Depois da Copa, preocupação com as eleições e as contas do governo

Regina Pitoscia

06 Julho 2018 | 00h13

(*) Com Tom Morooka

O término da Copa do Mundo de Futebol daqui a pouco mais de uma semana, em 15 de julho, engatará de bate-pronto uma série sequencial de eventos domésticos, no campo político, na largada formal rumo às eleições presidenciais de outubro – o primeiro turno em 7 de outubro e o segundo, em 27 do mesmo mês. Indicação de um período de fortes emoções e torcida, assim como o vivido na temporada de jogos da copa.

A expectativa é que essa sucessão de eventos lancem um pouco de luz e esclareçam dúvidas sobre quem é quem, entre os potenciais candidatos, na corrida ao Palácio do Planalto. Principalmente para o mercado financeiro e investidores, segmento em que crescem as preocupações e as incertezas político-econômicas, a menos de três meses das eleições presidenciais.

Agenda política

O calendário eleitoral prevê que os partidos políticos escolham seus candidatos, em convenções partidárias, entre 20 de julho e 5 de agosto e registrem seus candidatos na Justiça eleitoral até 15 de agosto.

A definição formal das candidaturas, principalmente à Presidência da República, em um primeiro momento, e os dados de pesquisas eleitorais que apontem o favoritismo de cada um serão o principal foco do mercado financeiro.

Investidores não disfarçam sua torcida pela vitória de um candidato a presidente da República comprometido com o ajuste fiscal que leve ao reequilíbrio das contas públicas. A pedra de toque seriam as reformas econômicas, sobretudo a da Previdência Social.

Principal aposta na retomada do crescimento e ponto de sustentação do mercado financeiro ao governo de transição, a aprovação da reforma previdenciária não foi entregue pelo presidente Temer, em meio a uma série de trapalhadas políticas.

Dívida pública traz riscos

A reforma da Previdência é tema sensível para o mercado porque é vista como uma das principais vias para a geração de superávit primário (saldo positivo entre receitas e despesas do governo, sem incluir os juros da dívida pública). Sem superávit fiscal e com a dívida pública crescente, os credores do Tesouro ou os detentores dos títulos da dívida federal temem eventual risco de não receber de volta o dinheiro que financia o déficit público.

Essa possibilidade foi minimizada enquanto os juros que remuneram esses títulos permaneceram elevados e a situação fiscal estava sob aparente controle, o que não ocorre agora. A taxa nominal de juro, referenciada na Selic, está em 6,50% ao ano. Com o risco considerado crescente e a redução de atratividade dos títulos públicos, investidores ressabiados também com as incertezas da disputa eleitoral estariam migrando os recursos para o mercado de dólar. Ou, no caso de estrangeiros, levando o dinheiro de volta ao exterior.

Essa movimentação tem sido um dos principais fatores de pressão sobre o dólar, que não interrompe a trajetória de alta, apesar das intervenções reforçadas do Banco Central no mercado. Cotado por R$ 3,93 na venda, a moeda americana fechou ontem no nível mais alto desde março de 2016.

Pressão externa

Tem alimentado o fôlego de alta do dólar também a valorização da moeda americana nos mercados mundiais, puxada pela expectativa de elevação dos juros americanos e de acirramento da disputa comercial entre os Estados Unidos e a China.

A ata do Federal Reserve (Fed, banco central americano), divulgada ontem, aponta que o banco é favorável à continuidade da alta gradual dos juros nos EUA. Quanto mais sobem os juros lá, mais atração os títulos americanos exercem sobre os capitais investidos em outros mercados, incluído o brasileiro. Além de ficarem mais rentáveis, são títulos considerados seguros, com menos riscos que os de outros países.

A disputa entre EUA e China, que ganha cada vez mais nuances de guerra comercial, vive novo capítulo nesta sexta-feira, com o início de taxação de produtos chineses que chegam ao mercado americano. O agravamento da disputa comercial é visto como nocivo ao crescimento econômico global e fonte de novas tensões, porque pode gerar efeitos protecionistas, inclusive com distorções e manipulações no mercado de moedas.

Tudo indica que fatores de instabilidade, capazes de interferir nas cotações do dólar, nas taxas de juro e nos preços de ações, não faltarão daqui para a frente. Fontes de turbulência internas, ligadas às dúvidas e incertezas político-eleitorais, e externas, associadas à elevação dos juros americanos e ao possível agravamento da disputa comercial entre EUA e China. Um cenário que exige atenção e cuidados redobrados de quem investe recursos no mercado financeiro.

Cenário de volatilidade que chama a atenção para a necessidade de observância das três características de um investimento, antes da escolha de um, para não amargar perdas: rentabilidade, liquidez e segurança.

O que priorizar

Segundo especialistas, em um momento como este, a rentabilidade deve ficar em segundo plano, e ser dada preferência à liquidez e segurança. Especialmente à liquidez, à possibilidade de movimentar rapidamente os recursos, com rendimento, seja em busca de melhores opções com melhor desempenho, quando a oportunidade surgir, ou de segurança, se preciso.

Por definição, os mercados de renda variável – como o de ações e dólar -são mais instáveis e oferecem maior risco, que se agrava em momentos de instabilidade e incertezas. O segmento de renda fixa, com menos riscos, embora seja também menos rentável em regime de juros baixos, é considerado o porto seguro para um momento de transição em que a liquidez e a segurança são mais importantes que a rentabilidade.

A dica são opções com juros pós-fixados, como o Tesouro Selic, em aplicação pela internet no Tesouro Direto, que rende de acordo com a variação da taxa Selic. Ou os fundos DI, que igualmente rendem a Selic, porque têm a carteira formada por LFT (Letra Financeira do Tesouro), título público que também tem o rendimento atrelado à Selic.

Esses fundos são competitivos em relação à caderneta de poupança desde que a taxa de administração seja menor que 0,50% ao ano. Como esse custo é cobrado em geral apenas para aplicação de grandes volumes de recursos em que o pequeno aplicador não tem vez, a maioria dos investidores com valor miúdo está preferindo a caderneta. Afinal, tanto a poupança como o fundo DI tem, quando muito, apenas protegido o capital contra a inflação.

Dados do Banco Central divulgados ontem apontam que a caderneta teve uma captação líquida (volume de depósitos acima de saques) de R$ 7,350 bilhões no primeiro semestre, dos quais R$ 5,639 bilhões apenas em junho. Nos primeiros seis meses de 2017 a poupança registrou saldo negativo (resgates superiores aos depósitos) de R$ 12,290 bilhões.

A caderneta está rendendo 0,37% ao mês ou 4,55% ao ano, que corresponde a 70% da taxa Selic de 6,50% ao ano.