Em cenários mais otimistas o que fazer com o dinheiro

Regina Pitoscia

27 Junho 2018 | 00h28

Se a maioria dos analistas do mercado financeiro está preocupada com as incertezas que se lançam sobre o futuro político-econômico aqui no País, ou com o agravamento dos conflitos comerciais entre as grandes economias lá fora, existem opiniões divergentes e mais otimistas em relação a ambos os cenários.

Como pano de fundo, os mercados vivem um momento de maior volatilidade, mas nada que classifique como uma crise mais séria que possa sugerir problemas com os países nem quebradeira de bancos, analisa Ricardo Braga, diretor de investimentos do AndBank, banco europeu especializado em gestão de grandes fortunas. Ao contrário, pondera, os países estão crescendo na Europa, os Estados Unidos lideram esse movimento e até a Argentina, que derrapou e precisou de socorro preventivo do FMI, parece ter conseguido algum fôlego.

A principal fonte de instabilidade que tem colocado em xeque políticas econômicas e alimentado instabilidade em mercados de alguns países, sobretudo dos emergentes com fragilidade fiscal, como o Brasil, é a perspectiva de elevação dos juros americanos.

Se a alta dos juros torna o rendimento dos papeis do Tesouro americano mais interessante, é natural a migração dos investidores para esses papeis, de resto também mais seguros.  O efeito colateral dessa saída de capitais é a pressão no câmbio, com a alta do dólar e consequente desvalorização da moeda nacional, o real.

Braga afirma que é natural que depois de um período longo com juros muito baixos nos mercados mundiais, até como estratégia de saída da crise global de dez anos atrás, um processo de ajuste da política monetária nos EUA provoque desconforto nos mercados de outros países. Ainda assim, o processo de ajuste gradual conduzido pelo Fed (banco central americano), acredita ele, levará a uma situação de normalidade sem grandes traumas.

O aumento de interesse pelos títulos americanos leva a uma valorização desses papeis e consequente queda da rentabilidade, o que pode achatar o ganho dos investidores, com reflexos no nível de consumo que pode servir de freio ao avanço da inflação.

Segundo o executivo, é preciso identificar onde estão ocorrendo os abalos derivados do processo de ajustamento de política monetária nos EUA para driblar riscos e identificar oportunidades de negócios e lucro que costumam surgir nesses momentos.

Mesmo com os conflitos comerciais entre China e Estados Unidos, com restrições e sobretaxas impostas de parte a parte, o diretor considera o presidente Trump um bom negociador, embora sua estratégia cause estranheza e contrariedades por seguir os ditames de uma política não convencional. As instituições americanas funcionam bem, e ele não aposta em posições que possam levar a um isolamento e a um colapso econômico. No fim das contas, os EUA devem beneficiar-se até das contradições dessa política que destoa da usualmente adotada pelos países considerados aliados.

Nosso quintal

Braga tem visão positiva também em relação ao mercado financeiro doméstico, que iniciou o ano otimista, esperando uma retomada mais vigorosa do crescimento. Mas os cenários foram revistos, principalmente a partir da expectativa de elevação dos juros americanos, seguido depois pela greve dos caminhoneiros, crise que deixou de vez pelo caminho a perspectiva de aprovação das reformas econômicas para o reequilíbrio do déficit fiscal.

O aumento de incertezas levou o Banco Central a interromper o ciclo de corte dos juros e a intervir no câmbio, para acalmar os investidores, principalmente estrangeiros.

O conjunto dos fatores de instabilidade, externa e doméstica, acaba deteriorando as expectativas e alimentando turbulências no mercado financeiro. Os investidores ressabiados ficam assustados, o gestor se precipita e erra a mão, realimentando o ciclo de medo. Movimentos que resultam em distorções nos preços de ativos.

O diretor admite que o cenário econômico não chega a ser animador, com dados que apontam taxa altíssima de desemprego, que castiga mais de 13 milhões de pessoas, e uma retomada econômica que mostra fraqueza e parece andar cada vez mais em marcha lenta. O sentimento é que, apesar da inflação e juros baixos, a atividade econômica continua travada. Nesse momento é preciso olhar com calma, com tranquilidade, sugere o executivo.

Para quem mira a bolsa de valores com visão de longo prazo, é preciso focar em ações com potencial de valorização e estão com preços atrativos. E aí Braga aponta para a atratividade dos papeis do sistema financeiro. Em sua avaliação, os papeis dos quatro maiores bancos estão com preços interessantes. Sua sugestão se estende também para algumas ações de prestadoras de serviços, saneamento e energia, e as de varejo.

Nem mesmo as indefinições com as eleições devem desviar o País de medidas mais urgentes e necessárias como a reforma da previdência, ajuste da política fiscal e do processo de simplificação dos impostos. “Estamos numa democracia, é difícil imaginar que um candidato seja eleito sem estar alinhado com o que quer a sociedade”.

É preciso considerar os eventos de curto prazo que podem trazer volatilidade, mas, no médio prazo e considerando a inflação, as NTN-B (título público que rende juro real mais correção monetária pelo IPCA) acenam com rentabilidade atraente. Um título que protege o investidor se houver um repique ou retomada da inflação, por causa da correção monetária, mais juro entre 5% e 6% ao ano. Quem gosta de rendimento com juro pós-fixado, vai para a LFT (Letra Financeira do Tesouro).

O dólar está com preço elevado ou, dito de outra forma, o real está com uma desvalorização, segundo ele, pouco excessiva. Quem acreditar em turbulências no processo de eleição pode assumir posições em dólar como proteção contra eventual desvalorização cambial mais acentuada. Mas Braga considera remota a possibilidade de ruptura institucional, como resultado de uma crise mais aguda, até por considerar a natureza mais pacata do País.