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Fernanda Camargo: O insustentável custo de investir desconhecendo fatores ambientais

Expectativa de mais volatilidade para os mercados em julho

Regina Pitoscia

29 de junho de 2020 | 01h01

(*) Com Tom Morooka

O mês que se encerra nesta terça-feira, fechando também o primeiro semestre, não foi todo mau para o investidor que teve sangue-frio para suportar e resistir aos solavancos no mercado de ações.

O resultado pelo menos até agora está positivo. A Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, entre idas e vindas, acumula valorização de 7,36%. Desempenho que, por enquanto, faz das ações o investimento mais rentável de junho.

O novo mês, que dá largada também ao segundo semestre, começa sob um cenário não muito diferente do que influenciou e balizou as decisões dos investidores nos últimos meses. Persiste o sentimento de dúvidas, dizem especialistas, sobre a evolução da pandemia do coronavírus e seus efeitos sobre a atividade, local e global, permeado, às vezes, por alguns momentos de otimismo, sobretudo vindo do exterior.

São as perspectivas de retomada econômica, alguns sinais de recuperação mais rápida de atividade nos Estados Unidos e também em países da Europa, aponta Fernanda Consorte, economista-chefe do Banco Ourinvest. “O comportamento das cotações no mercado de dólar, principalmente, tem sido influenciado bastante pelas expectativas em relação à reabertura e recuperação da economia global.”

Uma perspectiva mais positiva, com melhora no humor dos investidores, tem contribuído em geral para uma queda do dólar, “mas persiste no cenário uma preocupação com possível segunda onda de contágio do coronavírus, não só nos Estados Unidos, como também em países da Europa”, destaca Fernanda.

“Um ambiente de muita volatilidade continuará sendo o nome do jogo também em julho”, acredita a economista do Banco Ourinvest. Apesar da perspectiva de repeteco do clima de instabilidades e turbulências, ela comenta que os mercados de ações e de dólar tem reagido com diferentes intensidades a eventos e expectativas domésticas e internacionais.

Em sua análise, a bolsa de valores tem reagindo mais a expectativas econômicas em relação ao exterior, descolada do mercado de dólar, que se mostra sensível também às incertezas derivadas do confuso ambiente doméstico de crise política e econômica. Um cenário de incertezas agravado, na avaliação de Fernanda, pela pandemia, “que aparentemente se estabilizou em alguns centros e se propagou com força para o interior, compondo um cenário pior de doença que o de outros países.”

Embora a bolsa de valores siga trajetória influenciada mais pelo cenário externo, dissociada dos fundamentos locais, os fatores que balizam as expectativas locais embutem tamanha carga de incertezas que, de acordo com a economista-chefe, torna impossível apostar em uma trajetória de valorização mais forte da bolsa de valores.

Ainda assim, a uma pergunta sobre se o Ibovespa (o principal índice da B3) estaria com pinta de se deslocar para os 100 mil pontos, após passar o mês patinando ao redor de 95 mil pontos, Fernanda arrisca um palpite. Para ela, está na hora de o mercado de ações definir uma trajetória.

Em sua avaliação, está mais que no momento de a bolsa de valores sinalizar, de duas, uma trajetória. “Ou segue o que a realidade conjuntural do País está sugerindo, de recessão e aprofundamento da crise econômica”, o que colocaria o mercado em marcha à ré no processo de recuperação do mercado, “ou a expectativa dos investidores de uma recuperação mais rápida da economia local e global que impulsionaria o Ibovespa rumo aos 100 mil pontos” – o índice fechou sexta-feira acomodado em 93.834 pontos, dia em que recuou 2,24%.

Em meio ao persistente cenário coalhado de dúvidas e incertezas, Fernanda diz que uma das poucas certezas é que, em comparação com os juros, a bolsa de valores acena ao investidor uma alegria em rentabilidade que a renda fixa deixou de proporcionar. A dúvida é quando isso ocorrerá para o grupo de investidores que apostam no retorno de longo prazo que, com suas compras, continuar dando suporte ao mercado de ações.

A Bolsa de Valores de São Paulo acumulou desvalorização de 2,83% na semana, que fica ampliada para 18,86% no ano, até agora.

O dólar foi cotado por R$ 5,46 na sexta-feira, em alta de 2,58% no dia. A valorização na semana foi de 2,63%. O avanço no mês está em 2,25% e no ano, em 36,50%.

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