Crise política trouxe mais incertezas sobre mudanças na Previdência

Regina Pitoscia

25 de março de 2019 | 00h57

(*) Com Tom Morooka

Não será surpresa se a Bolsa de Valores de São Paulo der continuidade à trajetória de baixa, diante do aumento de incertezas em relação ao ritmo de andamento das propostas de reforma na Previdência Social na Câmara.

As dúvidas em torno de rápida aprovação das mudanças nas regras de aposentadoria, como consequência do agravamento da crise política, estimularam a venda de ações, movimento que levou a Bolsa de Valores de São Paulo a acumular uma desvalorização de 5,45% na última semana.

Para ter uma ideia do tamanho do tombo, o Ibovespa (Índice Bovespa, principal índice da bolsa de valores), iniciou a semana em 99.136,74 pontos (posição da sexta-feira anterior) e fechou a última sexta-feira em 93.735 pontos. A queda foi mais expressiva considerando-se que na semana passada a bolsa de valores rompeu o nível histórico de 100 mil pontos, movida pelo otimismo com a expectativa de uma ágil tramitação das propostas.

O dólar veio abaixo de R$ 3,80, com a cotação encostando em R$ 3,75, mas reverteu a trajetória e fechou a R$ 3,90.

Reviravolta

A semana que indicava ser positiva para o mercado financeiro, com bolsa em alta e dólar em queda, terminou com comportamento negativo desses mercados. Motivos para essa repentina reviravolta dos mercados, refletindo a mudança de humor dos investidores, não faltaram. Começou pelo plano de aposentadoria dos militares que aponta para uma economia de pouco mais de R$ 10 bilhões em dez anos, inferior à de R$ 92,3 bilhões projetada inicialmente pelo governo.

A perspectiva de uma redução de despesas menor com as mudanças na previdência dos militares esfriou os ânimos de quem aposta em uma reforma robusta da Previdência Social que está no Congresso. O sentimento de certa frustração foi agravado pelos desentendimentos entre o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e o ministro da Justiça, Sergio Moro, em torno da tramitação do projeto de Segurança Pública na Câmara e com a prisão do ex-presidente Michel Temer.

A sucessão de eventos, considerados negativos porque tenderiam a dificultar e atrapalhar as negociações políticas para a aprovação das mudanças nas regras de aposentadoria pelos deputados, inverteu a tendência dos mercados.

A preocupação se concentra, basicamente, em dois pontos: a duração do processo de tramitação, mais demorada, que demandaria mais tempo para a aprovação das propostas e o resultado final, em economia de recursos, que poderia não atender às necessidades de ajuste fiscal para conter a alta da dívida pública.

O diretor da Ourominas, Maurício Cavalcante, diz que não tem dúvidas de que a reforma previdenciária será aprovada, “mas até lá os mercados passarão por fortes oscilações, com muito sobe e desce das cotações”.

Nessas idas e vindas dos mercados, a expectativa do executivo da Ourominas é que o dólar transite por um intervalo entre R$ 3,90, cotação de fechamento de sexta-feira, e R$ 3,70. A bolsa de valores também tende a oscilar bastante e nesse movimento buscar uma pontuação entre 80 mil e 85 mil pontos, acredita. “É possível também que a bolsa se recupere das últimas fortes perdas, mas é mais possível que ela recue mais um pouco do que reverta a trajetória em busca novamente dos 100 mil pontos.”

O gerente de Tesouraria do Travelex Bank, Felipe Pellegrini, concorda que o agravamento da crise política esfriou o ânimo dos investidores, em relação à perspectiva de rápido andamento da reforma da Previdência no Congresso, mas pode ter havido aí uma reação intempestiva dos investidores e não descarta uma recuperação, pelo menos uma redução da volatilidade dos mercados. “Foi um movimento muito rápido e os mercados podem se acalmar, embora atentos para reagir a fatos pontuais.”

Renda Fixa

O rendimento nominal das aplicações em renda fixa continua baixo, já que está referenciado na taxa básica de juros, a Selic, confirmada mais uma vez em 6,50% ao ano pelo Banco Central, mas com risco bastante reduzido.

O rendimento menor é uma desvantagem que acaba sendo compensada por outras características da renda fixa, como segurança e liquidez, importantes em momentos de instabilidade.

A rentabilidade é mirrada porque a Selic está no nível histórico de baixa; a segurança está associada a ter e receber como rendimento o previsto no momento da aplicação; e a liquidez, a possibilidade de fazer saques em determinado tempo sem perda de rentabilidade.

As condições variam de acordo com cada tipo de aplicação, mas a renda fixa reúne essas características, importantes em momento de instabilidade, que atendem à necessidade da maioria dos aplicadores.

É um segmento de mercado que remunera pouco, mas oferece conforto em época de turbulências que varrem o mercado de renda variável, como o de ações e de dólar. Aplicações como caderneta e fundos de investimento, de renda fixa e DI, se não asseguram ganho real acima da inflação, protegem, ainda que às vezes parcialmente, o dinheiro, ao repor a correção monetária para o capital desvalorizado pela inflação.

No cenário de instabilidade, agravada por fatores políticos, que o mercado atravessa, parece recomendável que o investidor permaneça na renda fixa para fazer eventuais trocas de aplicação quando o horizonte ficar mais claro para a tomada de decisões.