Fator político deve mexer com os mercados esta semana

Regina Pitoscia

28 de janeiro de 2019 | 00h18

(*) Com Tom Morooka

A semana que começa, a última de janeiro, emenda de bate-pronto com a largada de fevereiro. A próxima sexta-feira, 1º, pode ser dia decisivo para os mercados, porque marca o início dos trabalhos de deputados e senadores, eleitos ou reeleitos nas eleições de outubro.

O início do ano legislativo aguça a atenção de investidores sobre o andamento de planos e ações do governo do presidente Jair Bolsonaro, que completa um mês. A expectativa frustrada com o anúncio esperado de importantes medidas até agora não foi suficiente para mudar o bom humor do mercado financeiro.

A falta delas apenas fez crescer a ansiedade dos aplicadores, que continuam otimistas e com o benefício da dúvida estendido ao novo governo. Senão por outros motivos, porque seguem a lógica do calendário político, sem necessidade de corrida contra o relógio, tanto para o anúncio quanto para o envio das propostas de reformas ao Congresso.

As principais medidas de mudanças econômicas, incluída a da Previdência Social, precisam ser debatidas e aprovadas por deputados e em seguida por senadores. É natural, portanto, que cheguem ao Legislativo após o início dos trabalhos nesta sexta-feira.

Com um olho na divulgação de possíveis medidas, daqui para a frente o mercado acompanhará de perto também as articulações e movimentações para a eleição do presidente da Câmara e do Senado. A votação deverá ocorrer dia 1º.

Essa eleição atrai o interesse, especialmente, porque dos nomes escolhidos para o comando das duas Casas dependerão o andamento das propostas de reforma enviadas pelo governo – cabe aos respectivos presidentes a decisão, por exemplo, de colocar determinado projeto de lei em votação.

Além disso, a eleição desses comandos influencia também as negociações para a escolha de nomes de parlamentares para presidir as diversas comissões. A definição do nome do presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), por onde começa a tramitação dos projetos, é uma das mais concorridas e importantes depois da presidência da Câmara, porque pode dificultar, logo na largada, o andamento dos projetos.

A ideia é que os nomes de parlamentares com maiores chances de chegar à presidência da Câmara e do Senado, no âmbito das articulações em curso, e as propostas de reforma que o governo vier a anunciar por estes dias deem boa ideia de como seriam as medidas e as perspectivas de sua aprovação pelos políticos.

A tendência, portanto, é que a partir de agora fatos na esfera política passem a engrossar o cardápio de expectativas dos investidores e a influenciar cada vem mais as decisões de posicionamento no mercado financeiro.

Se houver a percepção de que a base de apoio ao governo no Congresso dará sustentação para a aprovação de medidas consideradas consistentes pelos investidores, a tendência seria que os mercados permaneçam dando continuidade ao clima favorável e engatem nova rodada de valorização das ações e de queda do dólar.

A escalada de valorização da bolsa de valores, quem vem batendo seguidos recordes de alta nominal, e a relativa apatia do dólar podem ser atribuídas à aposta mais firme na política econômica do governo Bolsonaro. Sobretudo com a agenda liberal, de reformas econômicas, ajuste fiscal e privatizações, do ministro Paulo Guedes, da Economia, reforçada em discursos e declarações na reunião de Davos, na Suíça.

Do discurso à prática

O fato é que o mercado financeiro, que vem reagindo até agora a expectativas, passará a reagir em algum momento a medidas concretas. Sobretudo ao anúncio de propostas para o ajuste fiscal, em que as mudanças nas regras de aposentadoria aparecem como prioridade máxima e às possibilidades de sua aprovação pelo Legislativo.

Se as medidas forem avaliadas como sustentáveis e houver a percepção de que são boas as chances de sua aprovação pelos parlamentares, o mercado financeiro teria tudo para embalar em nova onda positiva, que poderia levar o Ibovespa (Índice Bovespa, principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo) para os 100 mil pontos – até a última quinta-feira estava em 97.677,19 pontos – e a cotação do dólar comercial, que fechou em R$ 3,77 nesse mesmo dia, para níveis próximos de R$ 3,60 e até R$ 3,50.

Ainda mais se esse cenário atrair e trouxer o capital estrangeiro de volta às compras no mercado de ações, de onde saiu maciçamente no fim de ano e aguarda fatos novos na economia e na política para retornar à bolsa de valores do País.

Mesmo que haja confiança nas mudanças que deverão ocorrer no País, é preciso ficar atento a possíveis percalços pelo caminho que poderiam levar a uma mudança de humor e, por tabela, a uma reviravolta na trajetória dos mercados.

No caso da bolsa de valores, não se pode esquecer que eventuais fatos negativos podem fazer o mercado embicar para baixo. Afinal, as ações ostentam vistosa valorização neste início de 2019 – de 11,14% até quinta-feira -, sem contar a alta de 15,03% acumulada do ano passado, e investidores podem aproveitar esses momentos para venda, embolsar ganhos acumulados e retomar a compra de ações por preços mais convidativos.