Fatores que podem mexer com os mercados esta semana

Regina Pitoscia

27 de maio de 2019 | 00h32

O mercado financeiro encerrou a semana em um ambiente de humor mais positivo dos investidores, diferente do sentimento que permeou os negócios em seu início, com o dólar tendo disparado e ultrapassado os R$ 4,10 dias antes. A Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, fechou a sexta-feira em 93.627,80 pontos e valorização acumulada de 4,04% na semana. Já o dólar comercial foi cotado por R$ 4,016 na sexta-feira, com desvalorização de 2,09% no mesmo período.

A semana que começa, a última de maio, pode dar continuidade à expectativa positiva nos mercados diante dos sinais de avanço das reformas, principalmente a da Previdência Social, na Câmara. Não apenas essa, a da reforma administrativa, que prevê a redução, dentre outras medidas, do número de ministérios no governo Bolsonaro também caminhou, nos últimos dias, afastando o risco de que a medida provisória caducasse e tudo voltasse ao que era antes.

Apesar da melhor do clima e relaxamento da tensão política, investidores e mercado financeiro dirigem a expectativa à repercussão dos atos de apoio ao governo do presidente Bolsonaro, que aconteceram neste domingo em várias cidades. Em uma primeira avaliação, pelo número de participantes, o presidente não sai fortalecido da crise política e terá de articular uma base no Congresso para aprovação de medidas.

Esta semana promete mais emoções. Na quinta-feira, dia 30, está prevista outra manifestação de rua, desta vez contrária ao governo, sob o mesmo tema que motivou o ato de protesto anterior, há duas semanas, contra os cortes nas verbas às universidades federais, ainda que o governo tenha voltado atrás e aliviado parcialmente os cortes na educação.

Se os movimentos nas ruas podem adicionar novidades, acirrando a disputa política, a movimentação no Congresso sinaliza uma trégua na relação entre governo e deputados em torno de votação e aprovação das reformas econômicas. Isso depois que o próprio Congresso assumiu o papel de protagonista das principais propostas de reforma enviadas pelo governo. Paralelamente, por sua iniciativa, antecipou-se ao governo e deu largada aos debates para a aprovação de uma reforma tributária, para a simplificação da cobrança de impostos.

Esse protagonismo da Câmara, que dá sinais de ter assumido a rédea das votações sem as amarras das articulações com o governo, animou o mercado financeiro, com recuperação da bolsa de valores e interrupção da escalada do dólar, ainda que a cotação permaneça acima de R$ 4.

Apesar desse novo gás, o mercado financeiro permanece cauteloso, sem baixar a guarda. Ressabiados e escaldados, investidores querem ver acontecer para dobrar as apostas, diante das previsões de autoridades do governo. O ministro da Economia Paulo Guedes declarou, na quinta-feira, que a reforma previdenciária pode ser aprovada em até 60 dias e o ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, em menos tempo.

Um fator que pode atrapalhar essas previsões é o calendário. Junho é mês de festas juninas, eventos que tradicionalmente esvaziam o Congresso, porque deputados, principalmente nordestinos, aproveitam os eventos para ir ao encontro de suas bases eleitorais.

De todo modo, o que parece mais interessar aos investidores, por enquanto, é que a reforma previdenciária estaria aprumando de vez para a votação, sem aparentes danos significativos à economia prevista pelo governo nas contas públicas com sua aprovação – algo em torno de R$ 1,2 trilhão em dez anos.

O andamento da reforma da Previdência Social em ambiente político mais leve e menos dependente de articulação do governo, contudo, é apenas um dos focos de atenção. O mercado financeiro acompanha de perto também o cenário internacional, especialmente as idas e vindas das declarações do presidente americano Donald Trump em torno da disputa comercial dos Estados Unidos com a China.

Discursos que oram suavizam, ora acirram a tensão mercantil derivada do duelo comercial travado entre as duas maiores economias do mundo, sem perspectiva de desfecho rápido, com reflexos negativos nas economias dos demais países, sobretudo os considerados emergentes, dependentes de exportações de commodities para a China. Dentre eles o Brasil, grande fornecedor de minérios e grãos, que patina em recessão e, para alguns economistas, pode caminhar para uma depressão, um estágio de estagnação econômica piorado da recessão.

Por tudo isso, o cenário pode ter melhorado, mas as dúvidas e o impasse continuam, o que acena com a continuidade de instabilidade e turbulências no mercado financeiro, principalmente na bolsa de valores e dólar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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