Expectativas eleitorais continuam ditando os rumos do mercado

Regina Pitoscia

15 de outubro de 2018 | 00h04

(*) Com Tom Morooka

Os mercados de ações e de dólar, no segmento de renda variável, estão e devem continuar sem tendência definida. Ambos têm reagido, em geral um na direção inversa do outro, a dados sobre o desempenho dos candidatos à corrida presidencial, de acordo com a preferência dos eleitores captada pelas pesquisas eleitorais. E também às notícias sobre propostas de cada um dos dois candidatos na área econômica, sobretudo as ligadas à privatização de estatais e às reformas, especialmente a da Previdência Social, para o ajuste das contas públicas.

O sobe-e-desce

A semana que passou deixou cristalina a influência desses eventos sobre os comportamentos dos mercados de risco. A bolsa de valores reagiu com forte valorização – fechou em alta de 4,57% – e o dólar com acentuada baixa de 2,35% – ao resultado das urnas que apontou a elástica vantagem do candidato Jair Bolsonaro, do PSL, sobre o candidato Fernando Haddad, do PT, no primeiro turno das eleições presidenciais.

O sentimento de otimismo dos mercados arrefeceu, mesmo com a divulgação de nova pesquisa Datafolha confirmando a tendência registrada pelas urnas no domingo – ampliação da folgada vantagem de Bolsonaro sobre Haddad –, quando o candidato do PSL declarou-se, na quarta-feira, contrário à privatização total de Eletrobrás e Petrobrás.

Essa declaração de Bolsonaro gerou um ruído no mercado financeiro e temor de mudança na estratégia do candidato favorável à privatização. Nessa data, a bolsa de valores encerrou o dia com queda de 2,80%, expressando a frustração dos investidores, e o dólar com valorização de 1,42%.

O mergulho da bolsa foi puxado pela forte queda das ações de companhias estatais, principalmente de Eletrobrás, a principal aposta dos investidores para a desestatização. A ação ON (ordinária nominativa, sem direito a voto, mas com preferência na distribuição de dividendos) recuou 9,21% e a PNB (preferencial nominativa da série B, com direto a voto) caiu  8,36% no dia. Na segunda-feira, dia seguinte ao primeiro turno das eleições, com o mercado sob euforia com a dianteira de Bolsonaro sobre Haddad, a ação ON da holding de energia elétrica fechou com valorização de 17,33% e a PNB, 18,31%.

Um olhar pelo retrovisor da semana, a comparação em retrospectiva do comportamento das ações da Eletrobrás na segunda-feira e na quarta dá boa ideia dos solavancos do mercado de ações. Mais que isso, dá respaldo às expectativas de analistas do que ainda pode vir pela frente.

Aposta do mercado

A expectativa é que esse comportamento, de altas e baixas dos mercados, seja mantido pelo menos até o segundo turno das eleições presidenciais, em 28 de outubro. O gestor da mesa de operações da corretora Coinvalores, Marco Tulli, diz que o mercado tem reforçado a aposta nas chances do candidato preferido dos investidores – Bolsonaro -, mas espera a confirmação do favoritismo, apontado pelas pesquisas eleitorais, na segunda rodada da eleição.

Caso o escolhido nas urnas seja o candidato do PSL e os nomes indicados por ele para a equipe e as propostas econômicas agradem aos investidores, acredita Tulli, a tendência é que no pós-eleitoral, considerado por ele o segundo estágio do processo de transição política, a bolsa de valores reforce a trajetória de valorização e o dólar recue mais.

A moeda americana, segundo o gestor da Coinvalores, segue em geral direção inversa à da bolsa de valores. Por essa lógica, poderia reagir com alta se houver mudança de expectativas, que hoje jogam em favor do mercado de ações. Em momentos de pessimismo, o fluxo para a bolsa se inverte, “porque o investidor vende ações e compra dólar, para proteção”.

O diretor da Ourominas, Mauriciano Cavalcante, diz que as propostas econômicas vagas e inacabadas, sem detalhes, anunciadas até agora pelos dois presidenciáveis deixam os investidores confusos. Ainda assim, diante do potencial crescente de vitória do candidato do PSL, ele prevê que o dólar pode recuar ainda para um nível em torno de R$ 3,60 e até R$ 3,50.

A ausência de propostas econômicas claras, que quando anunciadas ainda carecem de pormenores, apenas como balão-de-ensaio, cria incertezas e alimenta os movimentos especulativos nesses mercados.

Para profissionais

O brusco sobe-e-desce das cotações, feito gangorra, favorece a atuação de investidores familiarizados com os mercados e ágeis no gatilho que aproveitam esses movimentos para a compra ou a venda. Há investidores, por exemplo, que compram ações em momento de baixa, no início do pregão, apostando na valorização ao longo do dia e vendem esses papeis à tarde. Um giro rápido, em operação day-trade, de alto risco, que, se bem-sucedida, possibilita lucros em um mesmo dia.

Essas operações com maior dinamismo são feitas com papeis de alta liquidez, facilmente negociáveis, a maioria deles com forte peso na formação do Índice Bovespa (Ibovespa), principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo, conhecida também como B3. Em geral, papeis de empresas estatais, bastante sensíveis no momento a expectativas eleitorais e a propostas econômicas, e de bancos.

E a transação apenas de algumas ações do Ibovespa faz com que muitas vezes esse índice não reflita com fidelidade o comportamento geral do mercado de ações – o Ibovespa é composto, no momento, por 67 ações. Uma distorção que pode fortalecer o risco de quem se guia pelo desempenho desse índice para aplicar em bolsa de valores ou escolher os papéis para a compra.

Por causa dos fortes solavancos dos preços das ações, especialmente das de maior liquidez do Ibovespa, é mais prudente que investidores pouco familiarizados com o mercado que pretendem investir em ações não coloquem o pé na bolsa de valores neste momento de forte instabilidade.

Analistas preveem possível ciclo de valorização do mercado com a possível eleição do candidato do PSL, mas não descartam possíveis percalços no caminho da bolsa de valores, dependendo dos nomes escolhidos para a equipe econômica, o perfil de cada um deles e, sobretudo, propostas do vitorioso para as principais reformas e a privatização.