Entenda o vai e vem dos mercados em maio

Regina Pitoscia

31 de maio de 2019 | 00h16

(*) Com Tom Morooka

Em meio às incertezas em que o acirramento da tensão entre o governo e parlamentares e os sinais de desarticulação política elevaram as dúvidas sobre o andamento da reforma da Previdência no Congresso, o mercado financeiro chegou ao fim de maio mais confiante e otimista.

Os dois segmentos de mercado que mais bem expressam em seu comportamento o humor dos investidores encerraram o mês em terreno positivo, em aparente contradição com o que lógica sugere para um mês marcado por fortes turbulências.

Faltando apenas um dia, esta sexta-feira, para o fechamento do mês, bolsa de valores e dólar chegam ao fim de maio praticamente emparelhados, com ligeira vantagem para a moeda americana. O dólar comercial acumula valorização de 1,48% e a Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, alta de 1,15%, em maio, até agora.

Esses números, além de sugerir uma trajetória contraditória, não expressam com fidelidade nem dão compreensão, à primeira vista, do que foi a movimentação desses mercados ao longo do mês que acaba hoje. A menos que se lance o olhar sobre eles traçando uma linha divisória entre a primeira e a segunda quinzena.

Nos primeiros 15 dias, marcados por fortes turbulências políticas e dúvidas em relação ao desfecho bem-sucedido da reforma previdenciária, a B3 perdeu tração, engatou marcha a ré e o Ibovespa (Índice Bovespa) veio abaixo do nível de 90 mil pontos – fechou o pregão do dia 17, o da queda mais acentuada, em 89.992 pontos.

Nesse cenário de instabilidade e insegurança, o dólar comercial ganhou fôlego. Embicou acima de R$ 4 e no mesmo dia que a B3 furou para baixo a linha de 90 mil pontos fechou valendo R$ 4,10, um ímpeto de alta que exigiu a intervenção do Banco Central (BC) com oferta de dólares à vista, por meio de três leilões de linha ao mercado.

A ação do BC e os sinais de que as negociações para dar andamento às propostas de mudanças na aposentadoria avançavam no Congresso reverteram as expectativas e devolveram o clima de otimismo a partir daí. Não só. Investidores parecem convictos de que os entendimentos políticos, fortalecidos com o pacto entre os três poderes, farão a reforma passar na Câmara ainda no primeiro semestre.

Se maio termina em um ambiente mais positivo para o mercado financeiro – a bolsa de valores colecionou quatro altas seguidas nos últimos pregões e o dólar três baixas consecutivas, cotado novamente abaixo de R$ 4 -, o que vem pela frente está povoado por outras dúvidas.

Os investidores estão com renovada expectativa positiva em relação ao rumo das reformas – além da previdenciária, com o avanço da reforma tributária -, mas não escondem preocupação com os sinais de fraqueza e incapacidade de reação da economia.

Dados como o que apontam o recuo de 0,2% do PIB (Produto Interno Bruto, sigla que expressa a produção de bens e serviços no País) no primeiro trimestre deste ano, na comparação com o último de 2018, confirmam o cenário negativo traçado por número cada vez maior de analistas.

Com a reforma previdenciária aparentemente bem encaminhada para aprovação pelo Congresso, mercado financeiro e investidores passam a ver a adoção de medidas para reativar a economia, com geração de empregos, um dos grandes desafios do governo. Senão por outros motivos porque, embora importante, a reforma da Previdência apenas não seria suficiente para dar impulso ao crescimento mais robusto da atividade.

Os mercados, portanto, estarão atentos e reagirão às possíveis medidas que a equipe econômica poderá adotar – a liberação de saque do FGTS, incluindo o de contas ativas, poderia ser uma delas, como afirmou o ministro Paulo Guedes – para tentar estimular a economia, sem deixar de dispensar atenção também ao cenário externo, que tem dividido, com o doméstico, as atenções dos investidores.

O principal foco de atenção, no quadro externo, continua sendo o embate comercial entre Estados Unidos e China, uma disputa que, dependendo de seus desdobramentos, tem o potencial de afetar negativamente a economia dos demais países, sobretudo dos emergentes, como o Brasil.

No mercado de renda fixa, ganhou força entre analistas a expectativa de que a fraqueza da economia poderia levar o BC a cortar adicionalmente a taxa básica de juros (Selic), de 6,50% atualmente, mas essa ideia foi afastada pela autoridade monetária.

Com isso, a atenção se volta à inflação, que dá sinais de que perdeu fôlego e acena com uma trégua a partir de maio e, mais acentuadamente, nos próximos meses. Uma perspectiva que tende a devolver margem real de ganho, acima da inflação, a aplicações tradicionais como caderneta e fundos de renda fixa, que tiveram rendimento negativo nos últimos meses.

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