o mercado de ações, tanto nos EUA quanto aqui.

Dólar e ações

O dólar perdeu o gás que vinha sustentando altas graduais de preço. A reversão ocorreu após o anúncio das primeiras medidas de mudanças na Previdência, suavizando a ansiedade que vinha alimentado a alta. A valorização acumulada pela moeda americana desde o início do mês até quarta-feira, de 2,46%, foi reduzida para 1,10% no fechamento da semana passada.

“A reforma da Previdência começa a tomar corpo, com a divulgação das primeiras medidas, e a andar, com a definição da data de envio das propostas ao Congresso”, comenta Felipe Pellegrini, gerente de Tesouraria da Travelex Bank. “O sentimento de largada da reforma começa a animar o mercado financeiro, uma mudança no humor dos investidores que se reflete também na bolsa de valores.”

Para Pellegrini, com a reforma em movimento o dólar deve seguir na toada atual, mais inclinado à baixa, reagindo a fatos pontuais. A expectativa do executivo é que a moeda americana transite ao redor de R$ 3,70 ou até R$ 3,68.

Um dos fatores que podem contribuir para um dólar mais comportado, além da expectativa positiva dos investidores com as mudanças na aposentadoria, seria um cenário externo mais favorável, com a perspectiva de trégua ou o fim da tensão comercial entre EUA e China.

O presidente americano Donald Trump declarou na sexta-feira que o governo americano está bastante próximo de um acordo comercial com a China, uma perspectiva que pode trazer alívio e reduzir as incertezas dos investidores em relação a questões internacionais que provocam reflexos no mercado financeiro doméstico.

Nas bolsas, mesmo que o otimismo seja grande, o mercado de ações só definirá uma tendência mais firme de valorização quando as mudanças tiverem sido aprovadas por deputados e senadores.

Os profissionais de mercado, que contam com a participação de capital estrangeiro na compra para dar o impulso de que precisa a bolsa de valores, acreditam que o investidor de fora voltará à compra de ações no País apenas depois de aprovação da reforma previdenciária.