Dólar sobe 4,86% na semana. Para onde vão as cotações?

Regina Pitoscia

26 Agosto 2018 | 22h58

Embora tenha fechado com desvalorização de 0,45% na sexta-feira, cotado por R$ 4,10 na venda, o dólar encerrou a semana que passou com avanço acumulado de 4,86%, o mais elástico em uma semana desde novembro de 2016, portanto em quase dois anos.

A queda, que interrompeu uma sequência de  sete altas seguidas, não mudou, contudo, as expectativas do mercado. A direção do dólar, de acordo com analistas, continua embicada para o alto.

Nos últimos dias, a moeda americana consolidou o nível de R$ 4,00, encostou em R$ 4,10 e chegou a ir pouco além, em ambiente de forte instabilidade, alimentada por incertezas políticas, internamente, e insegurança com o cenário externo. Lá fora, o foco central de preocupação dirige-se aos novos lances da disputa comercial que acirram o confronto entre Estados Unidos e China no mundo dos negócios.

Convencido de que a trajetória é de alta, o mercado tem como dúvida saber até onde o dólar poderá chegar, já que, mesmo para especialistas, é impossível cotar não apenas a moeda americana, como todas as demais. Os investidores olham pelo retrovisor e buscam algumas referências. Uma delas é o que ocorreu em 2002, às vésperas das eleições que sacramentaram a primeira vitória presidencial de Lula.

O sentimento comum é que, se Lula estivesse no páreo eleitoral deste ano com as chances de vitória que as pesquisas apontam para o petista, o dólar não estaria rondando R$ 4, mas zanzando ao redor de R$ 7, que seria a cotação de pouco mais de R$ 4, de 2002, atualizada pela inflação acumulada desde aquela época até agora.

Outro fator visto como freio à aceleração mais forte das cotações está no  escudo formado pela montanha de reservas internacionais do País, cujos dólares, em última instância, poderiam atender a procura de quem precisa de moeda americana ou busca proteção contra a variação dela. No momento, os contratos de swap cambial ofertados pelo Banco Central – que equivalem à venda futura de dólar e servem de hedge (proteção) contra as oscilações de preço –  têm desempenhado esse papel.

A montanha de dólares empilhados nas reservas, desta vez, deixa o País menos exposto a uma crise externa do balanço de pagamentos. Em 2002, o volume de  moeda forte do País equivalia a menos de 10% do total de dólares, estimados em US$ 380 bilhões, estocados atualmente nas reservas internacionais administradas pelo BC.

As incertezas eleitorais, estimuladas a cada rodada de dados das pesquisas eleitorais, são, de longe, o principal fator que impulsiona o dólar para o alto. Provoca inquietação nos investidores a sinalização de que Geraldo Alckmin (PSDB), visto como o candidato presidencial mais afinado com as ideias econômicas do mercado financeiro, continua empacado nas preferências dos eleitores.

O desconforto aumenta porque as mesmas pesquisas colocam na ponta da corrida presidencial os candidatos considerados de perfil populista, defensores de ideias que destoam das propostas do mercado, como as reformas econômicas encabeçadas pela revisão nas regras de aposentadoria. O temor é que o candidato vitorioso na eleições seja alguém descompromissado com o ajuste das contas públicas, para conter o crescimento explosivo da dívida pública.

Em meio a esse clima eleitoral de crescente tensão, a expectativa é que, mantida a vantagem dos candidatos presidenciais considerados menos amigáveis ao mercado, o dólar continue em marcha batida de alta. Até porque o Banco Central tem se limitado até agora a renovar os contratos de swap cambial em vencimento, sem ofertar lotes adicionais de contratos, para tentar conter a escalada das cotações. 

A atuação limitada do BC leva o mercado a subir gradualmente as cotações, em uma espécie de jogo de gato e rato, para saber até onde pode ir com os preços sem atrair intervenções mais pesadas do BC.

O mercado redobra a cautela em meio a especulações para tentar entender a atuação vista como discreta da autoridade monetária no câmbio. Uma delas é que o BC faz apenas o feijão com arroz,  renovando os lotes de swap cambial vencidos, para não passar a impressão de que está interferindo na tendência ou tentando definir um teto de preço. 

Outra explicação seria que o BC já ofertou contratos de swap que poderiam aumentar a dívida em dólar além do desejável. Uma das vantagens do uso de swap para atender a demanda do mercado por proteção e amortecer possível  alta das cotações à vista é que a operação não leva à perda de dólares das reservas internacionais. A menos que, no vencimento, o investidor opte pelo recebimento do valor em dólar papel-moeda em vez de reais, acrescido da variação cambial do período.

A disparada do dólar em cenário de turbulência política já leva parcela crescente de analistas a apostar em fundos cambiais como opção de investimento pelo menos no período até as eleições ou, então, até a definição das propostas econômicas de governo do presidente eleito supostamente pouco amigável às ideias do mercado financeiro.

Com rentabilidade atrelada à variação do dólar, em que o investidor ganha quando as cotações da moeda americana sobem, os fundos cambiais são considerados de altíssimo risco, pelo aspecto especulativo embutido nessa modalidade de aplicação.

No mês, até o momento, do dólar acumula valorização de 9,30%, que sobe para 23,84% no ano. É de longe a aplicação mais rentável de 2018.