Euforia dá lugar a um otimismo cauteloso no mercado financeiro

Regina Pitoscia

12 Novembro 2018 | 00h07

(*) Com Tom Morooka

A instabilidade voltou como rotina do mercado financeiro após a definição da corrida eleitoral e se acentuou nos últimos dias. Desde o início do mês até a última sexta-feira, a Bolsa de Valores de São Paulo ou B3 acumula desvalorização de 2,04% – na semana passada, a bolsa recuou 3,14%. Já a cotação do dólar registra ligeira alta de 0,54% em novembro, até o momento. A valorização na semana foi de 1,23%.

Os investidores que deram o benefício da dúvida a Jair Bolsonaro continuam demonstrando confiança ao presidente eleito, mas também não escondem preocupação com real força do governo que sucede ao de Michel Temer, em 1º de janeiro, de levar adiante as reformas econômicas acenadas na campanha eleitoral.

A impressão é que o mercado financeiro que surfou na onda positiva da eleição de Bolsonaro, contagiado pelo otimismo com a agenda de reformas defendidas pelo capitão reformado do Exército, está caindo aos poucos na real. Causa certa inquietação a percepção de dificuldades e desafios do presidente eleito e da equipe do futuro governo nas negociações para a aprovação das medidas de ajuste fiscal, principalmente a reforma previdenciária.

“O choque da realidade está se impondo aos poucos”, constata Robério Costa, economista-chefe do Grupo Confidence, que atribui à ansiedade e a essa reavaliação de expectativas o ajuste em curso nos mercados, sinalizado pela perda de vigor do desempenho no mercado de ações e recuperação das cotações do dólar.

Costa vê até como naturais as dificuldades do novo governo, que ainda nem sequer tomou posse, lembrando que até agora havia apenas ideia das linhas gerais das principais propostas de reforma, sem explicitação mais clara, porém, do conteúdo delas.

O que a reação dos mercados parece transmitir é que só a expectativa criada por discursos reformistas não basta mais aos investidores. Existe uma espera ansiosa por propostas mais concretas que tenham chances de ser materializadas sob o novo governo.

Em relação à medida mais aguardada pelo mercado, a reforma da Previdência Social, por exemplo, o economista-chefe do Grupo Confidence diz que “não se sabe nem por onde vão começar as mudanças”, apesar da prioridade que o próprio Bolsonaro confere ao tema.

As últimas declarações do presidente Temer indicam que o governo atual poderia pinçar alguns pontos, sem apontar quais, da emenda constitucional que já está no Congresso para tentar promover mudanças por lei ordinária, por projeto de lei, a ser aprovada por maioria simples. A via, que dispensaria a aprovação por dois terços de deputados e senadores, seria um atalho para a rápida aprovação de medidas mais simples que não impliquem emenda à Constituição. A Proposta de Emenda Constitucional (PEC) da reforma previdenciária de Temer já passou pela comissão da Câmara e aguarda a aprovação do plenário.

Parte dos analistas e políticos que apoiam o presidente eleito entende, contudo, que não há necessidade de aprovar as mudanças a toque de caixa, no fim do mandato do atual presidente e sem que o novo tenha tomado posse, apenas para atender ao desejo dos investidores. O argumento é que a grande aspiração do mercado financeiro, evitar a volta do PT ao governo, foi concretizada com a vitória de Bolsonaro, que poderia reafirmar o compromisso de tocar a reforma previdenciária com mudanças mais duras já na largada de seu governo.

De todo modo, a sensação é que a lua de mel entre o presidente eleito e o mercado financeiro passa pelos primeiros tremores, embora sem sinais de grande estresse, por enquanto. A relação, contudo, poderia ficar mais tensa a partir da posse, avalia o economista da Confidence, dependendo das medidas e das ações do novo governo, que deve mostrar a que veio, sem o anteparo do governo atual de plantão no Palácio do Planalto.

“Caso o novo governo frustre as expectativas dos investidores, o mercado financeiro tende a reagir negativamente”, acredita Costa. A bolsa de valores tenderia a passar por quedas mais fortes e o dólar por valorizações mais acentuadas, dependendo do cenário que ficar desenhado, ou de que o governo corrobora o otimismo ou frustra as expectativas dos mercados.

O diretor da Ourominas, Mauriciano Cavalcante, avalia também que o mercado financeiro substituiu o sentimento de euforia, com a eleição de Bolsonaro, pelo de otimismo cauteloso, à espera ainda de novidades positivas que deem alento aos investidores. Especialmente avanços na proposta de reforma previdenciária, que tanto o presidente atual como o eleito pretendem passar no Congresso ainda este ano.

O economista da Confidence diz que os desafios do novo governo podem ficar maiores com a perspectiva de cenário externo mais adverso. A principal fonte de preocupação seriam os sinais de desaceleração da economia americana, dos países da Europa e chinesa, fenômeno que tenderia a provocar efeitos negativos em países como o Brasil, que já contam com enormes dificul