Juros

E-Investidor: Esperado, novo corte da Selic deve acelerar troca da renda fixa por variável

De recorde em recorde, dólar ensaia chegar aos R$ 6

Regina Pitoscia

11 de maio de 2020 | 00h54

(*) Com Tom Morooka

A nova redução da taxa básica de juros, a Selic, de 3,75% para 3,00% ao ano, pelo Banco Central, deu mais fôlego à alta do dólar, que embicou acima de R$ 5,85 e por pouco não encostou em R$ 6.

Pelo andar da carruagem e pelos motivos que estão por trás dessa mobilidade, a perspectiva é que o dólar se mantenha nessa trajetória, acreditam especialistas. O chefe (ou head, no linguajar empresarial e do mercado financeiro) da área de Produtos da Integral Investimentos, Mauro Rached, explica que a desvalorização cambial (valorização do dólar e depreciação do real) começou quando a Selic iniciou o ciclo de baixa.

Foi lá atrás, em 2017, em ambiente de expectativa de melhora econômica, que o Banco Central (BC) começou a redução da Selic, de 14,25% ao ano, para o atual nível de 3,00%. Esse ciclo de corte, que estreitou a diferença entre os juros domésticos e os internacionais, levou investidores estrangeiros a desmontar gradativamente as operações de carry-trade.

Essas operações consistem em captar dólares no exterior, por juros mais baixos, e aplicar em títulos de renda fixa brasileiros, que proporcionam, como rendimento, a diferença entre as duas taxas de juro.

No nível a que chegou a Selic, essa operação deixou de ser interessante e interrompeu o fluxo de dólares, para essa finalidade, ao País. Não apenas isso. Levou a uma saída de recursos já ancorados na renda fixa, à procura de rentabilidade mais atraente e com menos risco non exterior.

A expectativa é que esse movimento continue, já que o BC sinalizou novo corte na Selic para o próximo encontro do Copom (Comitê de Política Monetária), dias 16 e 17 de junho. Se o BC replicar o corte de 0,75 ponto nessa reunião, como já se especula no mercado, a Selic poderia recuar para 2,25% ao ano, próximo de onde estava o juro americano de curto (taxa dos Fed funds) há um ano.

A perspectiva de nova redução da Selic tende a manter pressão sobre o dólar, atiçado também pela crise do coronavírus e instabilidade política. Aplicação especulativa, para tentar lucrar com esse possível movimento, no entanto é considerado contra indicado por especialistas.

O dólar fechou sexta-feira cotado por R$ 5,74, em baixa de 1,71% no dia, mas acumulou valorização de 5,5% na semana, que é também a do mês, até o momento.

Bolsa sem rumo

A Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, permanece com trajetória indefinida, em meio a pressões provocadas por incertezas externas e domésticas. Altas e baixas, tendo como clara resistência o pico de 80 mil pontos, ocorrem ao sabor de expectativas pontuais.

Na sexta-feira, a B3 fechou o pregão acima de 80 mil pontos, em 80.263 pontos, pela primeira vez no mês, com alta de 2,75% no dia. A valorização, contudo, não assegurou desempenho positivo na semana. Houve uma queda residual de 0,30% no período, também do mês até agora.

A redução da taxa Selic a nova mínima histórica, para 3% ao mês, tampouco deu ânimo aos investidores, na busca pela renda variável. O ciclo de redução da Selic, com consequente corte no ganho na renda fixa, não foi suficiente desta vez para encorajar a compra de ações.

Para especialistas, os investidores deram uma pausa para avaliação de cenário, coalhado de dúvidas em relação ao coronavírus, à crise política pela tensão entre os Poderes, à evolução das contas públicas com déficit agravado pelas medidas de combate à pandemia, à recuperação da economia no período pós-coronavírus, dentre outras incertezas.

Parece ficar cada vez mais claro também que o capital estrangeiro, cujas compras tradicionalmente comandam a recuperação da bolsa de valores, virou as costas às ações no mercado doméstico. De acordo com dados da B3, apenas em abril os investidores estrangeiros retiraram R$ 5,07 bilhões da bolsa. É um volume de saída menor que os R$ 24,21 bilhões sacados em março, durante o pânico que varreu os mercados, mas engorda o total retirado no ano para nada menos de R$ 69,4 bilhões.

A perspectiva de reabertura gradual das economias globais e de trégua comercial entre EUA e China pode melhorar o humor dos investidores em bolsa, mas as preocupações com a crise política, a perspectiva de forte recessão e a evolução negativa das contas públicas, internamente, parecem ganhar peso cada vez maior nas decisões do investidor.

Como são questões cujo desfecho demandam tempo, sua influência sobre o comportamento da bolsa tende a persistir por bom tempo, acreditam especialistas, que sugerem a compra de ações apenas como investimento para retorno de longo prazo, para mais de anos.

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