Inflação de junho de 1,26% engoliu o rendimento das aplicações

Regina Pitoscia

09 Julho 2018 | 00h17

Como se esperava, a inflação teve forte aceleração em junho, como efeito principalmente dos transtornos provocados pela greve dos caminhoneiros. O movimento que, no fim de maio, bloqueou as estradas e estrangulou o abastecimento de produtos e redundou em alta de preços de combustíveis e alimentos refletiu-se em uma inflação de 1,26%, segundo dado divulgado pelo IBGE na sexta-feira.

A disparada dos preços em junho elevou a variação acumulada pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo, que mede a inflação oficial) nos últimos 12 meses, até junho, para 4,39%. Mesmo que mais encorpado, esse resultado está abaixo ainda da meta inflacionária central de 4,50% fixada para o ano.

Os principais vilões do salto da inflação, que vinha de uma alta de 0,40% em maio, foram, além dos alimentos, os combustíveis e a energia elétrica. A aceleração dos preços, embora considerada passageira, levou parcela maior do rendimento e reduziu o poder aquisitivo das famílias.

Normalização dos preços

Passado o choque recente de alguns produtos, a perspectiva, na avaliação de especialistas, é que os preços voltem a níveis anteriores, sem abrir espaços para novos reajustes ou altas para os demais itens. O motivo, explicam, é que a oferta de produtos foi normalizada, sem dar carona a outras altas, porque a economia está fraca e o consumo baixo, o que impede o reajuste de preços tanto por quem fabrica como quem vende no comércio.

Os preços na economia seguem a velha e irremovível lei da oferta e da procura. Sobem quando a procura por produtos e serviços é maior que a oferta e caem quando ocorre o contrário, quando sobram.

De todo modo, quem consumiu produtos cujos preços dispararam sentiu os efeitos no bolso, ainda que momentaneamente. O mais indicado seria ter evitado a compra de mercadorias caras, sabidamente momentâneas, e substituído por outras, já que a expectativa era que mais cedo do que tarde os preços voltariam a trafegar pelo canal anterior, mais baixo.

Uma fonte de pressão de alta da inflação poderia vir da forte valorização do dólar, que desvaloriza o real e encarece os produtos e insumos importados. Ainda assim, a expectativa é que a renda baixa que enfraquece o consumo seja uma barreira que impede o repasse dessa alta para os demais preços da economia.

Aplicação perde em junho

A escalada da inflação em junho, que esfolou o bolso do consumidor, deixou estragos também para o rendimento de quem tem aplicação financeira. O dinheiro que está na caderneta terá remuneração de apenas 0,37% em um mês que a inflação rodou acima de 1%.

A poupança continuará rendendo 70% da taxa básica de juros enquanto a Selic permanecer igual ou menor que 8,50%.

Os fundos de investimento que têm o rendimento atrelado à taxa Selic também amargaram forte perda real neste mês, já que a rentabilidade nominal da maioria dos fundos de renda fixa e DI andou alinhada com a da poupança, ao redor de 0,40%.

Ganho no semestre

Embora tenha o rendimento tingido de vermelho em junho pelo salto da inflação, a renda fixa, na conta dos especialistas em investimento, acumulou rendimento positivo no primeiro semestre. As aplicações conservadoras contabilizam rentabilidade média em torno de 3,20%, acima da inflação de 2,60% do IPCA, nos primeiros seis meses do ano.

Também no semestre, o dólar acumulou valorização nominal de 16,99%, ganho que embute margem real positiva, acima da inflação, em torno de 14%, descontada variação do IPCA no semestre.