Indefinição na renda variável, rendimento negativo na renda fixa

Regina Pitoscia

13 de maio de 2019 | 02h25

(*) Com Tom Morooka

Entre avanços e recuos – a bolsa de valores mais inclinada à baixa e o dólar comercial pendendo mais à alta – os mercados de renda variável se mantêm em trajetória indefinida, no ritmo de chove não molha.

A Bolsa de Valores de São Paulo, a B3, encerrou a semana passada com desvalorização acumulada de 1,82%, em 94.257 pontos, nível mais baixo desde 17 de abril, portanto em três semanas. O dólar comercial acumulou discreta alta de 0,13%, cotado por R$ 3,94.

Tempero político

Nos últimos dias, causou mal-estar nos mercados a percepção de que o governo poderá ser obrigado a ampliar as concessões políticas, além dos limites da ‘nova política’ defendida pelo presidente Bolsonaro, para chegar lá. Sem falar também das dúvidas recorrentes com o tamanho do ganho fiscal, como resultado da aprovação das mudanças previdenciárias, no fim da trajetória da reforma no Congresso.

Algumas exigências de partidos reunidos no Centrão, para se alinhar ao governo e ajudar no avanço da reforma, contudo, causam desconforto aos investidores, que consideram o atendimento aos pedidos um retorno à política do toma-lá-dá-cá ao ambiente de negociações. A desconfiança surgiu depois que o governo recriou dois ministérios, o da Integração Nacional e o de Cidades, em troca do apoio político.

São concessões que aparentemente poderiam aproximar mais a reforma de seu formato original, mas, pelas contas do mercado, o impacto imediato nas contas públicas seria desproporcional ao ganho com as mudanças, que viria apenas no médio e longo prazo. A economia prevista incialmente com elas é de R$ 1,2 trilhão em dez anos.

Outro sinal de que o encaminhamento das propostas econômicas, incluída a reforma previdenciária, podem esbarrar em dificuldades ficou cristalizado na decisão do Congresso de retirar o Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) do âmbito do Ministério da Justiça, comandado por Sergio Moro. Uma decisão que põe em dúvida a articulação do governo com o Congresso que poderia colocar as tratativas da reforma da Previdência em zona de certa turbulência.

Sem definição

Tanto o segmento de ações como o de dólar, os mais sensíveis às expectativas políticas e econômicas, estão à espera de novidades que possam trazer algum alento aos investidores. Por ora, as movimentações referem-se a rápidas operações com ações de primeira linha, as mais facilmente negociáveis, como as de bancos e companhias que exportam commodities.

São essas operações, que aproveitam os momentos de alta para a venda e de baixa para a recompra, que têm dado o tom dos negócios na bolsa de valores. Dessa forma, o clima de instabilidade derivado dessas incertezas aumenta o risco de quem compra ações para a formação de carteira com visão de prazo mais longo.

De acordo com essa análise, seria mais interessante o investidor se manter cauteloso, acompanhar o cenário político e econômico com o dedo no gatilho e emitir ordem de compra quando o cenário estiver mais claro e mais propício à retomada consistente de alta do mercado.

Por enquanto, a expectativa é que o Ibovespa (Índice Bovespa, principal índice da B3) continue girando em torno de 95 mil pontos, mais inclinado à queda. Perspectiva de que venha a caminhar em direção aos 100 mil pontos está, por enquanto, fora dos prognósticos de especialistas e analistas.

Além das dúvidas em relação ao andamento da reforma previdenciária no Congresso, contribuiu para aumentar o sentimento de apreensão do mercado o aumento do tom de ameaças do presidente americano Donald Trump de elevar a taxação de produtos importados da China.

As negociações entre os dois governos estão em andamento, mas o temor é que uma falta de acordo venha a provocar reflexos negativos na economia global, que já sofre com o baixo crescimento. Com piora também da economia brasileira, que, mesmo com inflação e juros baixos, não consegue tração para avançar.

O dólar segue a mesma toada da bolsa, entre indas e vindas das cotações, que, de acordo com o diretor de Câmbio da Ourominas, Mauriciano Cavalcante, tende a continuar trafegando em intervalo entre R$ 3,96 e R$ 3,92, sem fôlego, aparentemente, para rumar ao nível de R$ 4. A menos que algum fato novo, doméstico e externo, venha a fortalecer o estresse do mercado financeiro.

Remuneração negativa

Embora a temporada de repique da inflação, que marcou os meses iniciais do ano, dê sinais de que está passando, em abril ela gerou rendimento negativo na renda fixa.

O IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), considerado a inflação oficial, cravou 0,57% em abril, de acordo com o IBGE, que divulgou o dado na sexta-feira. Esse índice é mais baixo que o de 0,75% medido em março e inferior também às projeções de analistas e especialistas em acompanhamento de preços.

Mesmo mais baixa, essa inflação engoliu inteiramente o rendimento líquido médio proporcionado pela caderneta, fundos de renda fixa e DI, em torno de 0,35% a 0,45% no mês passado. A perspectiva é a de que a queda mais acentuada do IPCA prevista a partir deste mês tende a tingir novamente de azul a remuneração da renda fixa, que em termos nominais vai continuar raquítica, porque está referenciada em uma taxa Selic também baixa, de 6,50% ao ano.

 

 

 

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