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E-Investidor: O passo a passo para montar uma reserva de emergência

Em agosto, tensão e instabilidade no radar do mercado

Regina Pitoscia

05 de agosto de 2019 | 00h08

(*) Com Tom Morooka

Prepare-se para um aumento de estresse, portanto de instabilidade e turbulência, no mercado financeiro, pelo menos no curto prazo. A avaliação é de analistas e especialistas, para quem agosto dava sinais de que começaria com cenário mais positivo, mas houve repentina reversão de expectativas, sobretudo em relação ao cenário externo.

A redução das taxas de juros em dose dupla, aqui e nos Estados Unidos, no último dia de julho apontou para um início de mês alentador para o mercado. O otimismo, ainda que momentâneo, foi alimentado por decisões consideradas positivas na política monetária: o Banco Central reduziu a taxa básica de juros, a Selic, para 6% ao ano, novo mínimo histórico, e o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) cortou 0,25 porcentual o juro básico, para um intervalo entre 2,00% e 2,25% ao ano.

Juros mais baixos costumam animar os investidores na renda variável, porque é visto como um fator de estímulo ao crescimento econômico, portanto, com reflexos positivos sobre as empresas e seus papeis negociados em bolsa de valores.

A reação otimista dos mercados com o cenário de juros em queda, contudo, não durou mais de um dia. Mais precisamente até as novas declarações do presidente americano, Donald Trump, que jogaram mais lenha na fogueira da disputa comercial travada entre China e EUA.

O temor é que a ampliação das sanções tarifárias sobre exportações chinesas ao EUA, anunciadas por Trump no dia seguinte à redução dos juros pelo Fed, acentuem o ritmo de desaceleração econômica global.

Os desdobramentos do duelo comercial entre EUA e China, e sobretudo seus efeitos sobre a economia internacional, divide a atenção dos investidores com fatos domésticos, principalmente na área política, com o fim do recesso do Congresso e do Judiciário, em meio a um sentimento de crise política derivada principalmente de declarações e decisões consideradas polêmicas do presidente Bolsonaro.

Uma série de questões que já provocaram bastante ruído durante o recesso dos dois Poderes esperam agora as decisões de parlamentares e de juízes em ambiente de expectativas com a retomada dos debates, na Câmara, para a votação e aprovação da reforma da Previdência Social em segundo turno, para que o texto seja enviado para a apreciação do Senado.

A confiança dos investidores na aprovação da proposta de mudanças na   aposentadoria, considerada o carro-chefe das medidas para o reequilíbrio e ajuste das contas públicas, se mantém, mas o sentimento é de cautela pelo temor de que eventual acirramento da instabilidade política venha a atrapalhar o restante da trajetória da reforma previdenciária no Congresso.

Um quase consenso é que os negócios no mercado financeiro no mês que começa serão tocados em um ambiente de maior tensão, com muito sobe e desce das cotações, principalmente de ações e dólar.

O possível aumento de volatilidade vai exigir maior cautela dos investidores, especialmente dos que migraram da renda fixa para a variável, à procura de rentabilidade mais atraente que a proporcionada pelos juros. No entanto, o investidor que resistir às turbulências, suportando o vaivém sem vender intempestivamente as ações com prejuízo, tem grandes chances de assistir à recuperação do mercado mais à frente e embolsar ganhos.

Um segmento em que não se esperam surpresas, pelo menos no curto prazo, é o de renda fixa, em que o balizamento para o cálculo da remuneração é a nova taxa Selic de 6% ao ano.

Tendência da bolsa

No mês passado, deprimido pela falta de estímulos de notícias vindas de Brasília por causa do período de recesso parlamentar, a Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, acumulou valorização de apenas 0,84%. Ainda assim, suficiente para assegurar às ações o segundo lugar no ranking das aplicações mais rentáveis de julho, atrás apenas do ouro que registrou valorização de 2,59%.

Eventuais percalços que poderiam atrapalhar a trajetória da reforma, combinados com uma piora do cenário internacional, não devem tirar a atratividade da bolsa de valores como opção de diversificação de investimento em busca de retornos maiores.

Senão por outros motivos, porque com a Selic em 6% ao ano e a perspectivas de nova redução o juro como fator remunerador da renda fixa ficou muito baixo, quase sumiu, pontuam especialistas.

A ideia é que em algum momento, após a possível instabilidade prevista para o curto prazo, o mercado de ações tenderia a deslanchar, animado com a chegada de mais recursos, apostam especialistas.

Indicação de ações de empresas e setores mais interessantes para a travessia para a bolsa, de acordo com os analistas, vai depender de um cenário mais claro para a economia. Ações de corporações como Petrobrás, em estágio de recuperação com dados vistosos em balanço, e Vale (associada à alta do preço de minério para quem aposta em crescimento mais vigoroso da China) são sempre lembradas.

Outras indicações são as ações de empresas que poderiam ser bem-sucedidas conjunturalmente em cenário de recuperação cíclica do consumo doméstico, como as do setor de varejo, bancos, construção civil e concessionárias de serviços públicos, dentre outras.

Dólar tem gás?

O dólar acumula valorização de 1,90% em apenas dois dias de agosto, uma indicação de que a moeda americana iniciou o novo mês com redobrado fôlego.  A dúvida é saber até quando esse ímpeto se sustenta.

Para o diretor de Câmbio da Ourominas, Mauriciano Cavalcante, a alta recente do dólar reflete uma reação momentânea à ampliação da diferença de juros, americanos e domésticos. Ele lembra que o Fed (Federal Reserve, o banco central americano) cortou 0,25 ponto porcentual o juro básico americano no mesmo dia que o Banco Central, por decisão do Copom, promoveu redução maior, de 0,50 ponto, na Selic.

“O aumento da diferença entre as duas taxas, em ambiente de juro baixo e até negativo em vários mercados globais, estimula a migração de recursos para os mercados que acenam com mais rentabilidade”, pontua Cavalcante. A avaliação é que o título de renda fixa americano, com a redução do juro menor que o decidido pelo Copom, ganhou mais competitividade que os títulos de renda fixa brasileiros. E isso estimula a migração de recursos daqui para lá.

Está por trás da valorização do dólar também o receio de que essas escaramuças comerciais entre EUA e China fragilizem ainda mais o já débil processo de recuperação da economia global, com reflexos negativos também no País.

Apesar dessas pressões, o diretor de Câmbio da Ourominas não vê gás duradouro para o avanço do dólar. Sua expectativa é que as cotações cedam ligeiramente e passem a oscilar em um intervalo entre R$ 3,75 e R$ 3,85. O dólar foi cotado na sexta-feira por R$ 3,89.

 

 

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