Inflação de agosto dá sinais de recuo, mas dólar é pressão de alta

Regina Pitoscia

24 Agosto 2018 | 00h06

A inflação continua desacelerando em agosto. É o que aponta a alta de 0,13% do Índice de Preços ao Consumidor Amplo-15 (IPCA-15), calculado e divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), nesta quinta-feira. Medido com base na variação de preços no período de 13 de julho a 13 de agosto, o IPCA-15 é considerado o termômetro da inflação corrente e uma prévia da inflação oficial, calculada pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA).

A inflação oficial de agosto, apurada pelo IPCA, está estimada em 0,05%, menos da metade, portanto, do que aponta preliminarmente o IPCA-15, de acordo com as projeções de economistas e analistas do mercado financeiro consultados pelo Banco Central para os dados que compõem a última edição do boletim Focus.

A desaceleração do IPCA-15, comparado com o índice de 0,64% em julho, indica que ficaram para trás os efeitos do choque de oferta provocado pela paralisação dos caminhoneiros no fim de maio e início de junho.

Lideraram a queda do IPCA-15 em agosto os grupos de alimentação e bebidas e transportes, os que responderam com maior elevação de preços aos bloqueios nas rodovias causados pelo movimento dos caminhoneiros.

Atuou em sentido contrário, na direção da alta do índice, o grupo saúde, como reflexo de aumento dos planos de saúde, retroativo a maio, autorizado em junho pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

Passados os efeitos da paralisação dos caminhoneiros, a impressão é que a inflação está de volta a seu leito de normalidade e bom comportamento.

Renda fixa no azul

A prévia da inflação de agosto já deixa o investidor no mercado de renda fixa mais confortável. Depois das perdas com o repique da inflação em junho e julho, agosto promete tingir de azul o rendimento das aplicações remuneradas por taxas de juro atreladas à taxa básica, Selic.

Fundos DI e de renda fixa, além de caderneta de poupança, acenam com um rendimento líquido médio em torno de 0,35% a 0,45% em agosto, o que assegura margem real positiva em relação à inflação prevista.

Nessa toada, a expectativa é que aos poucos as aplicações de renda fixa compensem os prejuízos que o investidor amargou no meio do ano. Para uma rentabilidade semelhante à de agosto na renda fixa, a inflação de junho calculada pelo IPCA saltou para 1,26% e a de julho, para 0,33%.

Volta de incertezas

A questão é que a trajetória da inflação pode não ser tão tranquila, como se previa, após a neutralização dos efeitos do bloqueio das rodovias pelos caminhoneiros no meio do ano. Já começam a surgir dúvidas sobre a manutenção dessa trégua, por causa do esticão das cotações do dólar.

A moeda americana foi cotada por R$ 4,12 no fechamento desta quinta-feira, sustentando sete altas consecutivas e acumulando valorização de quase 10% desde o início do mês – a alta está em 9,87%, até agora.

A aceleração do dólar, que leva à desvalorização do real na mesma proporção, em geral costuma provocar alta de preços, principalmente dos produtos importados, que depois se espraiam sobre os demais. A expectativa é que, entre os primeiros preços a subir, estejam o do pão, dos combustíveis e da carne.

O bolso vai doer também para os que viajam ao exterior, já que a alta do dólar leva a uma cotação mais elevada, acima da do comercial, no mercado de dólar-turismo.

A preocupação desta vez parece maior, porque a pressão sobre a moeda americana é vista como mais duradoura ou prolongada. Ela tenderia a persistir pelo menos até o término das eleições, até a definição do candidato vencedor, ou estender-se até que se clareie o cenário com as propostas econômicas do novo governo, que assume o comando do País em 1° de janeiro.

Uma possibilidade é que, para conter eventual repasse mais forte da escalada do dólar para os preços, com reflexos negativos sobre a inflação, o Banco Central (BC) retome a alta da taxa básica de juros, a Selic, que está acomodada em 6,50% ao ano.

De todo modo, é uma hipótese que o BC tenderia a avaliar com redobrada cautela, por uma série de motivos: o País estará atravessando um período de turbulências políticas, o impacto da alta do dólar sobre a inflação ainda não está suficientemente claro, a economia está patinando, sem sinais de reação. Ademais, uma alta da Selic teria um custo bastante indesejável, a elevação da dívida pública, agravando o déficit público e a crise fiscal.

Do ponto de vista do aplicador, por enquanto esse nível de taxa básica parece suficiente para remunerar as aplicações de renda fixa com ganho real, embora discreto, pelo menos ainda por algum tempo.