Renda fixa oferece liquidez e rendimento melhor do que a poupança

Regina Pitoscia

08 de novembro de 2019 | 01h27

Ainda que com juros rasteiros, o dinheiro a ser usado para o pagamento de compromissos, aquele que serve para complementar o orçamento, ou ainda o que precisa ficar reservado para emergências, tem de ir para a renda fixa. Não se devem expor ao risco da renda variável, como as ações, os recursos com destino certo. Esse risco, no caso, é o de ter de usá-los em um momento de queda da bolsa, em que o resgate terá de ser feito com prejuízo.

Combinar a liquidez com rendimento mais atraente do que a caderneta se tornou um desafio ainda maior, porém decisivo, nas aplicações de renda fixa nessa temporada de juros em nível de 5% ao ano. Isso porque para encontrar uma rentabilidade um pouco mais recheada, capaz de proteger o capital da inflação e uma parcela de juro real, o investidor precisa aceitar prazos mais longos, de um, dois, três anos ou mais. Quanto maior o prazo, melhor tende a ser a remuneração nos títulos de renda fixa.

Mas como administrar, então, o dinheiro no curto prazo? A saída mais popular costuma ser a caderneta de poupança, que permite resgate a cada mês, pagando uma rentabilidade equivalente a 70% da taxa Selic, o que atualmente corresponde a 3,5% ao ano ou 0,29% ao mês. E com a perspectiva de encolher mais, se o juro básico da economia for para 4,5% ao ano em dezembro.

O que pouca gente sabe é que o mercado oferece papeis de renda fixa, mais especificamente CDB e Títulos do Tesouro Selic, com possibilidade de resgate diário. Trata-se de uma liquidez mais alta do que a poupança, que permite retiradas mensais sem perda do rendimento, na data de aniversário da conta.

Com os títulos de liquidez diária, o rendimento será pago proporcionalmente até o dia do resgate, já na caderneta, o saque feito fora do dia certo leva à perda de toda a remuneração, adverte o sócio e chefe de Renda Fixa da XP Investimentos, Bruno Saads.

Em relação à rentabilidade, os títulos também são competitivos, esclarece o executivo. Mesmo com a tributação de imposto de renda, que varia de 22,5% a 15%, dependendo do prazo da aplicação (quanto maior o prazo menor o imposto), CDB e Tesouro Selic diários podem render mais que a poupança. Segundo seus cálculos, em bancos médios, é possível conseguir um retorno de 100% do CDI (em torno de 4,8% ao ano) ou até mais nesses títulos.

Considerando uma tributação de IR em uma aplicação de até 180 dias, pela alíquota mais alta de 22,5%, o rendimento seria de 77% do CDI, ou de 3,69% ao ano. Na caderneta, o rendimento que equivale 70% da Selic, o retorno seria de 3,50% ao ano. Ou seja, esses papeis diários conseguem proporcionar uma liquidez e uma remuneração mais interessantes do que as da caderneta.

Vale destacar, no entanto, que nas aplicações com prazo inferior a 30 dias, incide a cobrança também do IOF, quando a vantagem da rentabilidade nesses papeis pode evaporar. O IOF é de 96% nas aplicações de apenas um dia e vai regredindo até chegar em 3% para as de 29 dias.

Outro ponto: nos grandes bancos, a situação pode mudar e o atrativo dos papeis de liquidez diária desaparecer, porque o seu rendimento tende a cair para algo entre 75% e 85% do CDI.

Na opinião de Bruno, a nova realidade de mercado impõe ao investidor a necessidade de avaliar com precisão a questão da liquidez nos investimentos. “Tradicionalmente o brasileiro acaba colocando em aplicações de curto prazo um volume muito maior daquele que precisa realmente de liquidez”.

Mais do que nunca, a calibragem tem de ser ajustada entre o dinheiro que pode ficar engessado por um período maior, em busca de rendimento mais alto, daquele que precisa estar mais à mão para pagamentos regulares.

“Orientamos os clientes a manter somente os recursos que serão necessários num prazo de um, dois, ou três meses para os papeis com liquidez diária”, explica o especialista. O objetivo é deixar  esse dinheiro livre para retirada no próprio dia ou no dia seguinte ao da solicitação, de modo a permitir o pagamento de compromissos em seu vencimento, sem acréscimos de multa e juros que podem acabar anulando parte do rendimento obtido na aplicação.

Mas deixar o capital que não necessita de liquidez em aplicações de curto prazo é perder dinheiro. “Se a aplicação pode ser feita por seis meses, por exemplo, há opções mais rentáveis e nós mostramos isso ao cliente. Com os juros baixos, essa liquidez está custando mais caro hoje”, afirma Saads.

Dito ainda de outra forma, o dinheiro que pode ser empregado por prazos dilatados, mas fica aplicado por espaço curto de tempo, deixa de ganhar uma remuneração mais encorpada. Critérios que precisam ser reforçados e devem ser considerados daqui para frente no gerenciamento mais eficiente do patrimônio.

A cultura de resistência em amarrar o dinheiro a títulos de muitos anos pode estar ligada ao receio de precisar usá-lo de uma hora para outra. Para deixar o investidor mais confortável na hora de embarcar em aplicações de prazos mais longos, a XP criou um mercado secundário de negociação para os papeis de renda fixa. Nele, o aplicador que precisar dos recursos no meio do caminho poderá negociar o título, mediante um deságio no rendimento. “No resgate antecipado, o rendimento não será o contratado, haverá um desconto para que o negócio seja atraente a quem recomprar o papel”.

No caso, o interessante é que ao saber que poderá ter acesso ao dinheiro no momento em que precisar, o aplicador terá mais tranquilidade de fechar uma operação de prazo longo. Nesse mercado secundário poderão ser negociados não apenas CDB, mas outros ativos, como Letras de Câmbio, Letras do Crédito Imobiliário, Debêntures, etc. Inclusive papeis que estão custodiados em outros bancos.

 

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