Especialista explica como lidar com a nova dinâmica do mercado

Regina Pitoscia

13 de dezembro de 2019 | 00h58

A taxa de juro desceu mais um degrau e está em 4,5% ao ano e o rendimento da renda fixa tende a cair ainda mais, nem por isso o investidor deve se desesperar na tentativa de obter a melhor remuneração para o seu dinheiro.

Na visão do diretor-executivo da Valora Gestão de Investimentos, Daniel Pegorini, a preocupação com as finanças não deve aparecer somente quando os juros atingem a mínima histórica ou quando existe a perspectiva de alta para a bolsa, os cuidados devem ser permanentes.

“Não é porque o juro está baixo que eu devo correr e concentrar as aplicações em apenas um ativo. É preciso calibrar, mas não deixar de ter renda fixa, Tesouro Direto, assim como em nenhum momento eu devo deixar de ter bolsa na minha carteira. A pulverização deve ser constante”.

O executivo faz questão de ressaltar que a queda dos juros é saudável para o País, para o seu desenvolvimento, para os empresários que precisam de crédito para crescer, para a geração de empregos. Ele reconhece que, na outra ponta, o rendimento cai na renda fixa, e essa situação requer um mudança de postura do aplicador.

“O brasileiro estava mal-acostumado, há 15 meses atrás todo mundo podia ficar no Tesouro Direito ganhando um juro real de 4% a 6% ao ano, sem precisar fazer nada”. Essa combinação de rentabilidade alta sem risco já não existe mais, o que tira o investidor da zona de conforto. Agora, ele terá de dedicar mais tempo para entender, acompanhar e planejar suas aplicações.

Com isso, será possível ter uma posição crítica e mais segura para definir onde empregar o dinheiro, ainda que com a ajuda de gerente ou agente de investimentos. “Vale a pena aproveitar o fim do ano para pensar o que você quer conseguir com a sua carteira no ano que vem. O investidor é o principal responsável pelas escolhas”.

Partindo desse princípio, passa a ser imprescindível fixar metas e conhecer como funciona cada aplicação. “Não dá para reclamar nem ficar culpando o gestor, se você não entendeu o produto. É obrigação se inteirar, além de todo mês avaliar o desempenho, o retorno dos investimentos.”

Nessa empreitada, recomenda o executivo, o aplicador deve se livrar do CDI como parâmetro de comparação com o retorno da renda fixa, e passar a se basear no juro real, aquele que supera a inflação. Um bom exercício, nesse sentido, é definir qual o ganho pretendido com os investimentos no próximo ano. “Se quiser ter um ganho real em torno de 3%, e a inflação está projetada para 3,5%, então eu preciso ir atrás de uma carteira que renda de 6,5% a 7% no ano, e não mais tantos por cento do CDI”.

Além do planejamento e acompanhamento, em uma realidade de juros baixos, Pegorini afirma que é crucial também olhar os custos de uma aplicação. Quando a taxa era mais robusta essa era uma questão que até poderia ser deixada de lado, mas hoje não dá para entrar em um fundo de investimentos sem saber qual a taxa de administração cobrada, com o risco de ter prejuízo.

A diversificação

Se durante décadas a bolsa ficou escanteada diante dos atrativos da renda fixa, Daniel reconhece que há agora um movimento inverso, em que o aplicador está abandonando a renda fixa para tentar obter ganhos diferenciados na renda variável. “Não é porque a bolsa tem a perspectiva de alta que o aplicador deve aplicar 50% do seu patrimônio em ações. Isso não é saudável do ponto de vista de médio e longo prazo”, ensina ele.

E explica por que: se a bolsa tiver sucessivas altas, não fica descartado pra janeiro, fevereiro ou março, um movimento de realização de lucros, quando o aplicador vende as ações para embolsar os ganhos obtidos, provocando uma queda da bolsa e efeitos negativos sobre esses investimentos.

O ideal é partir para a diversificação. Segundo ele, o equilíbrio está em distribuir em partes proporcionais ativos de maior e menor risco: 25% em fundos de renda fixa; 25% em fundos imobiliários; 25% em fundos multimercados e 25% em fundos de ações.  E aí numa escala do menos para o mais arriscado. E por que em fundos? É uma forma de estar em todos os mercados e com uma administração especializada, feita por profissionais que acompanham e conhecem cada mercado.

Claro que esses porcentuais podem ser um pouco acima ou um pouco abaixo, dependendo do perfil do investidor, do seu apetite ao risco. O importante é entender que essa pulverização permite que eventuais perdas em determinado segmento sejam compensadas em outro.

Especializado na gestão de fundos, o executivo fala dos diferentes tipos de carteira dentro de uma mesma família. Por exemplo, entre os fundos imobiliários, bastante procurados nos últimos meses pelos investidores interessados em rendimentos mais interessantes, existem os fundos de tijolos, que têm como lastro um edifício, prédios corporativos, os de crédito, com papeis emitidos para financiamento dos empreendimentos, e os fundos com lastro em shopping centers.

Tanto os de tijolos como os ligados a shoppings se assemelham mais à renda variável, às ações. Eles tendem a apresentar melhores resultados quando a economia está aquecida, porque vão permitir a ocupação dos prédios encorpando o rendimento com os alugueis dos imóveis e, no caso dos shoppings, ainda com o resultado das vendas, que vem em forma de dividendos aos cotistas dos fundos. Já os fundos ligados a crédito reagem mais ao comportamento dos juros, como a renda fixa.

Por causa dessa variação, ele recomenda que a diversificação seja ainda mais ampla, alcançando dois ou três tipos de fundos em cada família. E uma vez promovida a divisão é preciso ter calma, sem avaliar o fundo pelo resultado de apenas um mês, mas sim de 6 a 12 meses.

Em relação à rentabilidade dos fundos imobiliários, o gestor ressalta que há muita variação em função dos ativos que compõem a carteira, no entanto, ele acha razoável que esses fundos, que oferecem um pouco mais de risco, venham a pagar juros reais (acima da inflação) de 3 a 4% ao ano, especialmente porque o setor imobiliário deverá ser fortemente beneficiado com a queda dos juros.

 

 

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