É hora de comprar dólar e ouro?

Regina Pitoscia

20 Agosto 2018 | 00h53

A dupla verde-amarela é considerada refúgio em momentos de indefinição e incerteza. O aumento da demanda, diante do agravamento do cenário de instabilidade tanto lá fora como no mercado interno, reflete-se na pressão sobre os preços, que estão em alta.

O segmento doméstico de ouro, bastante movimentado no período de hiperinflação das décadas de 1980 e 1990, ficou esvaziado com a estabilização da economia e a chegada do Plano Real, em 1994.

Embora ainda negociado na B3, bolsa que resultou da fusão da BM&F com a Bovespa, o ouro movimenta atualmente pequeno volume de negócios no segmento formal da bolsa.

O mercado de dólar também passou por mudanças de 2000 para cá, mas o aspecto mais relevante na área cambial está no fortalecimento das contas externas do País, o que retirou parte do combustível de alta desses mercados.

Eventos que levavam a crises no balanço de pagamentos (desequilíbrio das contas externas) no passado encontram agora resistência na blindagem do setor externo do País: reservas internacionais ao redor de US$ 380 bilhões, superávit comercial que passa de US$ 65 bilhões no ano e déficit residual em conta corrente financiado com capitais que chegam como investimento estrangeiro direto ao País.

Ainda assim, o comportamento de dólar e ouro continua como termômetro das expectativas dos investidores e, como tal, indicando um horizonte de instabilidade pela frente.

Pressão de alta

Seriam basicamente duas fontes de pressão sobre esses mercados. Uma externa, ligada ao agravamento da crise econômica na Turquia, que derrubou a moeda local, a lira turca, e empurrou para baixo as moedas dos demais países considerados emergentes, incluído o real.

No front interno, a pressão está associada às dúvidas com as eleições que escolherão o novo presidente da República em outubro e a política econômica que será adotada pelo governo que começa em 1º de janeiro.

O diretor da Ourominas DTVM (Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários), Mauriciano Cavalcante, avalia que as medidas já adotadas pelo governo para tentar debelar a crise podem levar a uma acomodação e sustentação da moeda local, sem grandes efeitos negativos sobre a economia de outros países.

Ele acredita que o principal fator de instabilidade dos mercados daqui para a frente serão as incertezas políticas, com os investidores atentos a dados de pesquisas eleitorais que apontem o favoritismo de um ou outro candidato à disputa presidencial.

O mercado financeiro não disfarça que está alinhado com o candidato Geraldo Alckmin (PSDB) e reagiria mal a dados que apontem favoritismo a outro candidato na linha mais populista. A resposta seria a valorização do dólar e queda da bolsa de valores. Uma sinalização de vantagem do candidato tucano, por sua vez, daria alento às ações e deprimiria o dólar.

O comportamento desses mercados dependerá, em grande medida, das expectativas eleitorais, mas pelas indefinições de momento o viés estaria mais para a alta do que para a baixa das cotações.

Ainda assim, a aplicação em dólar é vista como de alto risco pelo diretor da Ourominas, que diz preferir uma aplicação que tenha viés de maior segurança, como o ouro. Para Cavalcante, o ouro é uma aplicação mais segura e oferece liquidez imediata, a possibilidade de venda rápida para quem precisa de dinheiro.

Ele sugere a compra de ouro como diversificação de investimento, com a destinação de até 30% dos recursos, principalmente nesta etapa de turbulência política. Indica também a compra de dólar para quem vai viajar ao exterior, sem deixar a procura pela moeda americana para a última hora, ficando refém da cotação vigente na hora da operação.

Como aplicar

O diretor da Ourominas explica que é possível investir em ouro de duas formas. Por meio de contrato padrão de 250 gramas, na BM&F, ou em barrinha a partir de 1 grama, no mercado de balcão, em corretoras e distribuidoras de títulos e valores mobiliários que atuam no mercado de balcão de ouro.

O preço é a cotação do dia, com spread (diferença) para o preço de compra e o de venda, embora menor que o do dólar. O preço é calculado dividindo-se a cotação do ouro em Nova York pela onça-troy, o equivalente a 31,104 gramas. Pela cotação de US$ 1.175 na quinta-feira, o preço do grama ficaria em torno de U$ 37,80 ou R$ 147,40, convertido em reais pela cotação de fechamento de R$ 3,90 do dólar comercial.

Quem compra ouro pode levar a barrinha para casa ou deixar custodiado (guardado) na própria corretora ou distribuidora que vendeu o metal.

A valorização acumulada pelo ouro doméstico no ano até agora está em torno de 5%, mas chegou a 13% em momentos de pico de alta. Um recuo que, segundo Cavalcanti, é indicação que o ouro ficou barato e pode estar com preço atraente para compra como investimento.