Expectativa é de estabilidade em 6,50% ao ano para nova Selic

Regina Pitoscia

17 de junho de 2019 | 00h34

(*) Com Tom Morooka

Esta semana, mais uma reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) e, mais uma vez, a expectativa da maioria dos analistas do mercado financeiro é pela manutenção da taxa básica de juros, a Selic, em 6,50% ao ano.

Se depender das previsões do mercado, a reunião do Copom, nos dias 18 e 19, não trará surpresas. Oportunidade para cortar a taxa existe, já que a inflação está baixa e comportada, a economia parada, o consumidor retraído, sem renda e apetite para compras. Faltaria disposição do Banco Central (BC) por motivos distintos aos que servem de argumento para o mercado em defesa da redução da taxa.

Para quem vê apenas a perspectiva inflacionária, a taxa básica de juro, embora acomodada em nível histórico de baixa, teria espaço para recuar mais um pouco como forma de tentar animar a atividade econômica, via aquecimento do consumo e da produção. O BC tem insistido em que precisa de tempo para avaliar a economia brasileira e decidir-se.

A redução dos juros é uma ferramenta que o BC tem à mão para pôr a economia na dinâmica do crescimento. As condições atuais da economia brasileira, porém, exigiriam muito mais que isso, para engatar a marcha do crescimento. Para analistas e economistas, faltaria sobretudo confiança no rumo da política econômica para a volta do investimento privado, na esteira do público, inviabilizado porque o governo está quebrado.

O BC estaria resistindo à ideia de cortes adicionais na Selic sob o argumento de que, embora baixa, a inflação estimada em um horizonte mais distante não tem recuado no mesmo compasso das revisões para baixo nas projeções de crescimento. E um corte nessas condições poderia ser precipitado e pôr em risco a credibilidade do BC como agente de ancoragem de expectativas caso a inflação desvie da rota prevista.

Ademais, cortes na Selic não têm provocado o efeito desejado na economia porque os juros cobrados nas diversas linhas de financiamento andam desgarradas e distantes da trajetória da taxa básica. Apesar da queda da Selic e em alguma proporção no custo do crédito, os juro atuais estão longe de estimular o consumo.

A Selic é o piso de juros da economia, a taxa primária que serve de referência para a formação das demais taxas na economia. Ela define o custo de financiamento para o Tesouro Nacional na colocação de títulos pós-fixados no mercado, como a LFT (Letra Financeira do Tesouro) ou Tesouro Selic, versão pela qual a LFT é conhecida na oferta pela internet na plataforma do Tesouro Direto.

Além de remunerar as LFT, a Selic é referência para a taxa de captação dos bancos. Ela corresponde à remuneração para quem aplica nesse papel, seja como cotista de um fundo de investimento que tem esse título em carteira, seja como comprador do título pela internet no Tesouro Direto.

Um corte na taxa Selic favoreceria, em princípio, o governo, que se financia com a oferta de LFT ao mercado porque o custo com o juro cai, e também os bancos, que passam a remunerar o aplicador com taxa mais baixa na renda fixa, sem necessariamente cobrar menos ao repassar esses recursos ao consumidor na ponta do crédito.

Sem entrar no debate das causas dessa disparidade entre a taxa de captação e de repasse, o chamado spread bancário, mas apenas por constatação, nota-se que o tomador de crédito pouco ou nada tem se beneficiado do ciclo de corte da taxa básica, que recuou de 14,25% ao ano, em março de 2018, para 6,50%.

Os juros cobrados nas diversas modalidades de financiamento seguiram a trajetória descendente da Selic, mas em uma escala de queda bem menor, o que, com raras exceções, mantém os juros do crédito proibitivos e os financiamentos inacessíveis para a maioria dos consumidores.

O segmento que tem captado instantaneamente as seguidas reduções da Selic é o da renda fixa, no mercado de investimentos. Além do achatamento do juro nominal, aplicadores não raro têm visto o ganho real com os juros escoar pelo ralo, tragado pelos repiques sazonais da inflação, como ocorreu no período recente.

Bolsa e dólar

O mercado financeiro gostou do relatório final da reforma previdenciária apresentado na última semana pelo deputado Samuel Moreira (PSDB-SP), relator do texto na Comissão Especial da Câmara. Apesar da concessão em alguns pontos, já previstos pelos mercados, e da proposição inesperada de outras medidas, como a taxação de bancos, o conteúdo geral do texto foi bem recebido, até porque o resultado final projetado não foge muito das estimativas iniciais.

Foi em clima de sentimento positivo com a aprovação de mudanças na Previdência, após a leitura do relatório, que os investidores decidiram embolsar os ganhos obtidos até agora, à espera dos novos lances da reforma. A Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, recuou 0,74% e o dólar avançou 1,16%, para R$ 3,90, na sexta-feira, movimento influenciado também pelo aumento de tensão no Golfo Pérsico, envolvendo o Irã.

Os investidores decidiram garantir os lucros porque consideram a próxima etapa de tramitação a batalha mais dura que a proposta de reforma vai passar na Câmara. É a fase de debates e de apresentação de emendas em plenário que podem redundar em mudanças do relatório apresentado e alterar as estimativas de ganho com as propostas de mudança no sistema de aposentadoria.

“Os mercados vão acompanhar os debates no plenário para tentar saber os pontos da reforma que vão passar, o que vai permanecer fora e o que pode voltar a fazer parte dela, para tocar os negócios no dia a dia”, analisa o economista-chefe da Infinity Asset, Jason Vieira.

Um dos pontos que mais atraem o interesse dos investidores, segundo Vieira, se refere à participação ou não de Estados e municípios na reforma previdenciária proposta pelo governo federal –  no relatório aprovado na Comissão Especial, esses entes estão fora.

Mercados e investidores, embora satisfeitos com o teor desse relatório até agora, estarão atentos às prováveis mudanças que serão incluídas durante a discussão no plenário e reagir a elas, positiva ou negativamente, de acordo com as expectativas geradas, diz o economista da Infinity Asset.

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